UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ

ESCOLA DE COMUNICAÇÃO – ECO

INSTITUTO BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA – IBICT

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO – PPGCI

 

DANIEL RIBEIRO MERIGOUX

 

 

 

 

 

 

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA, A BARREIRA DA LINGUAGEM:

Univocidade e acumulação de conhecimento, reprodução e desigualdade simbólicas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RIO DE JANEIRO

2014

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ

ESCOLA DE COMUNICAÇÃO – ECO

INSTITUTO BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA – IBICT

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO – PPGCI

 

DANIEL RIBEIRO MERIGOUX

 

 

 

 

 

 

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA, A BARREIRA DA LINGUAGEM:

Univocidade e acumulação de conhecimento, reprodução e desigualdade simbólicas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RIO DE JANEIRO

2014

DANIEL RIBEIRO MERIGOUX

 

 

 

 

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA, A BARREIRA DA LINGUAGEM:

Univocidade e acumulação de conhecimento, reprodução e desigualdade simbólicas

 

 

 

 

Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em  Ciência  da Informação , convênio entre o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia e a  Universidade Federal do Rio de Janeiro/Escola de Comunicação , como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Ciência da Informação.

 

Orientadora: Maria Cecília Mollica

Co-orientadora: Marisa Beatriz Bezerra Leal

 

 

 

 

 

 

 

 

Rio de Janeiro

2014

Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.

M561Merigoux, Daniel Ribeiro

Divulgação científica, a barreira da linguagem: univocidade e acumulação de conhecimento, reprodução e desigualdade simbólicas. – 2014.

389f.:il.

 

Tese (Doutorado em Ciência da Informação) –  Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação,  Rio de Janeiro, 2014.

 

Orientadora: Maria Cecília Mollica

Co-Orientadora: Marisa Beatriz Bezerra Leal

 

1. Divulgação Científica. 2. Ciências da Linguagem. 3. Ciência da Informação – Teses. I. Mollica, Maria Cecília (Orient.). II. Leal, Marisa Beatriz Bezerra (Co-Orient.). III. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Escola de Comunicação. IV. Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia. V. Título

CDD: 020

 

 

 

DANIEL RIBEIRO MERIGOUX

 

 

Divulgação científica, a barreira da linguagem: univocidade e acumulação de conhecimento, reprodução e desigualdade simbólicas.

 

 

Tese (Doutorado em Ciência da Informação) –  Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação,  Rio de Janeiro, 2014.

 

Aprovado em: 7 de abril de 2015.

 

Banca Examinadora

Profª. Drª.

Julgamento:

Jacqueline Leta

Instituição:

Assinatura:

IBICT-UFRJ

Profª. Drª.

Julgamento:

Maria Andréa Loyola

Instituição:

Assinatura:

IMS-UERJ

Profª. Drª.

Julgamento:

Maria Cecília de Magalhães Mollica

Instituição:

Assinatura:

PPGCI/IBICT-ECO/UFRJ (orientadora)

Profª. Drª.

Julgamento:

Marisa Beatriz Bezerra Leal

Instituição:

Assinatura:

IM-UFRJ (co-orientadora)

Profª. Drª.

Julgamento:

Rosali Fernandez de Souza

Instituição:

Assinatura:

PPGCI/IBICT-ECO/UFRJ

 

 

SÓCRATES. Ele é grego, não?, e fala grego?

SÓCRATES. E ele terá ciência, sem que ninguém lhe tenha ensinado, mas sim interrogando, recuperando ele mesmo, de si mesmo, a ciência, não é?

Platão,

O Mênon

 

No confronto com as formas expressivas da arte e com os produtos da razão ligados à esfera política, a linguagem dialética entra no âmbito público. […] A velha linguagem dialética também é utilizada fora da discussão: os ouvintes não são escolhidos, não se conhecem entre si, e a palavra é dirigida a profanos que não discutem, apenas escutam.

Nasce assim a retórica, com a vulgarização da primitiva linguagem dialética.

Giorgio Colli,

O nascimento da filosofia.

 

Qual é a linguagem acessível ao grande público? Baseado em que estudos e pesquisas podemos concluir que existe efetivamente uma linguagem acessível a uma clientela tão heterogênea?

Wilson da Costa Bueno.

Jornalismo científico: conceitos e funções.

 

palavras que, sabe-se, adquirem seu valor na luta pelo fato de serem alvo da luta entre interesses diferenciados. E nós, para falar dessas lutas e em todos os universos que designo como "campos" [champs]essas espécies de pequenas arenas em que se desenrolam coisas diferentes: pode ser o campo científico, o campo político ou o campo dos historiadores, o campo dos sociólogos, etc., em cada um desses universos, haverá palavras-chave pelas quais alguém vai lutar.

Pierre Bourdieu,
O sociólogo e o historiador.

 

À paciência,

À Aparecida, à Ilva

A meu “Guru” Maria Andrea e ao pai tradutor, a Bourdieu.

Aos amigos, ao Tom e Marina, família, colegas.

 

 

AGRADECIMENTOS

À CAPES, que financiou parte da pesquisa.

À orientadora Cecília Mollica e co-orientadora Marisa Leal, às bancas de qualificação e de doutorado.

Ao Muniz Sodré e Maria-Célia Hernandes.

À Armelle Le Bars e Dejanirah Couto.

Ao Antônio Carlos Luz Hirsch.

A todo o IBICT pela acolhida e compreensão. Às bibliotecas da UFRJ.

 

RESUMO

A existência de uma barreira da linguagem, transponível por uma “tradução” em que se perde a verdade pura, justifica geralmente a Divulgação Científica (DC). Problematizamos esse pressuposto retraçando as diferenças teóricas entre as linguagens ditas científica e leiga, bem como sua construção sócio-histórica. Concebemos a DC como parte de uma Comunicação Científica estendida, intra e extrapares, na perspectiva da acumulação de conhecimento, pautados mormente pelos conceitos de reprodução e capital simbólico de Bourdieu. Apreendemos cientista e leigo como atores comparáveis, embora socialmente distintos, recusando qualquer separação a priori, absoluta, natural ou anistórica entre eles. Os primórdios da DC são geralmente datados dos diálogos de Galileu e Fontenelle no século 17. Mas os modernos defendem primeiro o sigilo. Herdeiros do “Mênon” de Platão, aderem a uma filosofia pitagórica tão restrita ao par quanto o “artificial” latim, mesmo quando opõem a este o logos inato, vivo e dialético, representado pelos romances. Contra o poder central papal e o monopólio escolástico das universidades, a quantificação moderna do mundo legitimava os soberanos das nações europeias mercantilistas nascentes, patrocinadores das academias científicas oficiais. A linguagem do Livro da Natureza de Galileu é absolutamente divina: afirma um universo unificado e unívoco, acima das disputas clericais e interpretações qualitativas da Bíblia, mas nega à expressão leiga qualquer verdade científica, inviabilizando a Divulgação. Em vista disso, a DC surge na Atenas dos séculos 5 e 4 a.C., quando a retórica faz a dialética privada entrar na arena pública, governada por escolhas democráticas. Aristóteles seculariza a verdade filosófico-científica, imputando-a a um ato de fala humano, explicitamente regrado pela univocidade sistemática (uma palavra=um sentido), a qual distingue até hoje a linguagem científica da leiga. A definição do Termo impõe à determinação bivalente da verdade tanto quanto à sua comunicação a seleção de um único sentido correto entre aqueles possíveis, prefigurando uma teoria da informação, sem estatísticas. Associada à escrita e ao dialógico agonístico, a univocidade perpetua a ordem social pelo desempate e acerto simbólicos. Oposta à violência física e ambiguidade oraculares, transmite a verdade segundo um ideal de reprodução sem perda. Traduz partes do discurso profano em símbolos impessoais eternos, equivalentes às entidades pitagóricas imateriais e sagradas. Essas, demostradas pelo ato de fala, podem ser trocadas na ágora como bens simbólicos “purificados” entre cidadãos “pares”. A posse da verdade torna-se publicamente perceptível, “qualificando” o leigo pelo “déficit” simbólico, espiritual, moral, cognitivo, social. As linguagens lógico-matemáticas seguem ocultando as marcas linguísticas (pessoa, tempo e modalidade) do ator mortal que as profere. Na perspectiva quantitativa, histórica e progressista da Modernidade, a expressão da experiência e verdades antes incomensuráveis, torna-se unificada, previsível, replicável, incrementável, universal e capitalizável como divisas simbólicas. Antes portado apenas pela voz do filósofo, o ideal de reprodução é impulsado pela mecanização dos meios de comunicação: desde a imprensa até o sinal da comunicação digital, a verdade transmite-se com menor perda física, tempo e intervalo, a um público sempre mais numeroso e distante, enquanto a reprodução sócio-simbólica do cientista cresce exponencialmente. Contudo, nunca foram comprovadas a existência de uma comunicação absolutamente sem perda ou de uma unidade de sentido a priori ou naturalmente pré-segmentada, refutando uma diferença linguística irreversível entre científicos e leigos. Como o Hípaso de Metaponte da lenda pitagórica, divulgador efetivo da “imperfeição” dos números irracionais e origem humana da ciência, hoje os hackers expõem as falhas da linguagem computacional unívoca, a qual separa as sociedades ditas imaterial e material na “nova” ordem tecnológica informacional.

Palavras-chave: Divulgação Científica; Barreira da Linguagem; Linguagem Científica; Capital Simbólico; Univocidade;Tradução; Reprodução Social.

 

ABSTRACT

Science Popularization (SP) is generally justified by a language barrier, overcame by a “translation” that loses “pure” truth. We discuss this presupposition tracing the theoretical differences between so-called scientific and common languages, as well as their socio-historical construction. We assume SP is part of a Scientific Communication extended to both peers and non peers, in the perspective of knowledge accumulation, mainly based on Bourdieu's notions of symbolic capital and reproduction. We comprehend Scientists and laypersons as comparable actors, nevertheless socially distinct and not separated by any a priori, absolute, natural or innate characteristic. While it is admitted that early SP dates back to Galileo's and Fontenelle dialogs, the moderns prove firstly to be secretive. Heirs of Plato's Meno, they stick to a Pythagorean philosophy, as restricted to peers as the “artificial” Latin, even when they oppose to this the dialectic, innate and living logos, represented by romances. Against central papal power and scholastic university monopoly, moderns' universe quantification legitimates the emerging Mercantile European nations' sovereigns, who funded the official academies of science. The language of Galileo's Book of Nature is absolutely divine, above clergymen disputes and qualitative Bible interpretations. But it denies any scientific validity to lay expression of truth, then obstructing SP. Considering this, SP emerges in Athena during 6th-5th centuries BC, when rhetoric makes private dialectic enter the public arena, governed by democratic choices. Aristotle secularizes philosophico-scientific truth, imputing it to a human speech act, explicitly ruled by systematic univocity (one word=one meaning), which until now distinguishes scientific from common language. Term definition imposes to bivalent determination of truth and its communication the selection of a single correct meaning among possible ones, prefiguring an information theory yet without statistics. Combined with writing and agonistic dialog, univocity perpetuates social order trough symbolic settlement. Contrary to oracular ambiguity and physical violence, it transmits and accumulates truth according to an ideal of lossless reproduction. It translates parts of profane discourse into impersonal and eternal symbols, equivalent to Pythagorean entities, immaterial and sacred. Demonstrated trough a speech act, these can be exchanged in the agora, as “purified” symbolic goods, between citizen “peers”. Truth possession turns publicly perceptible, “qualifying” layperson by his symbolic, spiritual, moral, cognitive, then social “deficit”. Still, logico-mathematical languages hide the linguistic markers (person, tense, modality) of the mortal actor who utters them. In the quantitative, historical and progressive perspective of Modernity, the expression of incommensurable experiences and truths becomes unified and predictable, universal replicas that can be incremented and capitalized as symbolic currencies. Once restricted to philosophers' voice reach, the ideal of reproduction is boosted by the mechanization of communication techniques. From printing to the signal of digital communication, truth is transmitted with decreasing physical loss, time and interval, to an always more numerous and distant public, while scientists socio-symbolic reproduction grows exponentially.  Nevertheless, neither lossless communication nor naturally pre-segmented or a priori units of meaning have ever proven to exist in absolute, refuting any impassable linguistic differences between laypersons and scientists. Just as Hippasus of Metapontum in the Pythagorean legend indeed popularized the “imperfection” of irrational numbers, betraying the human origin of Science, today's hackers expose the flaws of the univocal computing language, which divides our “new” informational and technological order into the so-called immaterial and material societies.

Keywords: Popularization; Language Barrier;Scientific Language; Symbolic Capital; Univocal Meaning; Translation; Social reproduction.

 

RÉSUMÉ

La vulgarisation scientifique (VS) se justifie généralement par l'existence d'une barrière du langage, qu'elle dépasserait par une traduction où la pure vérité est perdue. Nous discutons ce présupposé par l'analyse des différences théoriques entre les langages dits scientifique et commun, ainsi que de leur construction socio-historique. La VS est conçue comme partie d'une Communication Scientifique étendue aux non pairs, dans la perspective de l'accumulation des connaissances, fondée principalement sur les notions de reproduction et de capital symbolique de Bourdieu. Bien que socialement distincts, le profane et le scientifique sont appréhendés comme des acteurs comparables, étant exclue leur séparation a priori, absolue, naturelle ou anhistorique. Bien que les débuts de la VS soient généralement datés des dialogues de Galilée et de Fontenelle, les modernes défendent tout d'abord le secret. Héritiers de l'antique Ménon de Platon, ils adhèrent à une philosophie pythagoricienne, aussi restreinte au pair que le latin « artificiel », bien qu'ils lui opposent un logos inné, vivant et dialectique, représenté par les romans. Contre le pouvoir central du pape et le monopole scolastique de l'université, la quantification moderne du monde légitime les souverains mercantilistes des nations européennes naissantes, pourvoyeurs des académies officielles de science. Le langage du Livre de la Nature galiléen est absolument divin : il affirme un univers unifié et univoque, au-dessus des disputes cléricales et des interprétations qualitatives de la bible. Mais en refusant toute validité à l'expression profane de la vérité, il condamne la VS. Sous cet aspect, la VS naît dans l'Athènes du Ve-VIe s. a. JC, lorsque la rhétorique fait entrer la dialectique privée dans l'arène publique, gouvernée par des choix humains. Aristote sécularise la vérité scientifico-philosophique, en l'imputant à un acte de parole humain, explicitement réglé par l'univocité systématique (un mot=un sens), laquelle distingue jusqu'à nos jours langage scientifique et commun. La définition du Terme impose à la détermination bivalente de la vérité, et à sa communication, que soit sélectionné un seul sens correct parmi ceux possibles, préfigurant une théorie de l'information sans les statistiques. Associée à l'écriture et au dialogue agonistique, l'univocité perpétue l'ordre social par le départage et le règlement symboliques. Opposée à la violence physique et à l'ambiguité oraculaires, elle transmet la vérité selon un idéal de reproduction sans perte. Elle traduit des parties du discours profane en symboles impersonnels éternels, équivalents aux entités pythagoriciennes, immatérielles et sacrées. Démontrées par l'acte de parole, celles-ci peuvent être échangées sur l'agora en tant que biens symboliques « purifiés », entre « pairs » citoyens. La possession de la vérité devient publiquement perceptible, qualifiant le profane par un déficit symbolique, spirituel, moral, cognitif et enfin social. Les langages philosophico-cientifiques néanmoins occultent les marques linguistiques (de personne, temps et modalité) du mortel acteur qui les profère. Dans la perspective quantitative, historique et progressive de la Modernité, l'expression d'expériences ou qualités auparavant incommensurables est désormais unifiée, prévisible, réplicable, incrémentale, universelle et capitalisable telle des devises symboliques. Avant porté par la seule voix du philosophe, l'idéal de reproduction est impulsé par la mécanisation des moyens de communication : depuis l'imprimerie jusqu'au signal de la communication numérique, la transmission de la vérité se fait avec une perte physique, temps et intervalle toujours réduits, à un public toujours plus nombreux et distant, tandis que la reproduction socio-symbolique des scientifiques croît exponentiellement. Mais ni la communication sans perte ni l'existence d'une unité de sens a priori ou naturellement pré-segmentée ne se sont vérifiées dans l'absolu, ce qui réfute une différence linguistique insurmontable entre scientifiques et profanes. Tout comme Hippase de Métaponte dans la légende pythagoricienne, proprement vulgarisateur de« l'imperfection » des nombres irrationnels et par là de l'origine humaine de la science, les hackers d'aujourd'hui exposent les failles du langage computationnel univoque, lequel, dans l'ordre techno-informationnel « nouveau », sépare la société dite matérielle de l'immatérielle.

Mots-clés : Vulgarisation scientifique ; Barrière du Langage; Langage Scientifique; Capital Symbolique; Univocité;Traduction; Reproduction Sociale.

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CC

Comunicação Científica

 

CI

Ciência da Informação

 

DC

Divulgação Científica

 

Disp. em

Disponível em

Orig.

Original

RI

Recuperação de Informação

PUS

Percepção pública da ciência [e tecnologia] (Public Understanding of Science)

 

Trad.

Tradução

 

Vers.

Versão

 

SUMÁRIO

 INTRODUÇÃO        17

1 DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA, LINGUAGEM: PROBLEMAS E QUESTÕES PRELIMINARES        19

1.1 Como se situa a DC em relação à Ciência da Informação e outras áreas?        19

1.2 Primeiras definições, origens        31

1.3 Problemática da relação entre informação e linguagem na CC e na DC        45

1.4 Informação, Linguagem, Ciência da Informação: questões epistemológicas        47

1.5 CI, DC e reprodução simbólica da sociedade        55

1.6 Estudo da DC e da linguagem científica na atualidade        57

1.6.1 Divulgação Científica ou “Public Understanding of Science”?        57

1.6.2 A linguagem científica e sua dupla face pouco conhecida dos cientistas        65

1.7 Recapitulação        72

2 OBJETIVOS E PRESSUPOSIÇÕES TEÓRICAS        78

2.1 Ciência da informação        83

2.2 Discurso        88

2.3 Verdade a priori vs. científica: proposição, sistema, tradução, “ator-rede” e habitus linguístico        90

2.4 Linguística, cognitivismo, sociolinguística, unidade, sentido, paráfrase, uso e regra        100

2.4.1 Segmentação das unidades linguísticas, comunicação da verdade e uso        102

2.4.2 O enunciador: falante como ator social        105

2.4.3 Ambiguidade, unidade de sentido, uso e regra: a via da paráfrase        107

2.4.4 Existe significado único e fixo, mecânica e indefinidamente acumulável?        114

2.4.5 O que é uma palavra?        116

2.4.6 Unidade de sentido, paráfrase e análise lexicográfica de corpus        120

2.5 Antropologia, sociologia, trocas simbólicas, informação e moeda        121

2.6 História das ciências        131

2.6.1 Comunicação da quantidade, verdade e construção matemática, face social dos sistemas numerais        131

2.6.2 Abordagem sócio-histórica        144

2.7 Classificação de conhecimento, “tipos naturais”, univocidade e segmentação        147

2.8 Recapitulação        153

3 METODOLOGIA, MÉTODO, FONTES DE DADOS E MATERIAL        173

3.1 Considerações gerais        173

3.2 Gênese, construção e divisões sócio-históricas do objeto        178

3.3 Questões teóricas e metodológicas específicas para a construção e estudo do objeto “barreira da linguagem”        181

3.4 Dados, material documental e período histórico analisados        186

4 ANÁLISE SÓCIO-HISTÓRICA DA DIVULGAÇÃO PELA DIFERENÇA ENTRE AS LINGUAGENS CIENTÍFICA E COMUM        193

4.1 DC, linguagens científica e comum durante a revolução astronômica, antes das academias reais        197

4.1.1 Visão geral do período        198

4.1.2 Linguagem e comunicação entre eruditos na Alta Idade Média e Renascença        201

4.1.3 Origens do gênero da Divulgação: cartas, diálogo e disputa        207

4.1.4 Os cientistas nos séculos 16-17: repressão e isolamento forçado        211

4.1.5 Latim vs. romances, escolásticos vs. modernos        214

4.1.6 Copérnico, Kepler e Galileu neoplatônicos: o diálogo e a mística do número        223

4.1.7 Mersenne: do gênero epistolar da “inviolável sociedade” ao gênero do discurso, passando pelo público, a caminho da língua universal        238

4.1.8 Discurso da Natureza ou sobre a natureza: Descartes, a pressão do enunciador divino e o sujeito gramatical        245

4.1.9 Língua natural, verdade científica e criação verbal: a “nova língua”        255

4.1.10 A linguagem, face conservadora e oculta da Revolução científica?        257

4.1.11 O livro de ciência nos séculos 16 e 17: o caso da França        264

4.1.12 Recapitulação        267

4.2 De volta à Atenas dos séc. 5-4 a.C.: divulgação, revolução no uso dos signos, univocidade e ideal de comunicação sem perda        273

4.2.1 Divulgação: dialética vs. retórica e verdade privada vs. pública        274

4.2.2 Univocidade: luta e desempate        277

4.2.3 Definição da definição em Aristóteles: tornar públicos o sentido e as relações entre as palavras        280

4.2.4 A frase nominal, cânone atemporal da sintaxe do discurso verdadeiro, e eterno remédio para a controvérsia?        281

4.2.5 Mito, contradição e história: encadeamento narrativo e encadeamento lógico        285

4.2.6 Aristóteles, retórica e CI: univocidade e teoria matemática da comunicação de Shannon e Weaver        286

4.2.7 Língua de tradição e língua técnica        290

4.2.8 Atualidade da retórica na CI        292

4.2.9 Univocidade e verdade como moeda de troca simbólica        292

4.2.10 Recapitulação        295

4.3 Das academias reais até a atualidade: da ciência oficial cumulativa à explosão da complexidade lexical        308

4.3.1 Fontenelle divulgador e historiador, revolução e consenso        309

4.3.2 Matematização do humano: probabilidades e progresso social        311

4.3.3 Mecanização da verdade, linguagem revolucionária, naturalidade das unidades linguística e cognitiva        313

4.3.4 Os signos das linguagens científicas são naturais ou convenções sociais?        315

4.3.5 A univocidade resiste à contradição?        318

4.4 A linguagem científica na CC do séc. 17 à atualidade: explosão da complexidade lexical e consequências para a DC        319

4.4.1 A CC no séc.20: sintagma nominal complexo e dificuldade de segmentação        319

4.4.2 Medida da dificuldade lexical de Hayes: indicador possível para a Divulgação        323

4.5 Recapitulação        328

5 CONCLUSÃO        330

5.1 Perspectivas de análise empírica da diferença de linguagem entre leigo e cientista        330

5.1.1 Método de análise        331

5.1.2 Dados: descrição sumária do corpus textual        332

5.1.3 Complexidade dos sintagmas nominais no português brasileiro e no panorama da informação no Brasil        337

5.1.4 Análise das propostas do CONSOCIAL        337

5.2 Conclusão: o ideal de reprodução sem perda        342

 REFERÊNCIAS        366

 ANEXOS        388

 Anexo 1: O Mênon, de Platão. Teoria da reminiscência.        388

 Anexo 2        390

 Anexo 3        390

 Anexo 4        391

 Anexo 5        391

 Anexo 6        392

 Anexo 7        393

 Anexo 8        393

 Anexo 9        394

 ÍNDICE ONOMÁSTICO        395

 

1INTRODUÇÃO

A Divulgação Científica (doravante DC), por um lado, visa a comunicação de conhecimentos científicos a um público heterogêneo, i.e. a cientistas de áreas diferentes, ou a não cientistas, especializados ou não. Por outro lado, as regras, leis e validade dos conhecimentos produzidos pela comunidade científica se caracterizam pela arbitragem de um público restrito de pares, supostamente homogêneo inclusive pelo uso de uma mesma “linguagem”. Nessas condições, como conceber uma participação efetivamente universal e ativa do público da DC, em qualidade de cidadão, na construção da ciência, teoricamente pública e universal? Não seria a DC uma relação de comunicação forçosamente unilateral e desigual, que reduziria o público a uma massa passiva e ignorante, sempre a reboque do progresso? Não haveria uma incompatibilidade entre o fechamento extremo de muitas áreas do conhecimento científico e a abertura irrestrita à participação do máximo de cidadãos de todos os grupos, em um máximo de setores públicos da sociedade, que pregam as democracias?

Ao lado disso, a diferenciação, condição de emergência de cada grupo distinto, e da diversidade que se espera representada em uma sociedade democrática, sempre causa algum fechamento, sem o qual, aliás, não haveria trocas. Mas como a diferença se tornou, no caso dos cientistas e não cientistas, uma barreira tal que, para ser transposta, resultou no desenvolvimento e institucionalização de uma forma de comunicação específica, conhecida sob a denominação Divulgação Científica, ou, mais recentemente, “percepção pública sobre Ciência”?

Os trabalhos da área aceitam geralmente, sem maiores explicitações, a existência das categorias do cientista e não cientista e sua diferença como um fato, e não uma suposição – senão um complexo conjunto de pressuposições ou hipóteses implícitas e não necessariamente verificadas –, a esse título sujeita à revisão. Poderia a DC aceitar como dadas e estáticas as categoriais que ela implica, quando seu propósito oficial é justamente agir sobre a estrutura social, aumentando a participação cidadã, fazendo circular conhecimentos verdadeiros entre o maior número? Evitar o questionamento de tais categorias não desacredita, e condena, de partida, a DC?

A DC justifica-se constantemente pela existência de uma “barreira”, causada pelo uso de linguagens ou “códigos”  radicalmente diferentes, que ela transporia por operações diversas: transcodificação, decodificação, recodificação, tradução... Supõe-se então que a linguagem é fundamental para diferenciar cientistas e não cientistas, e por aí para sua construção como categorias distintas. A presente tese dedica-se à investigação dessa suposição. Como, pelo visto, muito pouco se sabe sobre essa barreira, achamos útil começar por um capítulo preliminar, que forneça elementos suficientes para se ter uma visão geral da problemática da DC abordada pela linguagem, e as bases mínimas para fundar uma abordagem teórica. Contentemo-nos em dizer, por enquanto, que a Divulgação Científica (DC) será aqui concebida como parte da Comunicação Científica (CC), subárea da Ciência da Informação (CI), abordada pela distinção entre as linguagens científica e comum.

 

2DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA, LINGUAGEM: PROBLEMAS E QUESTÕES PRELIMINARES

Porque um capítulo preliminar, além da introdução? Ao contrário, talvez, de outras áreas, a Divulgação exige que indaguemos como nos é dada a separação entre quem é cientista e quem não é. Não podemos aqui simplesmente vestir a roupa do cientista, à exclusão de todas as outras, e automaticamente agirmos como tal. Quando o estudo contempla duas roupas possíveis, a do leigo sendo a segunda, torna-se necessário explicitar nossa posição.

A DC é um campo amplo, heterogêneo, complexo de se abordar. Por isso cabe começar por uma apresentação geral de sua vasta problemática, destrinçando as perguntas e discussões levantadas em nossa pesquisa.

Perguntamos primeiro como a Divulgação Científica–DC se situa, em relação à Ciência da Informação–CI e suas subáreas, em particular à Comunicação Científica–CC, e em seguida a outras áreas ou disciplinas limítrofes. Ampliamos o panorama passando em revista os possíveis recursos teóricos oferecidos pelas abordagens da Comunicação Social, Linguística, Sociolinguística, História das Ciências, Epistemologia e Ciências sociais.

2.1Como se situa a DC em relação à Ciência da Informação e outras áreas?

Em “Marcos históricos e políticos da divulgação científica no Brasil” (2009), Lena Vania Ribeiro Pinheiro, Palmira Moriconi Valério e Márcia Rocha da Silva discutem, sob o enfoque da CI, os “conceitos de divulgação científica nas suas inter-relações, convergências e distinções entre áreas” (2009, p. 2). Sugerem três fronteiras: “duas áreas são centrais nesta discussão, a Comunicação Social e a Ciência da Informação […] [e a ] Linguística, de forma breve.”.(id.) Começamos comentando a relação da DC com essas três áreas, antes de sugerir o exame de outras, em particular a Sociolinguística.

No que diz respeito à primeira demarcação, com a Comunicação social, a prática específica da Divulgação pelo jornalismo, assunto debatido entre os analistas da DC, não será tratada aqui. De fato, como veremos, não podemos fundar o estudo da DC em formatos ou suportes pré-definidos, que nela não existem. Pode assumir desde formas artísticas, como o teatro ou a ficção (científica), ou a cinematográfica, como o documentário, até o evento público.

A fronteira com a CI dar-se-á pela subárea da Comunicação Científica. A relação entre esta e a Divulgação, segundo o ponto de vista de Marcos Gonçalves Ramos (1992), relatado pelas autoras supracitadas, seria “de complementaridade ou extensão” (PINHEIRO; VALÉRIO; SILVA, 2009, p. 3): “A literatura sobre um determinado assunto, não compreende apenas os artigos científicos, mas todos aqueles que o discutiram, interna ou externamente à produção acadêmica, incluindo os artigos de divulgação científica.”.

Confrontemos, brevemente, esta visão da Divulgação com a de autores “clássicos”1 da  Comunicação Científica, como William Garvey, John Ziman e Jack Meadows.
O objetivo expresso de William Garvey emCommunication: the essence of science(GARVEY, 1979) é “descrever a estrutura da comunicação da ciência para os 'não-cientistas' de tal maneira que fique claro porque um dos maiores cientistas vivos [Francis Crick, co-descobridor da estrutura molecular do DNA] disse que 'a comunicação é a essência da ciência'”2(GARVEY, 1979, p. ix). Apesar disso, Garvey não trata expressamente de Divulgação em nenhum lugar do livro. Essa estaria, pelo menos, abrangida por sua definição da Comunicação Científica?
[…] nossa definição [da Comunicação Científica] inclui desde o espectro completo das atividades associadas com a produção, disseminação e uso da informação, desde o momento em que o cientista tem a ideia de sua pesquisa até a informação de que os resultados da pesquisa foram aceitos como constituintes do conhecimento científico. […]  Entendo comunicação científica como essas atividades de troca de informação que ocorrem sobretudo entre cientistas envolvidos ativamente na frente de pesquisa.3 (GARVEY, 1979, p. ix)

Não fica claro se Garvey inclui ou não a DC. Dependeria, afinal, do que ele entende porpúblico”, ponto que ele não aprofunda e que abordaremos mais adiante ao falar da participação. Em todo caso, se não a exclui expressamente, ele com certeza a pratica.

Em “Conhecimento público”, John Ziman (1979) apresenta a comunicação como sendo parte integral da ciência:

O objetivo da Ciência […] é alcançar um consenso de opinião racional que abranja o mais vasto campo possível. […] declar[o] que é esse o princípio básico sobre o qual se funda a Ciência. Não é uma conseqüência secundária do "Método Científico", mas sim o método científico propriamente dito. (ZIMAN, 1979, p. 24-25)

Paradoxalmente, esse defensor da dimensão social da ciência não esconde seu ceticismo quanto à viabilidade da divulgação para os não-cientistas, embora a considere essencial. Ele estigmatiza a intransponibilidade da chamada “barreira da linguagem” (PINHEIRO; VALÉRIO; SILVA, 2009, p. 12):

Tornou-se um lugar-comum dizer que a ciência se distanciou demasiadamente do leigo, que ninguém condescende em explicá-la numa linguagem simples, que se trata de um culto esotérico. Não acredito que a necessidade de popularizar a Ciência para o público em geral seja tão grande quanto a de popularizá-la para os próprios cientistas. O Sistema de informação da Ciência funciona muito bem quando se trata de acumular detalhes, mas se torna falho na tarefa igualmente essencial de reunir esses detalhes num sistema de ideias compreensível, coerente e analiticamente bem ordenado. (ZIMAN, 1979, p. 137)

Ziman relaciona claramente a linguagem científica com um problema central na comunicação com o “público em geral”, mas não o aprofunda, pelo menos nesta obra.

Meadows, historiador da ciência especializado em  comunicação e publicação científica, dedicou à Divulgação um artigo intitulado “The growth of science popularization: a historical sketch” (1997). Apresenta-a como uma produção desprovida de formato estável, ao contrário do da Comunicação Científica estrita e profissional, fixada no artigo desde o séc. 17. No século 19, a DC continuava usando a forma do livro, sob o gênero da “ficção científica” e, mais recentemente, a forma midiática do seriado televisivo, entre outras. Segundo Meadows, o controle da mídia (generalista) sobre a divulgação da ciência teria se tornado tão forte na atualidade que a seleção do fato científico a divulgar já obedece mais ao impacto de vendas gerado no público que à sua importância genuinamente científica. A Divulgação teria fugido do controle do cientista, deformando sua produção em proporções tais que desqualificariam seu caráter científico4. Poderíamos considerar que, a esse título, a mídia é um forma suplementar de pressão sobre a ciência, além das da política e da economia já mencionadas: uma pressão especificamente exercida sobre a prática de comunicação científica intergrupal.

Quanto à obra de Meadows, mais geral, “A comunicação científica”, trata explicitamente de Divulgação (a tradução a que nos referimos aqui usa “popularização”) (MEADOWS, 1999, p. 73) em uma seção intitulada “Comunicação com um público maior” (1999, p. 69-74). Embora forneça números precisos que indicam disparidades de representação entre as áreas divulgadas, a obra não contém nada explícito que deixe afirmar que se trata de um objeto específico. Quanto à seção em questão, contém menos de cinco páginas em um total de 270.

Em suma, a Divulgação não é considerada um objeto específico da Comunicação Científica, embora não seja explicitamente excluída desta, como o corroborariam os propósitos de Pinheiro, Valério e Silva:

Mesmo as definições de comunicação científica, incorporadas à Ciência da Informação, não se restringem à produção de conhecimento e sua comunicação entre cientistas, mas ao processo como um todo, incluída a disseminação, com suas fases, desde as fontes primárias até a sua reestruturação e recompilação em recursos secundários e terciários, hoje apresentados em formatos impressos e eletrônicos. (PINHEIRO; VALÉRIO; SILVA, 2009, p. 3)

Esse exame preliminar indica que há uma relutância, por parte dos autores clássicos da Comunicação Científica estrita, em assumir a filiação, por assim dizer, da Divulgação ao gênero científico. Mas, como esses autores tendem a abranger implicitamente a DC e não a recusam explicitamente, achamos legítimo inscrevê-la nessa reconhecida subárea da CI que é a CC. Adotamos portanto, nas grandes linhas, a visão de Marcos Gonçalves Ramos (1992) segundo a qual  a Divulgação situa-se numa relação de extensão com a comunicação restrita aos pares. Os cientistas, sendo nisso comparáveis a qualquer grupo, praticam e desenvolvem tanto uma comunicação intragrupal quanto intergrupal. Entendemos, assim, que ambas compõem solidariamente o conjunto da prática comunicacional do grupo dos cientistas, a face intergrupal sendo a extensão, evocada por Ramos, que completa a estrita comunicação intragrupal entre pares.

Tal abordagem permitiria, além do mais, dirimir o debate levantado por Zamboni (1997) no âmbito da Análise do Discurso – AD, como o relatam Pinheiro et al (2009, p. 4), de saber se a DC é um “subgênero” do discurso científico ou um gênero discursivo à parte. Se assumirmos que, em geral, a comunicação de todo grupo sempre é intragrupal e intergrupal, e que uma não pode ser concebida separadamente da outra, então nos parece arriscado compará-las através de critérios que podem facilmente assumir uma apreciação qualitativa, como se uma pudesse ser intrinsecamente inferior ou superior, ou mesmo autônoma, em relação à outra. Tal abordagem levaria no final das contas a pensar a relação entre DC e CC pela inclusão ou exclusão. DC e CC não seriam simplesmente complementares, mas indissociáveis, interdependentes, na medida em que foram – e continuam sendo – construídas uma relativamente à outra, segundo fronteiras que não são intrínsecas mas traçadas por atores que por sua vez se movem dentro de uma heterogeneidade social maior.

Privilegiar o foco da Comunicação Científica, que é o da CI, não pressupõe qualquer forma de qualidade imanente e superior do conhecimento científico sobre o não científico. Em um artigo sobre Terminologia e Divulgação, Valérie Delavigne, da linha da sócio-terminologia, resume nossa posição quanto a opor DC e CC pelo gênero discursivo (aprofundada na seção “Verdade a priori vs. Científica”, cap. 6):

[O modelo da tradução dá crédito] à existência de um discurso primário, facilmente identificável. Ora parece bastante difícil circunscrever esse discurso-fonte. Essa visão esquemática não reflete a complexidade dos discursos que se entrecruzam […]. Além do mais, postular um discurso origem dá crédito à ideia de uma ciência pura, mítica, utópica, fora da linguagem, que a divulgação macularia obrigatoriamente.5 (DELAVIGNE, 2003, p. 86)

O discurso primário em questão existiria mais como discurso de unidade política dos cientistas sobre seu próprio grupo que como conjunto bem delimitado de características estáveis observáveis. Por outro lado, diferenças existem. O que distinguiria a DC, em relação às formas de comunicação intergrupal em geral, é o fato, geralmente aceito pelos sociólogos e historiadores da ciência, que uma das partes envolvidas estruturalmente, a científica, se distingue por uma forte autonomia (tal como a entende (BOURDIEU, 1976)), a qual se funda na avaliação dos pares. É pela razão prática que a Divulgação científica comunica conhecimentos científicos previamente submetidos aos critérios da validação pelos pares, extensamente registrados e documentados ao longo da história, que nossa abordagem deve partir da Comunicação Científica, e não porque o discurso científico intragrupal seria em si mais ou menos correto, teórico, valioso, verdadeiro ou “puro”. Um cientista consagrado pelos pares em determinado assunto teria acumulado a legitimidade necessária para ter o poder de comunicar a ciência da forma como o escolhe aos interlocutores que escolhe. Tanto que a Divulgação é geralmente praticada por cientistas reconhecidos:

O poder simbólico de tipo científico só se pode exercer sobre o homem comum (como poder de fazer ver e fazer acreditar) se for ratificado pelos outros cientistas - que controlam tacitamente o acesso ao «grande público», através principalmente da divulgação. (BOURDIEU, 2004[2001], p. 81-82).

Resta que, da mesma forma que a divulgação não poderia ser reduzida à comunicação entre pares, ou deduzida inteiramente desta, todos os valores não científicos não poderiam ser reduzidos a verdades científicas, e os não cientistas não poderiam ser reduzidos a cientistas. O fato de a DC ser um processo de comunicação que assume a presença de partes necessariamente distintas, nos planos social, cognitivo ou linguístico, seria um traço diferenciador decisivo em relação à CC. Discutiremos adiante esse ponto que nos parece de suma importância para se conceber o papel da DC.

Diversos autores das áreas de sociologia e história das ciências, entre os quais podemos citar (BOURDIEU, 1976) ou (SHAPIN; SCHAFFER, 1985),  não consideram que o controle dos pares possa ser, nos fatos, totalmente exclusivo. Mas isso não impede que tal controle, entendido como uma prática sócio-cognitiva específica (instituída, i.e. oficialmente reconhecida, ou não) de arbitragem e seleção da validade, ofereça um critério de diferenciação, constante e comum aos diversos grupos, e que, a esse título, permita traçar na maioria dos casos alguma linha divisória entre a comunicação científica intra e intergrupal.

Fundar, no controle exclusivo dos pares, a diferença entre o conhecimento científico e o não científico, pode, por outro lado, ter consequências extremas, tratando-se de pensar a participação dos não cientistas na ciência. Por exemplo: o valor de verdade especificamente científico do conhecimento não seria levado, então, a ser excluído do escopo da participação, sob pena de o público passar a arbitrar o que é ciência e não é? Tocamos, aqui, a questão de saber se poderíamos admitir restrições a priori a uma participação na ciência por parte dos não cientistas, quando essa participação deveria ser universal por definição. Se, para muitos autores, a participação ativa dos não cientistas define a DC, é difícil caracterizá-la como prática.

Conforme o notamos, sociólogos e historiadores da ciência sustentam que o próprio controle dos pares sobre o conhecimento científico não é, de fato, extensivo, exclusivo e total. Há pressões diversas de outros setores, com seus distintos valores, sobre os cientistas e sua produção de conhecimento. Tais pressões, contudo, emanariam mais raramente dos grupos desprovidos de qualquer especialização. Quanto às pressões exercidas pelos poderes especificamente econômico e político, seriam não apenas constantes, como muito fortes, quando não invasivas, a ponto de ameaçarem ou até mesmo anularem a predominância, dentro da própria ciência, das regras fundamentais desta.6

Assim, a Divulgação confrontar-se-ia menos à possibilidade de pressão ou participação efetiva dos não cientistas na ciência, que à exclusão maciça da participação dos não especialistas e não poderosos em geral. O maior problema da Divulgação não seria, então, a estanquidade absoluta da ciência a valores e ações que não lhe são característicos, e que fariam dela um discurso absolutamente específico em si (e por aí fazendo da DC um discurso segundo em si) mas à diversificação – ou, melhor dizendo: quebra do monopólio – dos grupos que nela intervêm, pressionando regular e efetivamente os cientistas e seu discurso. Ora, a extensão da participação ao máximo de grupos sociais de uma sociedade à ciência, ou seja, a universalidade de acesso ao conhecimento científico, é, para muitos autores, como Laming (1952), um pré-requisito da plena Divulgação.

Nas fronteiras da Divulgação, Pinheiro et al.  (2009, p. 2,4) mencionam, ainda, a Linguística. Marcos Gonçalves Ramos, em sua dissertação de Mestrado, evoca Saussure, e inscreve expressamente seu trabalho na perspectiva da Semiótica (1992, p. 2,6). A Linguística parece-nos incontornável, inclusive tratando-se de estabelecer fatos acerca do conteúdo textual de documentos, sempre expressados por signos; sua utilidade em CI é discutida em particular na RI, no que diz respeito à elaboração de índices.

Contudo, a abrangência de um estudo sobre Divulgação, que confronta usos de grupos socialmente heterogêneos, nos inclina mais para a adoção da Sociolinguística (MOLLICA; BRAGA, 2003). As pesquisas empíricas do linguista William Labov (1972) nessa área mostram que todo discurso encontra-se sob constante pressão social. Permitem-nos sustentar que a produção discursiva em geral, de qualquer grupo social particular, inclusive a dos pares, portanto a expressão linguística de sua avaliação, comunicação e literatura científica, nunca é absolutamente livre de pressões exógenas ou exclusivamente fundada em critérios puramente científicos, já que, como o estabeleceram diversos sociólogos e historiadores supracitados, o cientista sempre sofre alguma pressão de outros setores da sociedade.

Grifemos que a existência constante e irredutível de umjogosocial, através do qual pressões internas e externas são exercidas sobre a comunicação intra e intergrupal dos pares avaliadores, permite fundar cientificamente a legitimidade de uma participação dos não cientistas na ciência.

Além do mais, a sociolinguística é compatível com – e fundamenta em parte – a abordagem sócio-cognitiva da CI, iniciada por Rafael Capurro e Birger Hjorland (1999). Esta  abordagem, além do mais, oferece uma metodologia de RI. Juntas, dão-nos a base para pensar a linguagem científica como um socioleto associado a práticas cognitivas específicas, e superar a clivagem absoluta entre “sociedade” dos cientistas e a dos não cientistas, a qual inviabiliza a Divulgação (ao mesmo tempo que, paradoxalmente, a justifica).

Vejamos agora qual é tratamento dado à linguagem científica em três obras consideradas “clássicas” da Comunicação Científica. Será o mesmo que o da Divulgação, i.e. nem explicitamente descartada, nem incluída como objeto de estudo específico?

William Garvey declara seguir um enfoque comunicacional, mas não consta, emCommunication: the essence of science, nenhum título, subtítulo ou entrada de índice da obra, que contenha a palavralinguagemou qualquer outra afim, comovocabulário”,léxico”,terminologia”,signo”,termo”,definição”, ouambiguidade”. Há somente uma referência implícita à definição terminológica, que pode ser assimilada à linguagem científica: “…o estímulo à criatividade surge onde uma ampla falta de acordo, que vai desde a definição de termos técnicos comuns até o que constitui qualidade na ciência.” (GARVEY, 1979, p. 4) (itálicos nossos).

John Ziman, emConhecimento público”, não atribui à linguagem científica, no caso, aos termos, e nem mesmo a um uso específico do raciocínio, o papel de destaque na ciência:Os termos e conceitos usados podem ser muito obscuros e técnicos […,] o tipo de raciocínio usado nos escritos científicos não difere muito do que poderíamos empregar quando discutimos seriamente qualquer problema da vida quotidiana.” (ZIMAN, 1979, p. 23-24)

No que diz respeito à linguagem matemática, Ziman (1979, p. 60) escreve que seussinais padronizados, que possuem omesmo significado para qualquer leitor dotado de instrução, a tornaminteiramente pública. Fala, em seguida, de umalinguagem mental, que pode ser totalmente traduzida em outra, evocando a ligação direta entre os cérebros imaginada por Bernal. Ziman, em suma, nem exclui a linguagem científica de seu objeto de estudo, nem aprofunda seu papel no que considera a característica primordial da comunicação da ciência, a obtenção do consenso. Em suma, a linguagem na ciência não parece problemática para Ziman.

Jack Meadows, em sua obraA comunicação científica” (1999), em um trecho dedicado a Thomas Kuhn, fala explicitamente de “linguagem empregada pelos cientistas” (MEADOWS, 1999, p. 54). Após estender-se sobre as noções kuhnianas de revolução científica e paradigma, Meadows chega a apresentar a linguagem como um dos três desafios “aos cientistas em décadas recentes” (1999, p. 54). Ele observa:

O problema é que os vocábulos científicos apresentam-se necessariamente carregados de teoria, por mais que pareçam fáceis de entender. Por exemplo, força parece ser uma palavra bastante simples, porém seu significado [p. 55] científico é muito mais restrito do que seu emprego na vida cotidiana, e sua melhor definição se faz por meio de uma equação matemática. O processo de compreensão das palavras envolve uma interação entre o fornecedor da informação (seja um ser humano, um texto impresso ou palavras numa tela de computador) e a pessoa que recebe a informação. Deste ponto de vista, a transferência de informação é não só uma atividade difícil, mas também envolve alto grau de subjetividade na execução desse processo. (MEADOWS, 1999, p. 54-55)

Notemos que Meadows fala em vocábulos “carregados de teoria”, ou seja, termos teóricos, tais como Kuhn os descreve (2003[1977], p. 241). Contudo, Meadows descarta do propósito de seu livro o aprofundamento da linguagem como problemática da CC, em benefício dos dois outros desafios:

[saber ] se [como pergunta Kuhn] o conhecimento científico é de fato diferente de outros tipos de conhecimento […] [e se] a investigação científica está tão amarrada a outras atividades sociais que a pesquisa não pode ser vista como se constituísse uma entidade à parte diferente delas (MEADOWS , 1999, p. 54).

Mais adiante, ele escreve que “[t]odas as áreas especializadas desenvolvem seus próprios vocabulários” (1999, p. 122), mas não faz constar essa frase nas seções dedicadas à estruturação do conhecimento, como “Divisões do conhecimento” (1999, p. 56) ou “Examinando as diferenças entre as matérias” (1999, p. 61). O trecho aparece na seção “Legibilidade do texto” (1999, p. 121-122) no capítulo 4 intitulado “Canais de comunicação da ciência”, dedicado a critérios quantitativos de avaliação do texto científico, onde cita de passagem Lotka e Zipf. Ele volta a insistir nas palavras “carregadas de teoria”, mas limita-se a observar que seu número elevado aumenta a dificuldade de leitura. Meadows, em suma, descarta de sua obra clássica sobre comunicação científica a linguagem (ao passo que Kuhn a destaca, como veremos adiante), embora reconheça que se trata de fato de uma problemática central.

De forma análoga à DC, nenhuma das três obras clássicas examinadas inclui claramente a linguagem científica no escopo da CC, e tampouco a apresenta ou toma como um objeto de estudo específico. Por motivos opostos, contudo: se a DC não é uma filha declaradamente legítima da CC, a linguagem científica o seria tão naturalmente que dispensaria qualquer apresentação explícita.

Nos trechos de Ziman que citamos, a linguagem científica é assimilada ao sinal, i.e., mecânica e alheia aos problemas de interpretação. Ora, como veremos na seção 3.4, não achamos nenhum critério científico que permita afirmar que os símbolos matemáticos são exclusivamente sinais (stimuli) e não signos que, embora convencionados, são sempre suscetíveis de reinterpretação (em particular nos momentos de ciência “revolucionária”) ou de associação a algum valor social não exclusivamente científico. Mesmo supondo que a CC possa ser caracterizada unicamente pela dimensão sociocognitiva do controle dos pares, na DC, a linguagem é indispensável para dar conta da heterogeneidade das partes envolvidas, em suas diversas dimensões.

No que diz respeito às áreas ou disciplinas fronteiriças propostas por Pinheiro et al (2009, p. 2,4), acrescentamos, por fim, a Sociologia, em reforço das abordagens sociolinguística e sociocognitiva. Usamos em particular o sociólogo Bourdieu e seus conceitos de campo social e habitus7, que perpassam toda sua obra, bem como os de capital simbólico, trocas linguísticas (BOURDIEU, 1982) e lutas de classificação (BOURDIEU, 1982, p. 99)(BOURDIEU; WACQUANT, 1992, p. 20). Esses conceitos permitem tanto apreender o cientista e o não cientista como pertencentes a grupos simultaneamente distintos e sempre em relação, portanto como atores diferenciáveis mas comparáveis, não excludentes a priori, quanto analisar a classificação de documentos pelos sistemas de RI como relacionada de alguma forma à classificação social.

A Sociologia permite responder mais precisamente às seguintes perguntas: quem são, na sociedade, e como se situam nesta as partes envolvidas na DC? O que são leigos, iniciados, cientistas, não cientistas, especialistas, não especialistas, que tipo de diferenças supõe que lhes atribua uma existência social distinta? O que essas partes, e suas relações, implicam em termos de classificação e ordem social, e de comunicação?

A parte constante da relação é o cientista, ou, pelo menos, o conhecimento previamente produzido por ele e validado pela revisão dos pares, no caso de este ser retomado por um divulgador não cientista (jornalista, escritor, etc.). A DC é uma “estrutura” de comunicação da ciência que só concebe o cientista relativamente ao(s) grupo(s) distinto(s) com quem se comunica, grupo(s) cuja única característica constante seria a de não cientista; é o que permitiria distingui-la, do ponto de vista social, da Comunicação Científica estrita, que pode se limitar à relação de comunicação entre pares, supostamente homogênea.

Vejamos, agora, a participação universal do não cientista na ciência, que a DC, idealmente, promoveria. Se foi verificado, teórica e empiricamente, pelas ciências sociais e a linguística, que valores outros que o da verdade científica (como o econômico e o político) exercem pressões sobre os cientistas e sua produção discursivo-cognitiva, não deveria então ser encorajada a pressão do valor universal da cidadania, e esta acima de todas, por ser a mais legítima em Democracia? E não deveriam os próprios cientistas aderir sistematicamente ao valor da cidadania, na sua forma de conceber e conhecer o mundo?  Não apenas aderir, mas também lutar, por uma questão ética, pela universalidade da participação cidadã, distribuindo com maior equidade social, a pressão do conjunto da população sobre o conhecimento científico, e reciprocamente?

Tal questão leva inevitavelmente a uma reflexão especificamente política sobre as condições necessárias para o desenvolvimento do conhecimento, através da prática pública de comunicação. Ainda que seja, in fine, incontornável, não aprofundaremos, pelo menos diretamente, a dimensão política da DC, bem como deixaremos de lado psicológica, que teriam sido aqui legitimamente representadas pelas ciências sociais que lhes correspondem.

Embora a presente tese parta de uma análise documental, leva a pistas e métodos precisos para uma abordagem quantitativa da DC, sob nossa ótica que é a da linguagem, tendo em vista pesquisas empíricas futuras.

As chamadas metrias, aplicadas inclusive à análise da produção de CC por John Derek de Solla Price (1963), evidenciaram características constantes do conjunto da Ciência moderna desde o século 17, como sua taxa de crescimento, calculada com base na quantidade de artigos produzidos (além do número de cientistas).

Mas como fazer, no caso da DC, em que os formatos, suportes ou canais, não constituem unidades suficientemente homogêneas ou constantes no tempo, para que possam ser facilmente quantificadas em um dado momento histórico e comparadas entre períodos distantes?

A abordagem da DC pela diferença entre linguagem científica e comum, foco de nosso trabalho, estaria em medida de superar essas dificuldades e chegar a critérios distintivos e unidades tão estáveis quanto os da CC? É o que deixariam afirmar as pesquisas do sociólogo Donald Hayes (1992) sobre CC estrita (bem como sobre Divulgação intra-pares nos anos 1950-70 (2003)). Fundam-se na observação, durante o mesmo período que Price (dos primeiros periódicos científicos até a atualidade), de um mesmo conjunto de traços linguísticos da CC, oferecendo-nos bases e unidades de análise estáveis e a longo prazo. Permitem tanto diferenciar a CC estrita da DC, e por aí caracterizar a DC extra-pares, quanto, no que diz respeito à DC intra-pares, apreender mudanças na dificuldade de compreensão da literatura científica pelos próprios cientistas. Um dos traços linguísticos pelo menos em que se funda Hayes é atestado, na literatura “clássica” de CC, por Meadows:

Os agrupamentos de substantivos ilustram outra característica da prosa científica que dificulta a compreensão por parte do leitor: a alta densidade da informação veiculada. Problema afim são as exigências que vocábulos especializados podem fazer aos recursos mentais do leitor (MEADOWS, 1999, p. 123). Hayes, além do mais, oferece um método para quantificar esses traços, correlacionando-os com a dificuldade de compreensão da ciência: mede a dificuldade de um texto pela frequência e proporção das palavras mais comuns da língua, assumindo que as palavras mais raras exigem um esforço maior por parte do leitor.

Em suma, a abordagem da DC pela linguagem parece oferecer todas as dimensões de análise necessárias para diferenciar cientistas e não cientistas, com base em critérios definidos, sólidos e a longo prazo.

Antes de encerrar essa primeira série de perguntas sobre a DC com relação a áreas ou disciplinas limítrofes, mencionemos um tema crucial da Ciência da Informação: a acumulação de conhecimento. É possível conceber a DC como uma forma de comunicação de conhecimento cumulativa? Se não o puder ser a mesmo título que a Comunicação entre pares, ainda seria possível conceber a DC como uma forma cumulativa do conhecimento da comunicação intra e intergrupal dos cientistas, como um todo? Ou a cumulatividade é a característica distintiva do conhecimento científico em relação ao leigo e, se for o caso, a linguagem científica tem algum papel decisivo nessa cumulatividade?

Tal problemática, que envolve uma dimensão histórica, pode ser da alçada geral de uma ciência social como a CI. Ela reaparecerá constantemente, no decorrer de nossa pesquisa, manifestando uma reflexão de fundo sobre a relação entre partilha cumulativa (ou não) de conhecimento, e linguagem científica (ou não).

Para terminar essa seção sobre as fronteiras da DC, mencionemos Sophie Moirand (2004), estudiosa da Divulgação e da Análise de discurso. Ela observa uma convergência entre Ciências da linguagem e Ciências da comunicação e da Informação (estas duas últimas formam na França uma única área), próxima daquela que propomos trilhar aqui, indicando que nossa abordagem não é um caso isolado.

2.2Primeiras definições, origens

Um vez que situamos a Divulgação Científica em relação a outras áreas ou disciplinas, podemos perguntar como ela se define em próprio.

Abrimos a discussão com alguns dados e definições provisórias: datação e definição do vocábulo “divulgação” e de seus concorrentes “vulgarização” e “popularização”, e das respectivas denominações equivalentes em francês e inglês, segundo os dicionários; apresentação sucinta de suas origens e concepção, segundo autores de diversas áreas.

No que diz respeito às definições e datações, procuramos, nos dicionários, os vocábulos “divulgação” (e seus sinônimos concorrentes, já desbancados: “vulgarização”, “popularização”), “popularization” e “vulgarisation”. Sua utilidade revelar-se-à no decurso da análise sócio-histórica da DC, para diferenciar entre linguagem científica e comum.

Usamos, para o português: o “Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico...” (BLUTEAU, 1712-1728), o “Dicionário Antonio de Moraes Silva” (1789),  o “Dicionário Luiz Maria da Silva Pinto” (1838), o “Dicionário Houaiss Eletrônico” (HOUAISS, 2009), e o “Dicionário Aurélio Eletrônico do século XXI” (BUARQUE, 1999); para o inglês: “Merriam-Webster Online”; para o francês: “Le Littré” (LITTRÉ, 1882), “Le Grand Robert de la Langue Française” (REY, 2005), e o “Trésor de la Langue Française informatisé” (2004) (dicionário do CNRS – centro nacional de pesquisas científicas da França).

O “Vocabulario portuguez & latino...” do padre Raphael Bluteau (1712-1728) atesta “divulgar” e “vulgarizar” (mas não os substantivos “divulgação” e “vulgarização”, tampouco “popularizar” e “popularização'). “Vulgarizar” é apresentado com o sentido, distante da noção atual de DC, de "Reduzir ao estado popular". “Divulgar” é mais próximo. Implica fazer saber a todos, inclusive aos “vulgos" (aos não religiosos), e, no caso da religião, semear a verdade de Deus, ou a fé de Cristo, entre os "vulgos", o objetivo implícito sendo a conversão. O Bluteau dá “publicar”8, cujo sentido já era associado ao latim divulgare9, como segundo sinônimo de “divulgar”. Contudo, o latim divulgare tem o sentido suplementar de “espalhar um rumor”, depreciativo para a validade do conhecimento divulgado, sentido que não é atestado em português pelo Bluteau, pelo contrário: neste, “publicar” tem uma conotação oficial (administrativa ou jurídica), eventualmente escrita, portanto de verdade autoritativa, além de se opor a um conhecimento privado ou informal.
 

No Bluteau (1712-1728), “divulgar” é tornar público um fato, conhecimento ou crença, previamente legitimados por uma autoridade, que na época era sempre de origem sagrada, fosse ela religiosa (clero) ou política (monarquia de direito divino).

O dicionário HOUAISS (2009) data “divulgação” de 1614 e a define como “ato, processo ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização”, mas não atesta o sintagma "divulgação científica". “Popularização”, datado de 1877, é mais recente, mas o verbete não contém definição, apenas uma remissão a "Divulgação". O verbo "vulgarizar", “difundir(-se) de um grupo restrito para círculos mais amplos; tornar(-se) comum; popularizar(-se)” data de 1702 . No Houaiss, é a segunda acepção de “vulgarização”  que mais se aproxima das  definições atuais de Divulgação Científica. Incluída na rubrica “lexicografia”, destaca a linguagem e seus aspectos criativo e tradutório: "2 LEX fenômeno neológico que se constitui na passagem de um termo científico para o vocabulário da língua corrente". Mas a datação de 1789 da palavra, segundo os critérios do dicionário10, a rigor só se aplica à primeira acepção: “ato ou efeito de vulgarizar(-se)”. Nota-se que 1789 também é o ano da Revolução francesa, tomada do poder pelo “povo”  – aquele que na França pré-revolucionária pertence à plebe [roturier], uma das três classes que não é o clero ou a nobreza de direito divino. Em suma, é povo quem é excluído da esfera do sagrado, ou seja, quem é profano (em francês “leigo” no sentido de “não cientista” diz-se “profano” [profane]). Na entrada “vulgo”11 do Bluteau, “povo” é dado como sinônimo, e consta a acepção “pouco instruído nas ciências”, que, vale grifar, é muito próxima da definição atual do “leigo” no sentido de “não cientista”.

“Vulgarização” não consta do Dicionário Antonio de Moraes Silva (1789). Quanto à definição de “vulgarização” do Dicionário Luiz Maria da Silva Pinto (1838), destaca-se por introduzir a noção de tradução, presente nas definições atuais da DC: "Fazer comum, vulgar. Tradução em vulgar." Tradução é aqui entendida como passagem de uma língua clássica (latim ou grego) para uma vulgar (italiano, francês,...). Se a definição de “vulgar” no mesmo Dicionário Luiz Maria da Silva Pinto não traz elementos novos, a do Bluteau (1712-1728) contém um julgamento de valor sobre as línguas vulgares, apresentadas como inferiores às línguas clássicas:

 

O valor “inferior” das “línguas vulgares” acaba sendo estendido ao falante que a pratica, o vulgo, bem como à sua condição social de “plebe” (dado como sinônimo de vulgo pelo Bluteau), inferior à nobreza ou ao clero. – e por aí do conhecimento que o vulgo expressa –  acaba sendo assimilado ao da língua que pratica. A esse amálgama entre a inferioridade da língua, do falante e da posição social, soma-se a do conhecimento, como o atesta o Bluteau em sua acepção de “vulgo” como “pouco instruído nas ciências”.

Vulgar” consta do Dicionário Antonio de Moraes Silva (1789 ): "Do Vulgo, da plebe. § Ordinário, comum, sabido. § Não raro. § Em vulgar, no romance da terra, na língua della. § O que divulga o que sabe." Nessa definição, escrita entre 60 e 70 anos depois da do Bluteau (1712-1728), as línguas vulgares não são mais depreciadas ou comparadas às “clássicas”, como se dependessem destas para existirem. O caráter de inferioridade explicitamente associado ao vulgar, que o Bluteau situa na língua, desaparece aqui em prol da língua “da terra”, mas reaparece na classe social, a “plebe”. Quanto ao “comum”, traço menos estigmatizante, persiste na definição supracitada de “vulgarização” do Luiz Maria da Silva Pinto de 1838.

No Dicionário Aurélio Eletrônico do Século XXI (1999), "popularização" tem o sentido de tornar popular uma obra, mas não um conhecimento especificamente técnico ou científico:

Tornar popular, conhecido ou estimado pelo povo: A campanha eleitoral popularizou o candidato.  

 2.Propagar entre o povo; divulgar: A propaganda popularizou o produto;  "Esta razão supõe que o Buscapié fora escrito como hoje se escreve um folhetim panegírico, ou um reclamo artificioso num jornal para acelerar a extração de um livro, ou popularizar rapidamente um mau autor."  (Latino Coelho, Cervantes, p. 128).  

 3.Tornar corrente, conhecido, entre o povo: O filme popularizou a obra clássica;  "Eu espero, para o admirar [a Gambetta], que um mestre o imortalize na tela e o popularize pela litografia." (Eça de Queirós, Ecos de Paris, p. 31) (AURÉLIO, 1999)

Essas acepções não são muito diferentes daquelas que o mesmo Aurélio propõe para "divulgação": "Ação de divulgar(-se); vulgarização, propagação, difusão". Remete ao verbo "divulgar":

1. Tornar público ou notório; publicar; propagar, difundir, vulgarizar: Os jornais divulgaram o plano governamental;  "Em O Constitucional de 1883, Alberto Torres divulga diversos poemas"  (Barbosa Lima Sobrinho, Presença de Alberto Torres, p. 37).

 2. Tornar-se público ou conhecido; propagar-se, difundir-se. (AURÉLIO, 1999)

"Vulgarizar" tampouco ganha no Aurélio o sentido específico de Divulgação Científica:

1.Tornar vulgar ou notório; propagar, divulgar, difundir, vulgar: vulgarizar uma doutrina;  "O gaiato .... é no mundo musical um meio que a Providência destinou a vulgarizar os cantos que devem tornar-se populares."  (Latino Coelho, Tipos Nacionais, p. 29).  

 2. Fazer comum.

 3. Acanalhar, abandalhar.

 4. Tornar-se muito conhecido; popularizar-se: "Só depois dos românticos .... veio a vulgarizar-se o verso dodecassílabo sem qualquer pausa ou acento na sexta sílaba, como o queria Hugo [Vítor Hugo]."  (Melo Nóbrega, O Soneto de Arvers, p. 88.)

 5. Abandalhar-se, acanalhar-se.  (AURÉLIO, 1999)

Observamos que ao contrário do Houaiss, o Dicionário Aurélio não fornece datação para nenhum desses vocábulos.

Em suma, dentre as definições lexicográficas que examinamos em português, é a de "vulgarização", no Houaiss, que se mais aproxima da Divulgação Científica como transposição de uma barreira entre linguagens científica e comum12. Contudo, não fornece datação para essa acepção.

No que diz respeito ao idioma inglês, Arthur J. Meadows parte da definição e datação de "popularization" no dicionário Oxford para discutir as origens da DC, em seu artigo “The growth of science popularization: a historical sketch” (1986):

O dicionário Shorter Oxford English define a palavra 'divulgar' (“popularize”) como segue: "fazer com que seja conhecido e aceito, apreciado ou admirado em geral", acrescentando apenas como terceira explicação "apresentar (um assunto técnico, etc.) de forma popular". A palavra começou a ser usada em desde 1797, mas o sentido de apresentar assuntos técnicos de forma popular surgiu pela primeira vez em 1836. Nos países desenvolvidos, essa última definição é atualmente aquela geralmente aceita para o termo 'divulgação científica' (“science popularization”).  A primeira definição levanta algumas perguntas de grande interesse sobre a natureza da divulgação (“popularization”) da ciência e o papel do popularizador (“popularizer”): o(a) popularizador(a) é  ou, mais importante ainda, deveria ser algum tipo de assessor de imprensa ou relações públicas para a ciência? Ou seu papel é mais propriamente o de um crítico social? O trabalho de popularizador da ciência é realmente fazer com que a ciência seja conhecida,  mas, além disso que seja “aceitada, apreciada ou admirada"?13(MEADOWS, 1986, p. 341)

No que diz respeito ao francês, Annette Laming, em um artigo de mais de 30 anos anterior ao do Meadows, intitulado "The origins of the Popularization of Science" (1952) (As origens da divulgação científica), e citado por José Reis, data de 1882 a palavra “vulgarisation”, apoiando-se no dicionário “Le Littré” (LITTRÉ, 1882), e sugere uma definição preliminar da Divulgação, que retomaremos no curso de nossa pesquisa:

[a expressão] divulgação científica [popularization of science] é […] de origem mais recente: o dicionário Littré de 1882 a descreve como um neologismo. Mas a ideia precedeu o termo, e há um acordo geral para dizer que Entretiens sur la pluralité des mondes, lançado em 1686, de Fontenelle, foi a primeira obra de divulgação. Essa opinião, contudo, sugere alguns comentários. Se nos pautamos pelo sentido estrito da palavra, a ideia de divulgação científica, i.e. disseminação das noções científicas mais acessíveis ao público geral, vem bem depois de Fontenelle.14 (LAMING, 1952, p. 234)

Para Laming, a DC só se torna plenamente efetiva na França a partir de 1830, com a implantação do ensino de massa e da ciência em seus currículos.

Segundo oTrésor de la Langue Française informatisé” – TLFi (2009), a primeira ocorrência de “vulgarisation” (no sentido do inglês "popularization" datado de 1836 em Meadows supracitado (1986, p. 341)) encontra-se na obra "Thèrese Raquin" do escritor Émile Zola, de 1867, no sentido particular de:

... adaptar noções, conhecimentos científicos ou técnicos a fim de os tornar compreensíveis para o não especialista; reformulação de um discurso especializado que consiste geralmente em livrá-lo das dificuldades específicas, de seu caráter técnico, a fim de o tornar acessível ao grande público.15 (Trésor de la Langue Française informatisé”, 2004)

O dicionário “Grand Robert de la Langue Française” (2005) corrobora a datação do “Trésor de la Langue Française informatisé”, e do sintagma “vulgarisation scientifique”:

Uso corrente. (1867, Zola). | Divulgação científica [Vulgarisation scientifique]: adoção de um conjunto de conhecimentos científicos, técnicos, de forma a torná-los acessíveis a um leitor não especialista; reformulação de um discurso sobre um objeto de ciência, destinada a ser compreendida por um número maior de leitores. | Livros, revistas de divulgação [vulgarisation] (→ Espetacular, cit. 3). — OBS. Mesmo nesse sentido, a palavra adquire muitos vezes uma conotação pejorativa.16

Grifemos o sentido pejorativo da palavra “vulgarisation”, também registrado pelo “Trésor de la Langue Française informatisé” em uma rubrica à parte, já apontado em português.

Quanto à data do francês “popularisation”, 1846, no sentido de “popularizar uma ciência” é segundo o mesmo “Trésor” anterior à denominação “vulgarisation” hoje em vigor nessa língua.

A análise lexicográfica das possíveis denominações (“vulgarização”, “popularização”, “divulgação” e suas respectivas formas verbais) em vários idiomas (português, inglês, francês) do conceito de DC indica que o feixe de sentidos associados em nossa língua à atual DC já estava em boa parte fixado desde o início do século 18.

No “Vocabulario portuguez & latino...” (BLUTEAU, 1712-1728), “divulgar” supõe um conhecimento produzido, controlado e legitimado por uma autoridade oficial (de ensino, política ou religiosa), que esta torna público ao fazê-lo circular oficialmente fora seus membros. No caso da autoridade religiosa, o conhecimento divulgado já tem os traços atuais de secularizado, público e previamente validado pelos pares, mesmo se, durante a Inquisição portuguesa (1536-1821)17, em vigor quando foi estabelecido o Bluteau, a “revisão” provavelmente se limitava à censura das publicações em geral, inclusive científicas (CHARTIER, 2012, p. 56).
No que diz respeito à “tradução” eventualmente envolvida na “divulgação” tal qual a define o Bluteau, é de tipo extralingual: como as obras eruditas, até o século 17, eram geralmente escritas em latim, sua divulgação passava pela tradução para o vulgar, i.e. entre línguas efetivamente distintas18. Na atualidade, a “tradução” de DC é considerada intralingual, pois a linguagem científica deixou de ser considerada uma língua à parte ou estrangeira no sentido estrito, como o subentende a segunda acepção de “vulgarização” do Houaiss ("2 [rubrica: lexicologia] fenômeno neológico que se constitui na passagem de um termo científico para o vocabulário da língua corrente"). Contudo, já constava do Bluteau que a tradução de DC ocorre entre sistemas de signos desiguais por seu valor social, e hierarquizados por sua proximidade com a norma dominante de acesso ao conhecimento mais “elevado”, que usa a escrita e a razão (tanto na Teologia racional quanto na Filosofia Natural, como veremos adiante). A diferença de valor entre as línguas clássicas e os vulgares, fundada na suposta superioridade espiritual e/ou racional das primeiras para se acessar a verdade “pura”, e na superioridade da codificação e da escrita, parece ter-se perpetuado entre as linguagens científica e comum.

Quanto às partes especificamente implicadas na DC, cientistas e não cientistas, o Bluteau não menciona os primeiros como sendo, no Portugal do início do século 18, uma autoridade particular (i.e. distinta daquela da Igreja, cujas ordens ainda mantinham um forte domínio sobre o ensino). Mas “leigo” já recebia no Bluteau uma acepção e sinonímia atuais: “pouco instruído nas ciências”, “vulgo”, “povo”. A superioridade espiritual, critério religioso, já se estendia aos níveis social e educacional, apesar de o conhecimento legítimo passar oficialmente de religioso para científico durante a modernidade europeia. Assim, perpetuou-se até hoje a denominação “leigo”, em paralelo à desigualdade de valor social associado a cada sistema de signos envolvido na tradução de DC, seja ela intra ou extralingual. Embora essa desigualdade seja hoje relativizada por métodos de medição que a concebem de forma mais gradativa, na prática social da linguagem ela segue absolutizada, talvez mais que nunca, como sugerimos adiante.

Vejamos agora as definições atuais de autores da DC ou de áreas relacionadas com seu estudo ou atividade: CI, Comunicação Social e Jornalismo.

Em seu artigo “Divulgação científica: informação científica para a cidadania?”, Sarita Albagli, pesquisadora em CI, apresenta o contexto histórico da emergência da Divulgação nos séculos XVI e XVII, e cita a definição do jornalista Wilson da Costa Bueno, da área de comunicação social, autor da primeira tese de doutorado em Jornalismo de Divulgação no Brasil (1985)19:

A progressiva expressão social da ciência ocorreu a partir das repercussões da "revolução científica" dos séculos XVI e XVII, a qual, por sua vez, integra o conjunto de transformações que tinham curso na Europa, desde o século XIV, caracterizando o fim da Idade Média e o início da Era Moderna. No plano cultural, o Humanismo e o Renascimento abriram espaço para novas indagações sobre a natureza física. Do ponto de vista político e econômico, assistiu-se então a uma verdadeira "revolução comercial" e à ascensão da classe burguesa, que iria estimular o desenvolvimento das ciências e das técnicas1. (ALBAGLI, 1996, p. 396)

Popularização da ciência ou divulgação científica (termo mais freqüentemente utilizado na literatura) pode ser definida como "o uso de processos e recursos técnicos para a comunicação da informação científica e tecnológica ao público em geral" 2 . Nesse sentido, divulgação supõe a tradução de uma linguagem especializada para uma leiga, visando a atingir um público mais amplo. (ALBAGLI, 1996, p. 397)

No Brasil, a denominação “Divulgação científica” parecia ter se imposto nitidamente aos respectivos concorrentes e decalques inglês e francês, "popularização" e "vulgarização", pelo que escrevia Luisa Massarani em seu mestrado em CI sobre DC, de 1998:

Atualmente, no Brasil, a designação "divulgação científica", que surgira no século passado 8[no século XIX] , é hegemônica. O termo é usado por exemplo pela equipe de Ciência Hoje, que foi criada em 1982, em seu subtítulo ("revista de divulgação científica da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência"), bem como em editoriais e artigos. Foi também adotado por iniciativas subseqüentes, como o programa televisivo Globo Ciência, a revista Globo Ciência e a revista Superinteressante. A designação "divulgação científica" vem sendo usada ainda em vários estudos sobre o assunto, como atestam teses e dissertações desenvolvidas no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT)instituição voltada para a Ciência da Informação, entre elas a de Gonzales9, Ramos10, Rublescki11, Hernandez Cañadas12 e Guedes13. A divulgação científica é uma das linhas de pesquisa da Ciência da Informação, conforme relatado por Pinheiro e Loureiro.14 (MASSARANI, 1998, p. 15-17)

A denominação “Divulgação científica”, contudo, não se impôs irreversivelmente. Nos últimos dez anos, “Popularização” tem (re)aparecido em nomes de órgãos oficiais do Ministério da Ciência e Tecnologia, como o “Departamento de Popularização e Difusão da C&T”. Mas a última tendência tem sido “Percepção pública da Ciência (e Tecnologia)” decalque de “Public Understanding of Science”, nova denominação da DC promovida pela Royal Society e pelos estudos do PISA-OCDE. Discutimos adiante essa mudança de denominação.

Massarani introduz a Divulgação pelo enfoque da área de comunicação social, citando o venezuelano Antonio Pasquali e o já mencionado Wilson da Costa Bueno. Este relata a diferença que o primeiro estabelece entre difusão, disseminação e divulgação:

- Difusão é o envio de mensagens elaboradas em códigos ou linguagens universalmente compreensíveis para a totalidade das pessoas.

- Disseminação é o envio de mensagens elaboradas em linguagens especializadas, ou seja, transcritas em códigos especializados, a receptores selecionados e restritos, formado por especialistas. Pode ser feita intrapares (especialistas da mesma área) ou extrapares (especialistas de áreas diferentes).

- Divulgação é o envio de mensagens elaboradas mediante a transcodificação de linguagens, transformando-as em linguagens acessíveis, para a totalidade do universo receptor.

Outro significado para o termo difusão científica (usado particularmente entre historiadores da ciência) lhe uma dimensão mais ampla: é o envio de quaisquer mensagens com conteúdo científico, especializadas ou não.[…]

Partindo da colocação de Pasquali, Bueno afirma que a divulgação científica "pressupõe um processo de recodificação, isto é, a transposição de uma linguagem especializada para uma linguagem não especializada, com objetivo de tornar o conteúdo acessível a uma vasta audiência".18 Para ele, a divulgação científica usaria, portanto, recursos, técnicas e processos para veiculação de informações científicas e tecnológicas ao público geral. (MASSARANI, 1998, p. 18-19)

No que diz respeito aos autores de Divulgação, apresentam sua área no Brasil em um extenso panorama pela coletânea “Ciência e público” de Massarani, Moreira e Brito (2002). Os textos analisam a DC “sob o contexto mais geral da educação científica e da democratização do conhecimento” (2002, p. 10), indicando um enfoque de política educacional além de darem “um apanhado da história da divulgação científica no Brasil”.

A coletânea também aborda a ética da informação, notadamente em “O papel do cientista na divulgação científica”, conferência que Ennio Candotti pronunciou após receber o prêmio Kalinga de Divulgação Científica de 1998. Candotti evoca a “Declaração sobre a ciência e o uso do conhecimento” (versão preliminar) da UNESCO, a qual lhe concedeu a distinção: A livre circulação das ideias e resultados das pesquisas é fundamental para o próprio avanço da ciência, o exame de suas implicações éticas e o enriquecimento da educação.(CANDOTTI, 2002, p. 17)

Para ele, a circulação da informação é nitidamente uma questão ética, a que ele dedica aliás uma seção intitulada “A responsabilidade social do cientista”:

uma dimensão ética da divulgação na qual eu gostaria de me deter: a circulação das ideais e dos resultados de pesquisa é fundamental para avaliar seu impacto social e cultural, como também para recuperar, por meio do livre debate o confronto de ideias, os vínculos e valores culturais que a descoberta do novo, muitas vezes, rompe ou fere. Nesse sentido, a divulgação não é apenas página de literatura, na qual as imagens encontram as palavras (quando as encontram), mas exercício de reflexão sobre os impactos sociais e culturais de nossas descobertas. (CANDOTTI, 2002, p. 17)

Mencionemos, ainda nessa coletânea, o texto “A vulgarização do saber”, de Miguel Osório de Almeida (2002, p. 65), originalmente publicado em 1931. Denota uma erudição que se estende muito além da fisiologia que era sua área: cita, entre outros, Meyerson  e Fontenelle. Perante o grau de especialização em matemática exigido para a compreensão de teorias científicas como a da relatividade, o fisiologista se interroga sobre os limites da Divulgação.

Vale citar suas observações sobre a diferença entre linguagem científica e comum, que mostram como a associação sistemática entre os domínios religioso e científico era feita com naturalidade pelos mais progressistas e internacionais dos espíritos em 1931, quando o texto foi escrito. O trecho abaixo retoma uma série de associações já presentes nas definições do Bluteau.

É impossível, quase sempre, apresentar em linguagem profana um raciocínio que só pode ser assimilado com o auxílio de um símbolo próprio. […] A linguagem comum, a que é utilizada para a vida de todos os dias, tem suas raízes profundas no senso comum. A matemática, como a filosofia, recorre a conceitos, dependentes em certos casos, de uma espécie de senso diferente, e que assim não se adaptam às condições precárias da língua habitual. Dá-se aqui […] o que se observa em um grau muito menor com as traduções literárias. A passagem de certas expressões, que correspondem à mentalidade profunda peculiar a um povo, e que representam exatamente o seu modo de sentir, não pode ser feita convenientemente para outras línguas, que se mostram assim deficientes. A tradução em linguagem vulgar de concepções matemáticas encontra diante de si uma dificuldade desse gênero, mas em proporções muito maiores. Ela terá que ser forçosamente incompleta e defeituosa. (ALMEIDA, 2002, p. 67)

Philippe Roqueplo, em sua obra clássica de DC “Le partage du savoir” (a partilha do saber), acaba concordando com o ceticismo de Miguel Osório de Almeida no que toca a uma Divulgação por assim dizer total. Apesar disso, o francês decide partir desta, recusando uma abordagem segmentada do público da Divulgação, como a de François Le Lionnais20, o qual identifica cinco escalões de público, desde o cientista de outra área até o grande público, i.e. o “homem da rua”:

… conviremos designar aqui divulgação científica [vulgarisation scientifique] um conjunto de empreendimentos que, sob modalidades diversas, visam dirigir-se a essa « grande maioria do público » que F. Le Lionnais designa com o termo « o homem da rua ».

Nessas condições recusaremos qualificar de divulgação empreendimentos que limitariam voluntariamente seu público aos quatro primeiros escalões evocados por F. Le Lionnais 3. Portanto, restringiremos — por assim dizer — a significação da palavra divulgação [vulgarisation] de modo a reservá-la às atividades que se dirigem ao mais vasto público possível. (ROQUEPLO, 1974, p. 22)21

Discutiremos, a seguir, o problema da segmentação, em particular quando essa é apresentada como natural. Mas negá-la leva a conceber o público como um todo indiferenciado, o que levanta outro tipo de problema, talvez mais insolúvel ainda.

Em sua obra “A Divulgação da ciência como literatura”, Maria Sanchez-Mora (2003) propõe uma “definição operativa”: divulgar é recriar, de alguma maneira, o conhecimento científico. (SANCHEZ-MORA, 2003, p. 9)

Mas, se as definições, lexicográficas e outras, são úteis, como diz o autor clássico da CI Tefko Saracevic, elas não são suficientes para se entender uma área:

Nesse sentido, a ciência da informação, como qualquer outra área, é definida pelos problemas que abordou e os métodos que escolheu para resolvê-los ao longo do tempo. Como qualquer outra área, a ciência da informação não pode ser compreendida unicamente através de definições lexicais ou ontologias. (SARACEVIC, 1995, p. 1)22

Falta conhecer os problemas, as práticas de nossa subárea da CI, ao longo do tempo. Saracevic sugere a perspectiva histórica, partilhada pelo sociólogo Bourdieu, como sendo a que se pode esperar de uma ciência social que problematiza seus objetos. No que toca às definições da informação, recorremos, ao longo de nossa análise, entre outros, às definições da informação de Saracevic (1995), da mais estrita à mais ampla, e aos paradigmas da Ciência da Informação identificados por Rafael Capurro (2003). Um e outro tratam da RI. No que toca a compreensão da Comunicação Científica, seguiremos usando Meadows, Garvey e Ziman.

No que diz respeito às origens da Divulgação, nos norteamos, em particular, pelo reconhecido pioneiro brasileiro, cientista e jornalista divulgador José Reis, co-fundador da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e primeiro a receber o prêmio de Divulgação Kalinga.

A discussão de Reis23 sobre as origens da Divulgação guia a primeira etapa de nossa análise. Fornece-nos os marcos indispensáveis para compreendermos a construção histórica de nossa subárea, com as dimensões (em particular social, cognitiva e linguística) e as partes (cientistas e não cientistas) que esta implica, interrogando –e eventualmente rompendo com– a forma como são comumente apresentadas.
Segundo Reis24, é geralmente admitido que a DC começa durante a revolução astronômica dos séculos 16-17. Encetamos a primeira etapa da nossa pesquisa com a análise histórica da DC pela linguagem nesse período. Mas Reis também sugere que os pioneiros da DC tenham sido os sofistas gregos.

No que diz respeito à partilha entre linguagem científica e comum, centro de nossa análise, dois historiadores das ciências apontam a direção da Antiguidade, contudo sem aprofundá-la. O historiador e filósofo das ciências Thomas Kuhn, em sua obra “Estrutura das revoluções científicas”, originalmente publicada em 1962 , que introduz a noção de paradigma, escreve:

Tanto na matemática quanto na astronomia, já na antiguidade os relatórios de pesquisas deixaram de ser inteligíveis para um auditório dotado de cultura geral. (2009[1962/1970], p. 41)

Em “Science and the Public”, artigo dedicado à Divulgação, o historiador das ciências Steven Shapin (1990) corrobora Kuhn:

Nem na antiguidade quem praticava […] ciências esperava que suas produções fossem lidas – ou quando lidas, compreendidas – pelos membros do público de formação generalista.  No século 16, Copérnico disse que escrevia para outros matemáticos e não para o público instruído em geral. Tampouco a física matemática da Revolução científica do século 17 era compreensível por intelectuais não qualificados em matemática, e tampouco quem a produzia pensava que ela devia sê-lo. (SHAPIN, 1990, p. 993)25

A medida que estudávamos a linguagem científica nos cientistas modernos, percebíamos que o século 17 não apresentava dados particulares sobre a origem da oposição entre as linguagens científica e comum. Fomos então levados a mudar completamente o recorte histórico de nossa pesquisa. A supor que a introdução do heliocentrismo tenha sido uma revolução, i.e. um corte suficientemente decisivo e radical para marcar o início de um novo período histórico, o que  Shapin recusa (1996, introdução), então a linguagem podia ter sido sua face conservadora. Foi preciso remontar à Antiguidade em busca da partilha linguística que é o foco de nossa abordagem.

Reis26 relata, enfim, a concepção de Annette Laming (1952), segundo a qual a Divulgação só se torna efetiva e completa quando atinge o conjunto da sociedade. A nova concepção científica deve alastrar-se além dos demais setores da ciência, difundindo-se entre os grupos não especializados, desencadeando mudanças de visão de mundo no conjunto da sociedade: as novas concepções transformar-se-iam e efetivar-se-iam por uma ação ou luta política, que iria desde sua integração aos currículos do sistema educativo, até a mudança do regime vigente, pela refutação dos conhecimentos que o legitimam.

A ideia de revolução na ciência é assim transposta, por metáfora, à política: na primeira, o universo deixa de girar em torno da terra, representação suprema da criação de Deus; na segunda, o homem deixa de girar em torno do rei, representante supremo do poder de Deus, para girar em torno da Humanidade e de suas leis públicas. Por isso, para Annette Laming, a Divulgação dá seus primeiros passos durante a chamada Revolução científica, mas só dá seu primeiro sinal de maturidade a partir da Revolução francesa, quando a ideia de revolução, uma vez traduzida em ações sociais e políticas, atinge uma diversidade de não especialistas, que começam a querer participar dela.

Após reunir elementos teóricos para pensar a DC, buscamos aprofundá-la pela diferença entre linguagens científica e comum, adotando a perspectiva histórica que, conforme o mostramos, é a mais adequada em nosso caso. Até chegarmos na atualidade, seremos levados, antes, a analisá-la na “Revolução científica”, nas Luzes e Revolução Francesa, passando pela Atenas dos séculos 5-4 a.C. O recorte histórico foi muito ampliado após a inclusão do período da Grécia Antiga, tanto que o período entre a modernidade e a atualidade foi muito resumido.

Além do mais, à medida que consultávamos a literatura, surgiu a necessidade de construir um enquadre teórico mais amplo, tanto que o capítulo 2, dedicado às pressuposições teóricas, aumentou substancialmente. Apesar de deixar para trabalhos futuros um estudo de dados empíricos no sentido tradicional, nossa reflexão mais aprofundada, ancorada em uma abordagem sócio-histórica, justifica-se por priorizar o preenchimento de necessidades fundamentais, atendendo à queixa de  Bueno27: “A literatura brasileira em comunicação e divulgação científica não tem contribuído, ao longo do tempo, para o refinamento de alguns conceitos básicos que dão suporte à teoria e à prática nessas áreas.” (BUENO, 2010, p. 1-2)

2.3Problemática da relação entre informação e linguagem na CC e na DC

Após examinar textos sobre Comunicação Científica, e à medida que retraçávamos a construção sócio-histórica da Divulgação, a prática especificamente linguística dos cientistas apareceu como a menos historicizada, comparada às dimensões cognitivas e sociais.

Ora, a linguagem seria um aspecto primordial da sociedade da informação desde seu surgimento, como o sugere o historiador Armand Mattelart, já na primeira frase de sua "História da sociedade da informação" 28: “A uniformização do mundo começa com a padronização da língua que nos serve para designar.” (MATTELART, 2006[2001], p. 7)

Além disso, a relação entre linguagem e informação teria sido constante e teria se reforçado, até culminar, na atualidade, com a informática:

[…] é possível construir […] a história [da sociedade da informação] inscrita na longa duração. Pois a utopia moderna de uma linguagem mundial nasceu muito antes que a linguagem informática cristalizasse o projeto de uma língua universal. (MATTELART, 2006, p. 8)

Os propósitos de Mattelart sobre uma relação indissolúvel entre informação e linguagem são corroborados por Thomas Kuhn, sobretudo nos momentos de grande mudança no conhecimento, em que a comunicação especificamente científica, entre cientistas, torna-se problemática: “A violação ou distorção de uma linguagem científica antes não problemática é a pedra angular da mudança revolucionária.”29 (KUHN, 1987, p. 21)

Entre os autores de Divulgação, Sanchez-Mora (2003), em seu livro “A Divulgação da ciência como literatura”, aborda o problema da “Linguagem da ciência” no início do 3º capítulo, intitulado “Breve história da divulgação da ciência do século XVII ao século XVII”.

Os propósitos desses autores deixam entender que a linguagem é uma problemática sempre presente na comunicação do conhecimento científico, que as práticas cognitivas das partes envolvidas sejam mais heterogêneas (comunicação com não cientistas) ou mais homogêneas (comunicação entre cientistas).

A reconhecida existência de uma relação problemática e constante entre informação e linguagem, em todas as configurações de comunicação implicadas pela DC, corrobora a viabilidade de nossa pesquisa.

A relação entre linguagem e informação também é constante na RI, através da consulta ao sistema, sempre mediada por alguma linguagem, natural e/ou computacional. Mais particularmente, para recuperar informações, usamos unidades de sentido, em particular nomes (aprofundamos o aspecto mais especificamente linguístico dessa questão na seção 2.4.5, “O que é uma palavra”). O nome implica a nominação, ato sociolinguístico de categorização e de classificação, portanto também cognitivo. Na RI, o nome é o que permite achar, no sentido de situar, de forma "estável", um documento dentro de uma classificação; documento que, por sua vez, é situado na classificação por seu tipo de conhecimento; conhecimento que, por fim, é situado socialmente pela posição na sociedade dos atores que o produzem e sua relação com os atores que o usam.

A respeito da nominação e de sua relação indissolúvel com a classificação, tanto cognitiva quanto social, o sociólogo François Leimdorfer resume o ponto de vista de Pierre Bourdieu:

A nominação, que também é uma categorização, é um ato que envolve o conjunto da sociedade. É tributária de relações de força sócio-discursivas, legitimidades e legitimações, é – segundo a expressão de Bourdieu – um efeito e uma causa das “lutas de classificação” (LEIMDORFER, 1994, p. 153-154)30

A relação problemática, não neutra e não objetiva em si, entre linguagem e conhecimento atinge inevitavelmente a classificação e por aí a RI, um dos cernes da CI.

2.4Informação, Linguagem, Ciência da Informação: questões epistemológicas

Uma vez que justificamos nossa abordagem da Comunicação Científica em geral (intra e extra-pares) pela linguagem, exploremos algumas relações entre informação, linguagem e suas possíveis consequências para a Ciência da Informação em geral.

A informação pode existir ou ser conhecida sem a linguagem? A supor que fosse o caso, ainda faltaria, no âmbito de uma pesquisa acadêmica, demonstrá-lo.

O epistemólogo Gaston Bachelard já escrevia, em 1934, na introdução do "Novo espírito científico", que trata das consequências filosóficas acarretadas pelas descobertas da física quântica e relativista, em termos que permanecem em boa parte atuais: “A objetividade não pode ser separada dos caracteres sociais da prova. Só se pode chegar à objetividade expondo de maneira discursiva e detalhada um método de objetivação.”31 (BACHELARD, 1934, introdução)
A partilha da prova através do discurso, que permite aos pares exercerem seu controle no âmbito social (Bachelard (1996[1934]) usa a expressão "controle social"32) e à ciência ser um conhecimento público, é um pré-requisito científico, reconhecido em CI por autores consagrados da Comunicação Científica, como Ziman (1979). E, como a partilha não pode prescindir de um discurso, este por sua vez usa necessariamente uma língua (e eventualmente uma linguagem formal) particular. Ora, como o veremos adiante, tanto as línguas ditas particulares quanto as linguagens formais, para além das aptidões genéticas e fisiológicas que requererem inegavelmente, são adquiridas, comunicadas, construídas com os pares e sob seu controle, através de práticas particulares de partilha de conhecimento. Práticas que se dão em condições históricas, sociais e cognitivas particulares ou individuais (além de psicológicas, econômicas, políticas...). E qualquer demonstração ou prova, partilhada em CI sobre seu objeto, não poderá se eximir completamente dessas condições.

Isso implica que a CI seja considerada uma subárea dos estudos da linguagem? Independentemente da resposta a esta pergunta provocadora, parece irrefutável que, se aceitamos a afirmação acima de Bachelard, então, para constituir cientificamente a si própria e a seu objeto, a CI usa imprescindivelmente discurso, portanto linguagem.

Examinemos mais em detalhe a concepção de linguagem na epistemologia de Bachelard, relacionando-a com a DC. Para o epistemólogo, é a construção que separa a experiência da experimentação:

Como a experiência comum não é construída, não poderá ser, achamos nós, efetivamente verificada. Ela permanece um fato. Não pode criar uma lei. Para confirmar cientificamente a verdade, é preciso confrontá-la com vários e diferentes pontos de vista. Pensar uma experiência é, assim, mostrar a coerência de um pluralismo inicial. (BACHELARD, 1996[1938], p. 13-14)

Bachelard teria avaliado todas as consequências para a noção de objetividade quando se introduz explicitamente na verdade científica o discurso e o social? Esses são geralmente considerados como não-universais a priori, quando não completamente irracionais e caóticos, portanto a porta aberta para a regressão ao senso comum.

Para Bachelard, a verdade não produziria uma objetividade, única e dada uma vez por todas, mas resultaria de um constante processo de objetivação, que inclui o controle de vários pontos de vista. O “caráter social da prova”, que está na base do processo científico é suscetível de gerar “polêmicas”33, abrindo o caminho para as “controvérsias” de autores como Latour (1987) ou Shapin e Schaffer (1985). O que a sociologia de Bourdieu (2004[2001], p. 13-14, 17) acrescentaria, em relação à Bachelard, é o conhecimento racional e explicação científica dessas polêmicas, antes estudadas como sendo intrínsecas à ciência, na trilha do que Bachelard chama as “cores locais” ou “regionalismos” do conhecimento científico. Para o sociólogo, esses dissensos, que por analogia poderíamos chamar de sotaques, se enquadram indissociavelmente numa lógica de relações sócio-históricas particulares, que envolvem não apenas a livre construção e comunicação do conhecimento racional, mas também relações de força em geral, i.e.  pressões exercidas de “dentro” pelo controle social dos pares, mas também de fora, segundo regras e critérios alheios à ciência. Não existe, para Bourdieu, uma epistemologia pura, já que o próprio conceito de razão não “cai do céu” nem é a universal a priori mas é, antes, uma construção sócio-histórica (BOURDIEU; WACQUANT, 1992, p. 130, 162-163), um processo contínuo de objetivação a decorrer no tempo, que poderíamos qualificar de impuro na medida que envolve alteridades sociais científicas e não científicas.

Apesar de reconhecer o caráter social da prova na Ciência, a epistemologia de Bachelard é claramente alheia à Divulgação Científica. Bensaude-Vincent (2010), estudiosa da DC, cita trechos de “A formação do espírito científico” de 1938, para ilustrar como, após a 1ª Guerra Mundial, a categoria de público foi rebaixada à de leigo (“profane” em francês). Na referida obra, podemos ler:

A ciência, tanto por sua necessidade de coroamento como por princípio, opõe-se absolutamente à opinião. […] A opinião pensa mal; não pensa:  traduz necessidades em conhecimentos. […] Não se pode basear nada na opinião: antes de tudo, é preciso destruí-la. (BACHELARD, 1996[1938], p. 18)[itálicos no original]

Os propósitos do epistemólogo parecem contudo menos extremos quando, ao continuar a leitura da mesma página, vemos que se dirige aos pares, não necessariamente à opinião pública em geral:

O espírito científico proíbe que tenhamos uma opinião sobre questões que não compreendemos, sobre questões que não sabemos formular com clareza. Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas.” (BACHELARD, 1996[1938], p. 18)

Adepta da ruptura, Bachelard recusa qualquer continuidade epistêmica entre a observação “usual” na física clássica e a experimentação, tal como esta é entendida depois da complexidade e pluralidade essenciais das mutações relativista e quântica. No novo espírito científico, a experiência contradiz necessariamente a “comum”, “que não é de fato construída”. O objeto individual observado perde sua unidade, fundada pela física clássica na simples intuição, e por aí seu caráter a priori, absoluto. Torna-se uma construção discursiva (1978[1938], p. 14) a partir de uma “ambiguidade essencial”, que Bachelard já tinha descrito no livro “O novo espírito científico” de 1934:

Com o novo espírito científico, é todo o problema da intuição que se acha invertido. Pois essa intuição não poderia ser primitiva de hoje em diante; ela é precedida por um estudo discursivo que realiza uma espécie de dualidade fundamental. […] Doravante toda intuição procederá duma escolha; haverá portanto uma espécie de ambiguidade essencial na base da descrição científica e o caráter imediato da evidência cartesiana será perturbado. (BACHELARD, 1978[1934], p. 161)

Mas, no que diz respeito à linguagem, o pluralismo e alteridade que Bachelard defende permanecem formais em sua expressão, restringindo-se portanto a interlocutores cientistas. O fato de Bensaude-Vincent tê-lo citado em um artigo sobre Divulgação justifica-se, contudo, quando que ele exclui explícita e definitivamente da ciência a cultura popular, na “Filosofia do Não”, de 1940:

De todas as linguagens, a matemática é simultaneamente a mais estável e a mais inventiva. Dir-se-á que ela é a mais difícil e que não se pode esperar fazer dela o quadro de uma cultura popular, sobretudo se a encararmos na sua parte realmente dialetizante, nas suas formações não-euclidianas e relativistas. (BACHELARD, 1978[1940], p. 80)

Para Bachelard, a unidade não apenas do pensamento “puro” mas também das ações, repousa na linguagem matemática:

a matemática é uma linguagem de estrutura semelhante à estrutura dos organismos, por outras palavras, é uma linguagem correta não só do ponto de vista neurológico mas também do ponto de vista biológico. Esta característica das matemáticas, descoberta de uma forma absolutamente inesperada, torna possível a fusão da geometria e da física" ou, por outras palavras, torna possível a fusão dos pensamentos puros e das ações. Só as matemáticas são suscetíveis de uma tradução formal autógena, de uma atividade formal que se desenvolve por si. (BACHELARD, 1978[1940], p. 79)

A linguagem científica, na concepção que poderíamos qualificar de fusional e biológica (portanto acima do dualismo cartesiano) defendida por Bachelard, supõe que é possível chegar à verdade da ciência natural através da pura racionalidade de uma tradução formal, embora essa sempre passe por uma escolha, construída através do discurso, e até mesmo pela alteridade de um “controle social”, tendo-se admitido os “caracteres sociais da prova”.

Se por um lado a problematização da unidade do objeto de conhecimento da física é apresentada como fundamental, Bachelard não problematiza a linguagem de representação do objeto, pelo contrário: é a linguagem matemática, pelo que entendemos, que permite superar a “dualidade fundamental”. Ele deixa de lado a problemática da escolha entre as diversas linguagens matemáticas disponíveis e de como elas permitem passar – ou fazer a tradução –  de um sistema formal para o outro. Mas, como veremos adiante, contra o que sustenta Bachelard, antes mesmo da publicação de suas obras citadas aqui, já tinha sido demonstrado pelo matemático Kurt  Gödel que a tradução, mesmo entre sistemas “puramente” formais, é sempre problemática, exceto no caso do “cálculo de predicados de 1ª ordem”.

Mais fundamentalmente, questionamos um ponto preciso: a epistemologia de Bachelard  não estende a problematização da unidade de conhecimento (na Física) à própria unidade de linguagem que a representa. Contra os preceitos metodológicos que ele defende, ele aceita intuitiva e “naturalmente” na Física a existência a priori de unidades de linguagem matemática, à exemplo de uma realidade biológica, dada, inquestionável.

Será possível que a linguagem científica tem uma vida própria, uma dinâmica exclusivamente interna e automática, sendo absolutamente autônoma em relação a seus usuários e ao controle desses, que ele mesmo destaca? A “perspectiva de erros retificados”, ausentes da “percepção imediata” (BACHELARD, 1996[1938], p. 13-14), não requer, antes, alguma concepção histórica de acumulação de conhecimento pela correção e seleção, a qual por sua vez necessita uma interação comunicativa, portanto linguageira, que se desenrola numa dimensão social e histórica, do espaço-tempo?

A “Nova Física” quebra o postulado de identidade ou tautologia (BACHELARD, 1978[1940], p. 69-70). Logo há uma escolha a ser feita entre as possíveis regras semânticas a aplicar – a da lógica aristotélica (regra de não contradição) ou não – para produzir provas de verdade sobre a realidade física. Ora tal escolha resulta de um ato humano, portanto de um ator social, não de alguma ação puramente automática (senão os adeptas da física clássica teriam adotado imediata e automaticamente as novas teorias!). Como não deduzir, dos propósitos do mesmo Bachelard, que os físicos “clássicos” e “novos” se distinguem socialmente, em sua prática científica, pelo uso de regras semânticas diferentes – aristotélicas ou não – na produção e controle de provas? As próprias semântica, notações da lógica e da matemática, não são, elas mesmas, construções, cuja partilha passa inevitavelmente, na prática, pela percepção social imediata (visual, auditiva...) e linguagem “comuns”? Como explicar, então, o surgimento e intercompreensão de novas linguagens formais? Seriam elas geradas espontaneamente, independentemente de qualquer “tradução” de “necessidade” não exclusivamente racional? E como supor a priori que novas linguagens formais não têm efeito algum sobre o próprio ato racional de conhecer e seus produtos, levando-os a manifestar no decorrer da história características diferenciadas e datáveis?

Resta que, se as linguagens científicas não são construções puramente formais, então são, no mínimo em parte, construções e criações sócio-históricas, datáveis.

Pelo que entendemos, em suma, uma vez que se admitiu a dimensão sócio-discursiva do conhecimento – processo de objetivação, construção do objeto e provação – , não se poderia evitar as consequências para a própria epistemologia, como ramo do saber, e isentá-la das condições e marcas sócio-históricas particulares de sua produção. Conforme adverte Bourdieu, pelo menos para a epistemologia que se aplica ao presente estudo –  a das Ciências Sociais, nas quais a CI se inclui – excluir do objeto de conhecimento, como também do ato de conhecer, as marcas sócio-históricas de seu processo de construção, equivaleria a parar no meio do caminho em direção à verdade científica. No caso da DC, seria descartar a objetivação do objeto “barreira da linguagem” com toda sua complexidade, e por aí excluir a pluralidade social, linguística e o leigo, inviabilizando o estudo pleno e científico da DC na CI.

No outro extremo, o sociólogo recusa que uma ciência permeada pelo social seja incapaz de produzir quaisquer verdades (2004[2001], p. 13), já que em sua sociologia ou na história das ciências de Daston34, para citar apenas esses autores e suas respectivas áreas, social não é sinônimo de irracionalidade absoluta. Existe, para Bourdieu (1980), uma razão que não é formal, mas social e prática. Afinal, parece-nos recebível o argumento que se deve comprovar a existência da própria racionalidade como objeto e como ato prático de conhecimento, observando-o e analisando-o ao longo da história na sua construção discursiva e social. Tal objetivação também ajuda-nos a explicitar, reflexivamente, a própria concepção particular de razão que supostamente usamos aqui, em relação à outra formas de racionalidade não necessariamente científicas – sem por isso, aliás, excluir as aptidões cognitivas biológicas que são as de nossa espécie. O mesmo se aplica, nesse estudo, à linguagem científica, entendida relativamente à linguagem “comum”.

No decorrer de nossa análise, buscamos mostrar tanto o papel desempenhado pela linguagem científica na construção, organização e estabilização do conhecimento científico, quanto as marcas que simultaneamente a diferenciam da linguagem comum e distinguem cientistas e leigos, indicando como esse papel, uma vez que implica escolhas (ou imposições), implícitas ou não, nunca não é socialmente neutro.

Se a CI, como outras áreas aliás, não se constitui exclusiva e principalmente pela linguagem, e não poderia por isso ser reduzida a uma forma específica do estudo da linguagem, deveria tentar, sendo uma Ciência Social, tirar o máximo de consequências da presença imprescindível desse componente. Do contrário, corre o risco de introduzir em sua construção e no seu objeto de estudo elementos que escapam de seu controle e conhecimento, e até de passar, de fato, à margem da ciência atual.

Basta mencionar a Recuperação de Informação-RI, uma das subáreas centrais da CI. Como, nesse caso, esquivar a necessidade de aprofundar a questão da linguagem? Esta não diz respeito à constituição da CI apenas, é indissociável do objeto de estudo específico. O usuário de um sistema de RI não tem outra escolha senão usar explicitamente uma determinada linguagem para se comunicar com o sistema e acessar seus dados; o que não significa, aliás, que a problemática geral da consulta feita ao sistema possa ser reduzida estritamente à palavra usada na busca35. Além do mais, os sistemas de RI são escritos em linguagens de programação, que são linguagens formais, o que, em rigor, tem possíveis consequências sobre o tipo de verdade que podem – ou não – produzir, ou sobre o grupo de destinatários que os resultados das consultas podem privilegiar.

Uma outra maneira de responder à pergunta sobre a relação entre linguagem e informação seria sustentar que a informação existe sem a linguagem porque não se pode provar o contrário. Tal resposta seria aceitável se, para ser partilhado, o sentido ou conceptualização da palavra informação não precisasse ser explicitado e tornado público, em termos científicos, o que se adequaria apenas a áreas não científicas. Mas, se aceitamos os pré-requisitos de construção do objeto e de controle social de Bachelard e arcamos com todas as consequências sociais apontadas por Bourdieu, então, em ciência, só se poderia negar a existência de um objeto que tenha sido construído através de asserções discursivas e de algum método explícito, partilhadas em uma sociedade e momento histórico particulares. E, para ser aceitável como tal, um objeto científico exige que sua existência seja provada, o que excluiria as palavras cujo sentido não foi verificado, ou até mesmo impossível de se verificar, por algum método (o que não significa, de maneira alguma, que possam existir nas sociedades humanas outras verdades que as científicas, mas não seriam, então, verdades no sentido científico). Tal demonstração, por ter que ser partilhada, pré-requisito de todo conhecimento cientificamente validado pelos pares, já não exigiria o uso –portanto a escolha–  de alguma linguagem, conforme o discutimos acima, relativamente à epistemologia de Bachelard? Mas, para que a partilha de uma demonstração de existência possa ser absolutamente objetiva, não seria também exigido o uso de uma linguagem absolutamente neutra e capaz de expressar a verdade em sua totalidade? Em suma, a supor que exista uma verdade absoluta, ainda haveria que provar que existe uma linguagem absolutamente neutra, a fim de reunir as condições necessárias para uma comunicação total da verdade objetiva. Isso sem falar da possibilidade de neutralizar de alguma maneira todas as condições sociais e históricas em que qualquer verdade objetiva é concebida, enunciada, partilhada e validada pelos pares.

Até o momento, conforme o pormenorizamos no capítulo 2 dedicado a nossas pressuposições teóricas, está comprovado que, embora se admita que a aptidão da linguagem seja inata, as línguas humanas particulares são adquiridas, desenvolvidas e usadas em um espaço social datado, em que se situam seus usuários, que estes as escolham ou não livre e conscientemente  (cf. 2.4).

Diferente do conhecimento místico ou religioso, o conhecimento científico é passível de ser contradito e retificado no decorrer do tempo, usando-se alguma linguagem explícita particular, o que o torna necessariamente social e histórico, embora possa continuar sendo considerado universal. A universalidade do conhecimento científico, construída, aceitável, refutável e expansível, com tudo que isso supõe e implica, diferiria radicalmente do conhecimento místico ou religioso, primordialmente auto-declarativo, dogmático, absoluto e anistórico. Isso não significa que, da mesma forma que a CI não repousa exclusivamente na linguagem, a Ciência não repousa exclusivamente em conhecimentos que não sejam crenças. Se a verdade científica resulta de um processo de objetivação sempre mediado pelo discurso, que não é estanque a outras formas de verdade que a científica, então esta não é “pura”, sempre chega misturada com alguma crença, ideologia, etc.

Podemos perguntar se o processo de objetivação irá  – ou poderá – necessariamente reduzir, ao longo do tempo, qualquer saber, não apenas religioso, mas não científico em geral, a um conhecimento e discurso científicos. A questão, já esboçada acima a propósito da irredutibilidade do grupo dos cientistas aos não cientistas, nos parece fundamental para conceber a DC. Orienta de forma decisiva o que se pode esperar da relação de comunicação dos cientistas com os não cientistas (ou com cientistas de outras áreas): a DC visa "converter" em cientistas os não cientistas (ou os cientistas de uma área visam converter à sua área particular os demais), ou consideraria os segundos como grupos que perseguem valores próprios, e que, a esse título, possuem uma história e identidade distintas, irredutíveis, cuja existência social autônoma deve sempre ser reconhecida como legítima pelos cientistas?

Além do mais, ao evocar a dimensão sócio-discursiva como condição de existência do conhecimento científico, Bachelard conduz à questão do sujeito cognoscente como ator-produtor, levando-nos para o terreno da sociologia e da informação como prática social. Então, se a verdade científica supõe a existência do conhecimento universal, este por sua vez é condicionado por outras supostas universalidades, entre as quais a de seus enunciadores – que nada mais são que os atores sociais ou agentes – que o comunicam e controlam no âmbito social. Bourdieu formula a indagação sobre verdade e ator social no livro extraído de sua última aula no Collège de France, salientando no final os “jogos de linguagens” de Wittgenstein:

Como resposta à questão de saber quem é o «sujeito» desta «criação de verdades e valores eternos», podemos invocar Deus ou qualquer um dos seus substitutos inventados pelos filósofos: é a solução cartesiana das semina scientiae, as sementes ou germes de ciência que seriam introduzidos na forma de princípios inatos no espírito humano; ou a solução kantiana, a consciência transcendental, o universo das condições necessárias do conhecimento que são consubstanciais ao pensamento, sendo o sujeito transcendental, de alguma maneira, o lugar das verdades a priori que são o princípio de construção de qualquer verdade. Pode ser, com Habermas, a linguagem, a comunicação, etc. Ou, com o primeiro positivismo lógico, a linguagem lógica como construção a priori que deve ser imposta à realidade para que a ciência empírica seja possível. Poderíamos evocar também a solução wittgensteiniana, segundo a qual o princípio gerador do pensamento científico é uma gramática, mas acerca da qual se discute se é histórica (estando os jogos de linguagem sujeitos a constrangimentos que são invenções históricas) ou se tem a forma que as leis universais do pensamento dão a conhecer. (BOURDIEU, 2004[2001], p. 12)

Meditemos mais alguns propósitos de Bourdieu, tirados da mesma obra, específicos sobre o paradoxo aparente entre História e verdade científica universal, à luz da contribuição das Ciências Sociais:

Como é possível que a atividade científica, uma atividade histórica, inscrita na História, produza verdades trans-históricas, independentes da História, fora de qualquer relação com o lugar e o momento, portanto eterna e universalmente válidas? Trata-se de um problema que os filósofos colocaram de forma mais ou menos explicita, sobretudo no século XIX, em grande parte sob a pressão das ciências sociais acabadas de surgir. (BOURDIEU, 2004[2001], p. 11-12)

Bourdieu sugere aqui uma pergunta que a análise sócio-histórica da DC deverá contemplar: tal apagamento da relação da verdade com o lugar, o momento, e também o ator que a produz, é uma tendência da linguagem filosófico-científica, e, se for o caso, é o que a distingue particularmente da linguagem comum? O apagamento das marcas sóciossimbólicas da verdade influi na acumulação de informação ou no tipo de informação acumulada?

2.5CI, DC e reprodução simbólica da sociedade

Qual é a problemática da CI de que vamos tratar aqui, afinal? O que há de comum entre suas subáreas tradicionais (Arquivologia, Biblioteconomia e Documentação) e a análise da DC pela linguagem? Para responder a essa pergunta, precisamos situar-nos em um patamar mais amplo que as divisões disciplinares conexas discutidas até aqui.

No humano, a herança genética não tem um papel exclusivo na reprodução da espécie e na (pré)determinação de sua divisão em categorias sexuais. Bastaria citar os Estudos de Gêneros de que a socióloga Maria Andréa Loyola é pioneira no Brasil para atestá-lo. A perpetuação de nossa espécie gregária também passa por suas diversas estratégias de organização social. Essas, por sua vez, para serem transmitidas, baseiam-se em uma diversidade de recursos além das capacidades inata e aparelhagem fisiológica, que dependem da aquisição pela socialização para se desenvolverem plenamente, como o aprendizado e a linguagem. Admitimos que a organização social resulta dos usos (não excludentes aliás) tanto da força quanto da intercompreensão, partilha e troca de objetos ou bens – inclusive de conhecimento – mediada por signos.

A reprodução biológica, nos humanos, é indissociável da reprodução social. Mas o que torna nossa espécie particular é a existência de categorias sociais especializadas na atividade simbólica: produção, inovação, comunicação, uso, seleção, formatação, registro, acúmulo, armazenamento, reprodução, acesso, distribuição, entre outros, do conhecimento. Em suma: categorias especializadas na reprodução simbólica da sociedade.

Tal especificidade confere à atividade simbólica humana um estatuto único. Entendemos, assim, que as subáreas da CI, como a Arquivologia, a Biblioteconomia e a Documentação, participam de uma mesma atividade geral, com todas as lutas de classificação simbólica que isso envolve, já que as categorias sociais não são predeterminadas geneticamente: a reprodução simbólica da sociedade. A exemplo de Bourdieu, entendemos o conhecimento como um capital simbólico que, ao fim e ao cabo, concorre, ao lado de outros tipos de capital (político, social, econômico...), para a caracterização da sociedade humana e perpetuação da espécie como um todo. A reprodução social dos cientistas não é uniforme e retilínea, pois, como mostra Kuhn, o processo de capitalização simbólica alterna entre fases de ruptura e de acumulação. É nessa perspectiva, pelo que nos parece, que toma sentido o conjunto das áreas estudas pela CI. E, se o pertencimento a uma categoria social, seja ela especializada na atividade simbólica ou não, não é nem geneticamente predeterminado nem absoluto, então sempre existe algum jogo na reprodução, onde a DC encontraria seu espaço específico.

É nessa problemática central da CI que inscrevemos a linguagem: como esta concorre, ao lado ou junto de outras técnicas ou suportes, para a reprodução simbólica da sociedade? E, mais especificamente, no caso da DC: como a linguagem concorre para produzir, reproduzir ou quebrar as diferenças entre as categorias do cientistas e os  “leigos”, sabendo que as categorias sociais não são pré-determinadas?

Grifemos que a linguagem, embora não exista por si só, tem uma particularidade em relação aos outros suportes ou técnicas de reprodução de informação: como constituir conjuntos de documentos de uma biblioteca ou arquivo, sem a linguagem para nomeá-los, relacioná-los e comunicar sua classificação e disponibilidade, tornando-os acessíveis à inteligibilidade dos usuários? Na perspectiva da acumulação de conhecimento, a partilha social dos documentos – documentos considerados não como elementos desconexos mas como partes de redes ou sistemas de relações de uma atividade simbólica um mínimo coordenada – passa inevitavelmente pela linguagem.

2.6Estudo da DC e da linguagem científica na atualidade

 Apresentamos aqui um breve estado atual do estudo da DC e de nossos objetos específicos, a diferença entre linguagem científica e comum.

2.6.1 Divulgação Científica ou “Public Understanding of Science”?

Atualmente a DC é reconhecida e institucionalizada.

Na Royal Society of London, primeira academia científica oficializada em 166036 pelo poder político de uma monarquia inglesa recém restaurada, a DC tornou-se parte integrante da tarefa do cientista. Lê-se no resumo de seu relatório oficial37 de 1985, que marca segundo o pesquisador Bauer (2008, p. 7) a emergência do título “Public Understanding of Science” (geralmente traduzido por “percepção pública da ciência [e tecnologia]38”) (discutiremos adiante esse “rebatizado” da DC):
A ciência e a tecnologia desempenham um papel preponderante em nosso dia a dia, tanto em casa quanto no trabalho. Delas dependem nossa indústria e portanto nossa prosperidade nacional. Quase todos os problemas de política pública envolvem ciência ou tecnologia. Todo mundo, portanto, precisa entender um pouco de ciência, de seus sucessos, benefícios e limitações.39 (ROYAL SOCIETY OF LONDON, 1985)

A ciência, que permeia toda a sociedade e contribui para a riqueza nacional, precisaria ser compreendida por todos.

O relatório contém um capítulo sobre as diretrizes que a “comunidade científica” deve seguir para comunicar com os não cientistas em geral. (Como aceitamos em nossa tese pressuposições de Pierre Bourdieu, evitamos usar a expressão “comunidade”, que ele recusa no que diz respeito aos cientistas: “... o que chamamos a comunidade científica – que aliás não é uma comunidade mas um campo com concorrências...” (BOURDIEU, 1997, p. 66) (trad. nossa)).

No trecho abaixo, a comunicação extra-pares é apresentada como parte integrante da competência do cientista.

6. A COMUNIDADE CIENTÍFICA

6.1. Os cientistas precisam aprender a comunicar melhor com todos os segmentos do público, especialmente a mídia. Os dois temas recorrentes do capítulo precedente sobre mídia foram, por um lado, por parte dos cientistas, a desconfiança, a falta de compreensão e muitas vezes de vontade e habilidade em comunicar-se adequadamente com os jornalistas, e por outro a importância das boas relações entre cientistas entre jornalistas para que a ciência seja correta e adequadamente representada na mídia. Boas relações também são necessárias com o Parlamento, o Serviço Público e a indústria. Nosso grupo, embora não seja exclusivamente composto de cientistas, foi um produto da comunidade científica, por isso cabe que nossa mensagem mais direta e urgente seja dirigida aos cientistas: aprender a comunicar com o público, demonstrando boa vontade e considerando que faz parte de nosso ofício. Esse capítulo trata de tais problemas de comunicação e sugere várias soluções. (THE ROYAL SOCIETY, 1985, p. 24)40

Estão visados aqui “todos os segmentos da sociedade”.

No que diz respeito aos jornalistas, especialistas da comunicação de massa, o relatório coloca-os na posição de varejistas da ciência perante um “grande público”. Reconhece-lhes o monopólio da mediação da verdade científica, em detrimento de um contato direto entre o cientista e o leigo, com as possíveis derivas subsequentes, conforme denuncia Meadows (1997, p. 337,338).

Do lado dos cientistas, o relatório usa a expressão “comunidade científica”, que o sociólogo Bourdieu rejeita (2004[2001], p. 67), porque não se trata de um segmento composto de unidades pré-construídas e homogêneas, em consenso ou em entendimento puro, mas antes em concorrência e luta pela imposição da verdade segundo regras distintivas, dinâmicas, mais ou menos comuns, uniformes e aceitas.

Entendido do ponto de vista da ciência social de Bourdieu, a Royal Society propõe construir um consenso em torno da Ciência, mas essa busca de consenso, próxima daquela descrita por Ziman (1979, p. 24-25), é um efeito ou fato da política científica, na qual o relatório inclui o que se convinha chamar até então a DC. Em suma, esse documento concebe a DC como parte de uma política, que serve o management, i.e. a produção e gestão das riquezas nacionais, e não como uma comunicação explícita e cientificamente construída dos valores específicos da ciência aos não cientistas.

Conceber a ciência como uma atividade social ao mesmo tempo pressionada (e até certo ponto estruturada) pelas demais e distinta delas, parece-nos fundamental para o estudo da DC. O pesquisador que parte do pressuposto que existe uma ciência completamente autônoma pode ser induzido a procurar, em vão, certos problemas de comunicação entre cientistas e leigos quando esses problemas originam-se de fato nas esferas política, econômica, religiosa, ou outras, que, quando dominam fortemente uma sociedade, estruturam com seus valores a maioria das relações entre atores em esferas dominadas, inclusive a relação de comunicação entre cientistas e leigos.

O estudo da DC pode então requerer a compreensão prévia da posição ocupada pelo cientista em uma sociedade particular, até identificar características que de fato o distinguem, dissociando-as daquelas características de outras esferas, mesmo quando nos são universalmente apresentadas como sendo as da ciência. A dissociação entre o universal supostamente atemporal e o universal efetivo, por sua vez, pode pedir uma análise histórica que re-contextualize a DC como um processo de construção relacional – tanto intra-pares quanto extrapares –  no tempo, produto tanto de conflitos de poder entre esferas e dentro delas, quanto da necessidade de entendimento. A esse título, conforme o pormenorizaremos no capítulo 3, a abordagem metodológica de Bourdieu parece-nos adequada à DC.

No que diz respeito à DC no plano internacional, remetemos o leitor à série de pesquisas sobre “percepção pública sobre ciência” empreendidas pelo programa PISA da OCDE. Martin Bauer condensou essas pesquisas em uma tabela em “Survey research and the public understanding of science” (2008, p. 3).

No Brasil, as conclusões do mesmo PISA encontram-se resumidas por Désirée Motta-Roth (2011) em seu artigo intitulado “Letramento científico: sentidos e valores” (grifemos que ela usa o conceito de “capital simbólico” de Bourdieu, em harmonia com nossa abordagem):

No Brasil do século XXI, uma ínfima parte da população tem acesso ao capital simbólico do conhecimento, conforme os Relatórios PISA 20002, 20033 e 2006,4 da OECD-Organisation for Economic Co-operation and Development (www.pisa.oecd.org) têm demonstrado. Segundo esses relatórios, grande parte da população brasileira de 15 anos apresenta resultados insatisfatórios na aprendizagem de matemática, linguagem e outras ciências, seu conhecimento e interesse  por letramento científico é mínimo e sua consciência das oportunidades que o letramento científico oferece é praticamente inexistente. (MOTTA-ROTH, 2011, p. 12)

O último relatório do PISA foi publicado em dezembro 210341.
Em um artigo intitulado “Diferença entre pesquisa básica e aplicada: perspectivas sociológicas e linguísticas” (MERIGOUX, 2014, p. 11-48), examinamos como a OCDE, da qual o PISA depende, concebe a pesquisa científica, inclusive a diferença entre pesquisa básica e aplicada, em seu “Manual de Frascati”, hoje referência internacional incontornável. Mostramos que sua definição concede um lugar preponderante a critérios não científicos, nomeadamente políticos e econômicos, aceitando inclusive que estruturem o conjunto  da ciência, com o risco de instrumentalizá-la completamente. Também mostramos como a ciência social, em particular a sociologia de Bourdieu, fornece-nos fundamentos científicos (i.e. 'de dentro da ciência' por assim dizer, mas não exclusivamente42), para conceber a ciência como uma atividade imersa na sociedade, onde está em relação com outras como a política e a economia, e das quais não pode portanto ser absolutamente cortada até mesmo para ser entendida, mas às quais não pode ser reduzida. Como o comprovam os estudos empíricos do sociólogo fundados em seu conceito de campo, a ciência tem estrutura e valores distintos, embora, vale mencionar, “impuros”, em particular o de não ser, segundo ele, uma teoria pura, como muitas vezes se o pretende, mas uma teoria da prática, ou praxeologia. Para Bourdieu, a própria divisão da pesquisa entre básica (teórica) e aplicada (prática), que funda a definição da OCDE, não é nem constante nem definitória da ciência. O exame da gênese sócio-histórica dessa divisão indica que se deve primordialmente às ordens religiosa, econômica e política (divisão, organização e direção das atividades de produção, sejam elas produção de conhecimento ou não) (BOURDIEU, 1989, p. 11-12). A concepção particular da OCDE vem impondo-se ao mundo, inclusive ao Brasil, através do PISA, por isso devemos mencioná-la, e discuti-la, em particular no que diz respeito à linguagem, e à sua imposição da expressão “Public Understanding of Science” – PUS, como o faremos adiante.
No que diz respeito às abordagens da DC desde o advento do PUS até hoje, remetemos ao artigo de Bauer (2008), que fornece-nos delas um panorama repartido em dois períodos, que resumiremos muito sucintamente aqui. O primeiro, de 1985 até meados de 1990, que ele intitula “Public Understanding of Science” – PUS, e o segundo, de meados de 1990 até a atualidade, “Science in-and-of Society”, que poderia ser traduzido tanto por “ciência em e da sociedade” quanto por “ciência dentro e fora da sociedade”, o “of” (de) podendo ser ouvido como “off” (fora de)). Bauer caracteriza o período PUS por sua herança (herança de onde?) da noção de “déficit do público”, que passou de déficit de conhecimento para déficit de atitude (2008, p. 7). Segundo BAUER, o “axioma” do PUS, que poderia se resumir a “quanto mais sabem  [eles, i.e. o público/não cientistas, supõe-se] ciência, mais a adoram” ou “mais se interessam por ela”, não se verificou. Isso gerou uma desconfiança dos cientistas em relação ao público, que lhes a devolveu (2008, p. 8-10). Bauer menciona de passagem os apelos de autocrítica em favor da “'busca da alma', i.e. reflexividade entre os atores cientistas”43 (2008, p. 10) (cf.4.2.10 para uma análise da lógica de Aristóteles que relaciona justamente a alma, indivisível, ao déficit público). Desde meados de 1990, o déficit mudou de lado, entrou na conta do cientista. O “science expert” (especialista em ciência) teria sido o responsável por uma quebra de confiança que precisa agora ser restaurada junto ao público, através da implementação de técnicas deliberativas. Mas essas são terceirizadas e caras, envolvem dinheiro público, e acabam exigindo auditorias, que por sua vez levanta questões sobre com qual método avaliá-las, questões geralmente polarizadas de forma um pouco caricatural entre qualitativa e quantitativa. Bauer termina seu panorama voltando ao “conceito de déficit”, que ele “deplorou tanto quanto apreciou na pesquisa de PUS” (2008, p. 13). Convida-nos a superar seu estigma e reabrir 40 anos de estudos acumulados para se empreender uma análise histórica mais ambiciosa que simples estudos pontuais. Se, segundo ele, “a PUS é um processo histórico”(2008, p. 13)44, marcado pelo conceito de déficit público, devemos então ser ambiciosos e remontar às raízes históricas do déficit público não apenas na PUS, mas na DC. Pensamos que a melhor compreensão da barreira da linguagem, apreendida pela diferença entre as linguagens ditas científica e comum, pode ser uma via de exploração fértil dessa história. Achamos na abordagem pela gênese social – e histórica – , e no conceito de capital simbólico e outros com os quais está em relação (capital social, econômico...), tal como os desenvolve Bourdieu, os elementos necessários para empreender nosso estudo da DC, alias PUS, pelo enfoque da linguagem. Pormenorizaremos essas questões no capítulo da tese dedicado à metodologia.
Notemos, enfim, que Bauer, no artigo citado, apesar de ser autor de um método de pesquisa social que inclui análise do discurso45, menciona apenas uma vez a linguagem, referindo-se à “body language of science” (2000, p. 6), que, pelo que entendemos, poderia ser assimilada a uma ciência incorporada, próxima do habitus de Bourdieu.

Tendo evocado brevemente as novas tendências da DC, comentemos, como o anunciamos no início dessa seção, a emergência da expressão “public understanding of science” (PUS), adotada pelo programa do PISA-OCDE, cuja emergência deu-se a favor do referido relatório da Royal Society of London de 1985, como o nota Bauer, pesquisador ligado a esse mesmo programa e à London School of Economics. De fato, uma vez que os nomes dos conceitos influem na compreensão da Ciência, porque nunca são socialmente neutros, como poderíamos deixar de problematizar o rebatismo da Divulgação pela expressão que traduziremos por “entendimento público da ciência”?

Em que medida explicitar em sua denominação as partes que a DC envolve, nomeadamente público e ciência, contribui para uma melhor relação de entendimento, mas também relação social, entre essas partes?

Falar em “entendimento público da ciência” pressupõe que as categorias do público e da ciência – tanto quanto a do entendimento aliás – já sejam aceitas e reconhecidas como realidades objetivas, universais, homogêneas, suscetíveis de serem clara e consensualmente distinguidas, além de mutuamente excludentes. Ora, para as ciências sociais, tal pressuposição não se verifica.

Basta lembrar alguns dados históricos e sociológicos, que desenvolvemos em nossa análise sócio-histórica, para constatar quanto as categorias envolvidas hoje na DC são particulares e por isso não são suficientes para fundar um estudo mais aprofundado.

O substantivo “cientista”, i.e. o reconhecimento da categoria socioprofissional de quem exerce a atividade científica, data apenas de 183046, quando a Ciência, para autores como Price (2000), remonta à Babilônia Antiga.  O cientista só emerge como categoria socioprofissional distinta na virada do século 18 para 19, em particular na França (CROSLAND, 1975). A preexistência de uma homogeneidade da categoria dos cientistas é refutada pelo sociólogo Bourdieu. Ele mostra, fundado em sua teoria dos campos (1976), que os cientistas pares são concorrentes em luta, segundo regras que lhes são específicas47, ou distintivas, embora, como vivem em sociedade com outros grupos, também ajam segundo regras que não lhe são exclusivas. A possibilidade de distinguir claramente o cientista na sociedade, não do ponto de vista político-administrativo ou socioprofissional, mas sociológico, é questionável e variável justamente porque grupos externos intervêm na sua definição (é o problema do Manual de Frascati da OCDE). Como veremos adiante de forma pormenorizada, no início da modernidade, período a que a emergência da DC é geralmente identificada, são os poderes políticos europeus locais que consagram definitivamente, contra Roma, a vitória do heliocentrismo; tanto que são eles que criam as Academias de ciência oficiais, não o poder do Papa, embora esse tivesse fundado as primeiras universidades (LE GOFF, 2005, p. 123). Houve o grito de independência de Galileu, “a ciência é dos cientistas”, como diz Bourdieu (1976, p. 98), mas o reconhecimento definitivo da autonomia da ciência em relação à religião e sua institucionalização em academias reais deveram-se a grupos externos particulares – os tais poderes políticos locais, marcadamente absolutistas segundo a História contemporânea, diga-se de passagem. Há portanto um viés particular na definição das categorias modernas de ciência, cientista e não cientista, constitutivas da DC atual, que devemos considerar sob pena de privilegiar um enfoque predominantemente político do momento atual, ao invés do científico.

A categoria estrita de “público” da ciência, que supõe uma comunicação impessoal entre cientistas e não cientistas, é praticamente inexistente na Europa até o início do século 18, fora dos próprios pares eruditos, apesar de já existirem uma literatura científica na Idade Média (“sobre cosmologia e os céus, medicina e doenças, ciências naturais ou geografia”)(CHARTIER, 2012, p. 42) e uma institucionalização da ciência (as academias reais inglesa e francesa dos anos 1660). A própria ideia de se revelar a ciência a não cientistas é rejeitada por ninguém menos que Copérnico (KUHN, 1957, p. 150).

Quanto ao conceito de entendimento, é definido na filosofia a grosso modo como uma categoria a priori, o que exclui o conhecimento prático, que é a marca do leigo, por aí desclassificando esse como possível detentor de verdades racionais “puras”, teóricas ou legítimas.

Observemos por fim que o fato de não existir, em certos períodos históricos ou sociedades, um público da ciência ou mesmo uma ciência pública em forma rigorosamente institucionalizada, não impede a existência de comunicação da ciência a não cientistas; e o fato de essa comunicação da ciência ser descrita como privada ou informal não a exime, para além dos rótulos e das aparências, de ter sido efetiva e problemática, inclusive do ponto de vista linguístico. Nem sempre a ciência é ciência só porque é “pública” no sentido estrito, e não raro a institucionalização do “público” deve-se mais ao poder político de poucos que à ação da massa da população.

Em suma, “público”, “ciência” e “entendimento”, tal como os entendemos hoje, não são substâncias, ou categorias invariantes, universais em si ou preexistentes da problemática geral da DC. Por isso não estamos convencidos que se justifica, para o efeito do presente estudo, a denominação “entendimento público (ou percepção pública) da ciência”, mais restritiva que necessariamente representativa da atualidade.

Divulgação” permite focar não as partes situadas da DC, mas, de forma mais ampla e conceitual, a relação social que liga aqueles que dominam, controlam, regram, definem, (re)produzem e distribuem o (re)conhecimento na forma de símbolos legítimos, e aqueles que, por necessidade de existência social, os trocam e usam. A constância de tal relação se verifica de fato, pelo menos desde que existem sociedades com grupos específicos para a atividade simbólica, qualquer que seja seu rótulo (sacerdote, filósofo, escolástico, intelectual...) e o da categoria de conhecimento (religião, ciência...). Mas nada permite afirmar a priori que o entendimento seja uma constante ou uma característica predominante dessa relação: mesmo quando se conhece o valor semântico “correto” de símbolos do conhecimento científico e se os usa para produzir e encadear verdades, na ausência de aplicação prática em atividades profissionais (acadêmicas ou não) que reconheçam esse conhecimento, esses símbolos ainda podem funcionar como meros fetiches (BOURDIEU; BOLTANSKI, 1975).

É preciso, portanto, duvidar que as designações atualmente em uso ou prescritas, possam ser imparciais ou naturais, ou entendidas isoladamente, perguntando: em que contexto sócio-histórico emergiram as categorias da DC, hoje oficialmente concebidas como absolutamente distintas: categoria do que é entendimento da ciência e do que não é; de quem sabe ciência e quem não sabe (e sobretudo de quem deveria ou não sabê-lo); de quem detém o conhecimento legítimo, socialmente mais valorizado, e quem não o detém; e, por fim, foco de nosso estudo, do que são linguagem científica e linguagem comum (i.e. da forma “correta”, ou legítima, de se comunicar a ciência)?

Ao contrário da denominação “Public Understanding of Science”, que fixa de partida as categorias a considerar (o público e os cientistas), seu tipo de relação (exclusivamente cognitiva de entendimento) e tipo de espaço social em que se produz (espaço público, definido pelo poder público), “Divulgação” permite apreender nossa área como o estudo de relações, relações heterogêneas, entre grupos heterogêneos, tanto sob o aspecto sócio-cognitivo quanto sóciossimbólico, dentro de condições históricas particulares do espaço social em geral (oficialmente reconhecido ou instituído pelo poder político ou não), inclusive com seus vieses e pressões políticos e econômicos.

Resta a questão específica da linguagem nessas relações, foco de nossa tese.

2.6.2A linguagem científica e sua dupla face pouco conhecida dos cientistas

Embora muito se evoque a barreira da linguagem nos textos sobre DC, achamos pouca literatura que contextualize a linguagem científica sob uma perspectiva social e histórica, ou como uma construção sóciossimbólica sempre relativa a alguma linguagem comum e indissociável dessa.

Charles Bazerman, pioneiro do estudo dos gêneros textuais, inclusive do científico (2004), apontava, ainda recentemente, as lacunas, tapadas por aparências de autoridade natural, no estudo do papel simbólico, construtivo e interativo, da linguagem na produção do conhecimento científico. Ele escrevia, em uma coletânea relativamente recente intitulada “Reading Science: Critical and Functional Perspectives on Discourses of Science” (MARTIN; VEEL, 1998) (Ler ciência: perspectivas críticas e funcionais sobre discursos da ciência):

Durante os últimos séculos, várias forças tenderam a suprimir da nossa consciência o caráter retórico, comunicativo e simbólico do conhecimento científico – suprimindo portanto  a consciência do papel da linguagem na produção do conhecimento – […] Talvez o próprio êxito das representações científicas suprimiu a consciência da linguagem na produção do conhecimento científico, já que o conhecimento científico parece moldar-se em formas naturalmente autoritativas, impensáveis em qualquer representação alternativa.48 (BAZERMAN, 1998, p. 15)

Na parte que nos interessa especificamente, tais lacunas devem simultaneamente ter apagado, em meio aos cientistas, a consciência social de sua produção de diferenças linguísticas bem como cognitivas, em relação aos grupos de não cientistas. E, como compreender a barreira da linguagem, quando essa implicaria o desenvolvimento prévio entre os cientistas de uma conscientização, desnaturalização e objetivação de sua própria linguagem, que segundo Bazerman só veio vem ocorrendo ultimamente, após uma prática secular (ou, como sugerimos adiante, de mais de dois milênios). O assentimento, entre os próprios cientistas, de que existe uma linguagem por assim dizer predestinada para a ciência explicaria a escassez de explicações satisfatórias sobre a tal barreira, tema de nossa tese.

A lacuna de consciência e/ou conhecimento da complexa face sóciossimbólica da linguagem, além da face estritamente instrumental ou semântica, na produção do conhecimento científica, teria prejudicado, por tabela, os divulgadores. É o que sugerem as críticas de Gillian Fuller ao reconhecido cientista e divulgador Stephen Jay Gould, nessa mesma coletânea:

A ‘popularização’ da ciência de Gould não torna seus escritos mais acessíveis ao leitor não especialista, tampouco suprime o risco potencial de dominação pelo discurso científico. Apenas os torna acessíveis a outro grupo dominante49, proporcionando àqueles que foram educados nas humanidades liberais outro conjunto de instrumentos discursivos para exercerem o controle simbólico.50 (MARTIN; VEEL, 1998, p. 32)

Por ironia, os cientistas, inclusive quando são divulgadores, seriam os grandes leigos de sua própria linguagem, quando considerada no conjunto de suas dimensões, relativamente tanto a seu grupo quanto aos outros grupos.

Partindo da constatação geral que a linguagem, com todas suas faces, foi esquecida na produção da ciência, examinemos a possível contribuição, para a compreensão da obscura “barreira da linguagem”, de disciplinas, áreas ou obras que tratam de linguagem científica.

Estudos sobre a linguagem técnico-científica têm sido abundantes desde os anos 1970, sob o impulso dos estudos de Terminologia (a seguir o pioneirismo do alemão Eugen Wüster nos anos 1920-30, e a necessidade de normas dos organismos internacionais), Sócio-Terminologia e Neologia, sobretudo na região canadense francófona do Québec. Na CI, é reconhecida a relevância da Terminologia, que permite “a expressão verbal dos novos conhecimentos adquiridos e a troca desses conhecimentos, tanto no contexto de uma área de especialização, quanto na comunicação interdisciplinar” (MEDEIROS, 1986, p. 135). Em 1990, o IBICT sediou o 2° Simpósio Latino-Americano de Terminologia e o 1° Encontro Brasileiro de Terminologia Técnico-Científica; em 1995, sua revista, Ciência da Informação, dedicou-lhe um número temático51.
Mas os estudos terminológicos ou terminográficos, apesar de seu alcance internacional (elaboração de um manual da UNESCO (FELBER, 1984) e de normas ISO52), são de cunho principalmente normativo, portanto assumidamente não científicos. Ou, mesmo quando adotam uma abordagem social e sincrônica da diversidade terminológica, como a Socioterminologia, não buscam explicar como as circunstâncias sócio-históricas contribuem para fazerem as normas terminológicas, pressionando a escolha ou criação de um termo e não de outro. Ora, do ponto de vista da DC, fazer entrar uma palavra na categoria da linguagem científica ou técnica, significa indissociavelmente diferenciá-la de algum forma dos usos “comuns”, portanto diferenciá-la socialmente. Muitas vezes, a opacidade de um enunciado científico para um leigo se deve à reutilização, como termo, de um elemento em uso na linguagem “comum” sem modificação morfológica (por exemplo o inglês “mouse” (rato)), ou então, caso oposto, à renomeação de objetos de uso “comum” usando elementos gregos ou latinos, raros na língua comum.

Tratando-se de estudar a DC, que envolve, entre outras dimensões, uma relação de dominação pelo conhecimento, é discutível o uso de trabalhos de cunho normativo, suscetíveis de veicular implicitamente o ponto de vista dominante. Geralmente, esses apresentam-se como necessidades de consenso racionais, econômicas e utilitárias, isentas de pressões extra-técnicas ou extra-científicas. Evitam aprofundar aspectos sociais e históricos que arriscariam trazer à baila tudo que as trocas técnicas, à primeira vista objetivas, práticas e imediatas, também devem a um passado de relações de dominação através do conhecimento, senão da violência. Por mais que o manual da UNESCO fale em “deliberação” na escolha dos termos (FELBER, 1984, p. 83), quem delibera é uma autoridade, como o cientista ou o técnico, não o leigo.

Assim, se quisermos conceituar a DC, precisamos ir além das normas, divisões e partes que ela assume em momentos sócio-históricos particulares. Devemos mergulhar na História, na gênese da relação assimétrica de conhecimento e de suas marcas na linguagem, e retraçar o caminho que leva à instituição das categorias do cientista e do não cientista, e suas respectivas “linguagens”, tais como nos são apresentadas hoje.

Essa gênese, inevitavelmente histórica, não pode ser evidenciada unicamente pela abordagem sincrônica da Sócio-Terminologia e Sócio-Terminografia, embora essas sejam de cunho menos normativo e mais científico que a Terminologia clássica. Contudo, tais estudos poderiam ser valiosos se servissem de partida para recontextualizar a trajetória de uma dada terminologia, desde seu surgimento até sua recusa ou aceitação, imposição, uso e desuso, relacionando-a com a posição social, econômica e política dos atores que a elaboraram ou adotaram versus a dos concorrentes.

A Terminologia e disciplinas afins têm o interesse, para nossa problemática, de estudar uma das componentes da DC, as linguagens especializadas. Tiveram o mérito de reconhecer o pioneirismo de Aristóteles e sua Lógica na elaboração explícita da linguagem e verdade científicas, mas guardam dessa sobretudo as noções estritamente filosóficas de definição e categoria53, excluindo as outras dimensões da retórica mencionadas acima por Bazerman (1998, p. 15), identificadas de forma redutora aos sofistas. Tanto que não achamos nos estudos terminológicos ou terminográficos uma análise sócio-histórica dessas fundações, que esclareça a construção simultânea de sua dupla face, a do cientista mas também a do leigo, indissociáveis e indispensáveis na DC.

A Terminologia concebe geralmente o termo como um objeto de estudo em si e normalizável. Ela considera resolvido e superado o ponto que para nós é nodal: a problemática constante da diferença entre linguagem científica e comum e a decorrente distinção social. Mostramos adiante que a univocidade, princípio aristotélico aceito pela Terminologia clássica, é tida apenas como necessária para determinar a verdade racional em si, quando, de fato, é muito mais que uma norma puramente semântica: traça na sociedade grega antiga uma linha divisória fundamental entre conhecimento racional sagrado e profano. Tal demarcação não pode ser desprezada quando usamos, ainda hoje, a palavra “leigo”.  

Em suma, não recorremos à Terminologia nessa tese senão para mostrar que a diferenciação entre as linguagens científica e leiga depende de pressões ou condições sócio-históricas, além dos já declarados critérios pura ou exclusivamente racionais. As marcas dessas pressões, a prática específica da razão sendo apenas uma entre outras, simbolizam em seu conjunto as diferenças entre cientistas e não cientistas.

A DC abrange – deveria abranger – o conjunto das marcas que simbolizam, no decorrer da História, as diferenças entre cientistas e não cientistas, e cujas faces são geralmente estudadas ou apresentadas separadamente. O desmembramento da retórica como um todo (do qual não poderiam ser isoladas e absolutizadas as regras e normas sintático-semânticas para se expressar corretamente a estrita verdade racional), teria levado a um apagamento da consciência da linguagem na produção da ciência, como escreve Bazerman, que também é, segundo Bourdieu, um apagamento da gênese, tornando inconsciente, naturalizando, absolutizando – ou melhor: sacralizando – a relação histórica de poder pelo conhecimento que ela simboliza.

Achamos, no final, pouca literatura que estuda a linguagem científica com alguma consciência social, no sentido de ser o resultado um mínimo consciente da ação de um ator.

Entre os linguistas, destaca-se a obra de Halliday  “The Language of Science” (2004b). Embora sua abordagem, declaradamente gramatical e restrita à língua inglesa, seja muito menos normativa e particular que parece, a obra de Halliday parece-nos capital. Contudo, sua riqueza e complexidade não permitem que seja usada diretamente em nosso estudo da DC com o devido rigor. Pelo menos não antes de se ter procedido a uma análise histórica da diferença entre linguagem científica e comum, que nos parece ser a via mais segura para nos evitar de cair em um estudo da linguagem por si mesma e por ela mesma, implicitamente naturalizante e normativo, como o fizeram com a langue os seguidores de Saussure, que acaba se tornando incompatível com uma possível teoria da DC.

No que diz respeito especificamente à linguagem da ciência, nos referiremos a essa obra de Halliday através de outra, decisiva para nosso estudo, “The scientific Article from the 17th century to the Present” (GROSS; HARMON; REIDY, 2002), a que já nos referimos acima (cf. 1.1). Esta apresenta um estudo histórico da comunicação científica, em um período tão extenso quanto o de Price (1963), mas, à diferença deste, não busca características invariantes exclusivamente quantitativas “externas” à ciência em si (pelo menos em teoria, pois um método estatístico já não é interno à ciência?), mas também textuais, argumentativos e linguísticos, i.e. em certa medida internos à produção científica. A obra de Gross et al , que tira de Halliday (2004b) parte de suas observações, permite alcançar além da parte da CC na DC, além de mencionar os trabalhos do sociólogo Donald Hayes (1992), que propõem uma abordagem quantitativa das diferenças entre linguagem científica e comum, e por aí um método quantitativo de análise da barreira da linguagem. Usamos diretamente Halliday, em compensação, na parte teórica, pois sua concepção da unidade de sentido baseada na paráfrase permite aplicar critérios comuns à produção de verdade científica e leiga, além de oferecer um método empírico para estudá-los.

Entre os historiadores das ciências, Kuhn parece ter sido um dos primeiros a reconhecer o papel problemático da linguagem (cf. 1.3), relacionando-o com a acumulação do conhecimento, que Bourdieu liga por sua vez ao conceito de Capital Simbólico.

Além de Thomas Kuhn, Maurice Crosland, britânico especialista da ciência francesa no período da Revolução, parece ser um dos raros historiadores das ciências a preocupar-se com a linguagem em específico. Dedica-lhe um livro inteiro, “The Language of Science: From the Vernacular to the Technical” (a linguagem da ciência: do vernacular ao técnico)(2006)54. Reiteradamente, na primeira linha dessa obra e de sua Introdução (2009[2006], p. 7,9), ele lamenta a barreira da linguagem: o “vocabulário especializado”, “esotérico”, tornou-se, na “Modernidade, um dos maiores obstáculos que separa o grande público da ciência.”55 Contudo, sem essa diferenciação, que se deu através da criação de linguagens artificiais, os conhecimentos novos sobre a natureza surgidos no século 18, em particular na Botânica de Lineu e na Química de Lavoisier, não teriam se constituído em ciências (2009[2006], p. 11-13). Segundo ele, foi o “estabelecimento de nomes sistematizados” e de pesos e medidas que permitiu a organização das ciências nesse século (2009[2006], p. 14). Crosland relata, além do mais, um episódio crucial, totalmente ignorado por Meadows (1999[1998]) em seu histórico da CC e na parte dedicada à estruturação da CC 56: o surgimento dos periódicos especializados (2009, p. 54, 60)57. Esse fato comprova nada mais que o papel decisivo da linguagem na organização, mas também na estruturação da Comunicação Científica a partir do século 18. Crosland explica o pouco de interesse pela linguagem da ciência por essa ter se mostrado crucial durante um período histórico da França principalmente conhecido pela Revolução de 1789, e também o Terror em torno da instauração da República de 1792 (2009[2006], p. 14-15). Também vale lembrar que, cerca de um século antes, na Inglaterra de Newton, a ciência simbolizava o triunfo pelo consenso: unificou de vez, com a lei da gravitação universal, o cosmo cindido de Aristóteles. O ano de criação da Royal Society, 1660, coincidira com a restauração da paz e da monarquia de direito divino no país, após um período republicano marcado por um regicídio e guerras civis. Antes disso, a linguagem científica única, una, natural, divina e absolutamente unívoca da ciência de Galileu (conforme o aprofundaremos em nossa análise histórica) tinha vencido a divisão da “dupla verdade” dos escolásticos. Lavoisier, quanto a ele, identificava ciência, pensamento e linguagem científicos a uma revolução (BOURDIEU, 1982, p. 31)(GAUDIN, 2003, p. 23). Nota-se que persiste na atualidade a universalidade da ciência concebida como um consenso social, que paradoxalmente aceita a barreira da linguagem como um mal necessário mas evita questioná-la, como ressaltou claramente a breve análise dos britânicos Meadows (1999) e Ziman (1979[1968], p. 24-25) (cf. 1.1). É como se a ciência, para progredir, exigisse a incompreensão da maioria. Contudo, seria errado atribuir a elução da linguagem às influências históricas e culturais particulares: o francês Bachelard não subentende que a Física, para além de suas divisões atuais, tem uma unidade devida ao uso da mesma linguagem matemática, científica e biologicamente “correta”, não problemática por definição? (cf. 1.4) Assim, a área de origem do historiador também pesaria: tanto Meadows quanto Ziman têm em comum a formação em Física, domínio a que Bachelard, engenheiro e filósofo, aplica sua epistemologia.

Constatamos, assim, quanto as condições ou trajetórias sócio-históricas particulares de países e autores podem influir sobre a definição de um objeto tão universalmente aceito quanto a linguagem da ciência. Sugere quanto pode ser improdutivo, embora cientificamente correto na aparência, analisar a barreira da linguagem aceitando-a como um dado natural, medido a partir de suas únicas evidências empíricas imediatas.

Citemos por fim um livro intitulado “Linguagem científica”, da autoria do filólogo brasileiro Afrânio do Amaral (1976). Esse  confirma a escassez de estudos sobre nosso objeto de interesse, que segundo ele era total em nossa língua quando escrevia:

Desde que da literatura luso-brasileira não consta trabalho algum que trate especialmente da Filologia como ciência e coordenadora de princípios, de leis e de regras a que devem todas as expressões científicas obedecer, a presente monografia foi elaborada qual tentame preliminar destinado a esclarecer, de algum modo, o sentido e aplicabilidade de tais preceitos.(AMARAL, 1976, p. 253)

Não usaremos aqui a obra de Amaral, elaborada segundo o método filológico, mas poderá ser objeto de pesquisas futuras.

Ficam explicadas, pelo menos em parte, as lacunas com as quais nos deparamos. Justificam que tenhamos descartado a tradicional abordagem empírica, pois cabe primeiro produzir um estudo sócio-histórico da chamada barreira da linguagem, através da divisão entre as linguagens científica e comum.

2.7Recapitulação

Nem a DC, nem a linguagem científica, são reivindicadas de forma explícita, plena, particular sistemática e constante por nenhuma área, nem mesmo pela CI. Explicamos e justificamos a inclusão da DC na CI como uma forma específica de CC entendida em um sentido estendido, na esteira de Ramos (1992). Este, além do mais, inscreve a DC no quadro mais amplo da semiótica, abrangendo quaisquer sistemas de signos, em adequação tanto com a heterogeneidade quanto com o amplo foco linguageiro exigidos por nossa abordagem da DC.

A linguagem que virou barreira parece ser, entre os autores de DC, a justificativa central desta, embora de fato pouco problematizada ou explicitada. Os clássicos da CC estrita tratam a DC com uma certa distância, com se fosse uma filha de legitimidade duvidosa. Quanto à linguagem científica, embora a aceitem com tanta naturalidade que poupa apresentações e explicitações, não a relacionam com suas problemáticas centrais, como a explosão e acumulação do conhecimento, ou estruturação da comunicação da ciência. Reconhecem sua importância mas dispensam aprofundá-la. Em todo caso não consideram que a linguagem seja um problema intra-pares dos cientistas (que não possa ser de alguma forma solucionado mecanicamente, cedo ou tarde), mas sim tipicamente extra-pares, e causador da tal insuperável barreira, vista como um mal necessário para o desenvolvimento de um conhecimento racional preciso.

No que diz respeito à história da DC, a problemática da linguagem é considera central pelos autores da área. Esses admitem geralmente que a DC surge durante a revolução heliocêntrica, alias “Revolução científica”, e afirma-se na primeira metade do século 19, com a institucionalização do ensino público de massa. Mas os historiadores Kuhn (2009[1962/1970], p. 41) e Shapin (1990:993) atestam que já na Antiguidade as obras de cunho científico estavam fora do alcance de um auditório dotado de cultura geral, e nem os próprios modernos as teriam destinado a tal público. Tanto que, apenas duas décadas após a publicação dos Principia de Newton com a lei da gravitação universal, a separação entre cientista e leigo claramente estabelecida nos dicionários, inclusive de língua portuguesa: no  Bluteau (1712-1728), o leigo é aquele “não instruído nas ciências”, identificado a uma categoria social, “o povo”, e a uma língua,  o “vulgar”. O amálgama entre tipo de conhecimento, linguagem e categoria social, que permanece atual, já estava consolidado. Na Modernidade, a separação entre linguagem leiga e científica já não era mais vista como uma problemática, e a DC já se apresentava “naturalmente” como uma necessidade e uma tradução. Então, do ponto de vista da linguagem, a DC é mais remota, o que contraria o que dizem os autores da área. Ou será que a problemática da linguagem não pode servir de critério histórico para caracterizar a DC? Haveria uma diferença atemporal, absoluta, entre linguagem leiga e científica? Tal suposição implica que se verifique uma uniformidade e constância total desta última.

Para viabilizar a inclusão a DC na CC via linguagem, é preciso que esta seja no mínimo uma problemática reconhecida em ambas. Kuhn (2009[1962]) torna nossa abordagem factível se, com ele, deixamos de considerar que a Modernidade é uma tábula rasa absoluta, um começo ex-nihilo da ciência (a tal “revolução científica”), mas apenas um de seus períodos históricos particulares. Ele recorta a história da ciência fundando-se justamente em tipos de mudanças de sentido, portanto de linguagem, associados a tipos de acumulação de conhecimento. A ciência faz-se segundo ele na alternância entre o sentido incremental das fases “normais”, e o sentido distorcido 58 (1987, p. 21) das mudanças paradigmáticas, nas fases “revolucionárias”, quando as bases do conhecimento mudam por assim dizer de centro gravitacional, como no advento do heliocentrismo. Ocorreria sempre uma tradução na comunicação intra-pares, que pode inclusive levar à “mudança de paradigma”, que rompe a continuidade da acumulação do conhecimento. Esse tipo de mudança revolucionária provoca uma reação em cadeia que afeta o conjunto das verdades acumuladas e sistemas construídos em torno de uma verdade fundamental, que pode até abalar o conhecimento que legitima o conjunto da ordem social vigente, e por aí atingir os leigos.

A história das ciências de Kuhn permite portanto afirmar que a linguagem também é uma problemática fundamental na comunicação intra-pares, e não exclusivamente extra-pares, como o deixariam supor os autores “clássicos” da CC, e que se observa além da Modernidade. No mais, como as mudanças de sentido marcam alternâncias entre fases mais ou menos acumulativas de conhecimento, bem como o surgimento de novas linguagens científicas e estruturas de comunicação científica, como a linguagem da Química e os periódicos especializados (CROSLAND, 2009[2006]), permitem-nos relacionar a linguagem com as problemáticas tradicionais da CC – a publicação científica – e da CI – a chamada “explosão” da informação.

Temos então todas as condições necessárias para incluir legitimamente a DC na CC via linguagem, através de uma problemática que perpassa ambas, em relação com aquelas já reconhecidas na CI.

Conceber a linguagem científica como uma problemática constante tanto intra-pares quanto extra-pares leva inevitavelmente a mudar o enfoque tradicional, no qual as categorias do cientista e do leigo são apresentadas, mais ou menos implicitamente, como realidades em si. Primeiro, em um eixo que poderíamos chamar de sincrônico, somos conduzidos a  renunciar a uma visão completamente uniforme tanto dos cientistas quanto dos leigos, bem como de suas respectivas linguagens, tornando-as categorias comparáveis por uma problemática comum. Os objetos de estudos tradicionalmente estudados em si, separadamente, passam a sê-lo relativamente uns aos outros: a comunicação estritamente entre cientistas passa a existir em relação à DC, e o mesmo vale para as linguagens científica e comum. No eixo sincrônico, i.e., histórico, somos levados a mudar de escala, e ir além da Modernidade: pensávamos que a DC tinha se constituído em relação à uma ciência una e definitiva, mas ressalta que essa ciência é apenas um período histórico particular, em que o sentido deixa de ser considerado problemático, inclusive por necessidade de união política, em particular na Inglaterra pós-República. Assim, começamos na Modernidade nossa abordagem histórica da DC, sabendo que a linguagem vai nos levar a explorar outros períodos, inclusive remontar à Grécia Antiga, seguindo a pista sugerida por Reis e confirmada por Kuhn e Shapin.

Uma vez que não recortamos mais nossos objetos segundo as divisões comumente aceitas, somos levados a reconstruí-los, ou simplesmente construí-los, quando ainda não o foram, como parece ser o caso da barreira linguagem.

Resta que, se renunciamos a idealizar a unidade ou uniformidade dos cientistas e da linguagem que lhes é atribuída, e que formaria um barreira absoluta, devemos contudo procurar saber se, efetivamente, as concepções de linguagem nas ciências em geral apresenta, além das diferenças, algum ponto em comum, que por sua vez poderá ser aproximado da linguagem comum.

No que diz respeito às ciências experimentais e exatas, a epistemologia de  Bachelard traz elementos para nossa abordagem. Nessa, os objetos não são considerados como dados reais ou verdadeiros em si mas como construções necessariamente problemáticas e discursivas. As “exatas” atuais reforçam portanto a recusa de qualquer preexistência de categorias racionais da realidade física sem linguagem. Mas, se Bachelard questiona a para  Bachelard, a linguagem por sua vez isenta de sua “filosofia do não” a própria linguagem da ciência, excluindo qualquer compromisso com as categorias de conhecimento e linguagem “leigas”. Ele adere a uma concepção na qual a linguagem matemática uma realidade biológica, e por isso não problemática.

A sociolinguística e as ciências sociais permitem estender a recusa de categorias preexistentes ou puras ao conjunto do conhecimento científico Ciência, viabilizando para o conjunto das ciências nossa abordagem da DC pela linguagem.

A sociolinguística comprova que o discurso de todo ator sofre alguma pressão social, refutando a existência efetiva de algum discurso “puramente racional”. O que está em jogo, então, não é alguma pureza discursiva da ciência em si, mas a desigualdade de poder que os diversos grupos têm de exercer pressão sobre o cientista para que este partilhe com eles seu conhecimento, ou também dos maiores ganhos que o cientista pode obter partilhando seu conhecimento com certos grupos em particular. Nem por isso tais pressões sociais exercidas por ou sobre os cientistas são necessariamente irracionais. Podem ser pressões movidas por interesses que não são os da razão propriamente científica, mas de alguma outra razão social (econômica, política...): cientistas podem querer partilhar seu conhecimento com leigos não não porque visam o interesse destes, ou da ciência em si, mas porque buscam estratégica e racionalmente para o grupo dos cientistas algum reconhecimento ou apoio político; os cientistas podem inclusive instrumentalizar sua ciência para chegar a tais fins não predominantemente científicos. Contudo, se nos limitarmos ao enfoque sincrônico, como é geralmente o caso na sociolinguística, não podemos dar conta da dimensão histórica da problemática de acumulação.

Do lado das ciências sociais, o conceito de capital simbólico, associado ao habitus, tal como Bourdieu (1972) o desenvolveu, se apresenta como um caminho viável para integrar as linguagens científicas à atividade simbólica geral da sociedade, sem reduzir a troca de conhecimento ao modelo da economia estritamente monetária ou a atos exclusivamente racionais ou exclusivamente irracionais. Tais reduções levariam inevitavelmente a categorizar a priori o leigo como pobre ou irracional, por natureza ou predestinação, o que, vale salientar tornaria desnecessária, vã e absurda a própria noção de DC. Na perspectiva de Bourdieu, as categorias sociais, portanto as do leigo e do cientista, deixam de ser uma herança cognitiva genética, ou uma vontade divina, para se tornarem uma herança social, resultado de trocas, cujos símbolos em geral são construções dinâmicas, estruturadas no decorrer da história segundo pontos de vista sociais particulares, com suas técnicas e estratégias distintivas de acumulação sóciossimbólica. As classificações e categorizações em geral, bem como os elementos de linguagem que lhe são associados, perdem sua neutralidade imediata e objetiva.

Para além da aptidão linguística genética do humano, seria pela linguagem com suas inevitáveis escolhas e formas particulares, como construção semiótica, seja científica ou leiga, explícita ou implícita, consciente ou inconsciente, que se constroem, classificam, operam, estruturam e desfazem as trocas e seus valores, e por aí todo o processo de transmissão simbólica – rejeição ou aceitação, validação, acumulação e perda de informação, em suma: seleção sempre indissociavelmente social e cognitiva. Daí uma das questões importantes dessa tese: o papel da própria linguagem científica na classificação de valores e seleção simbólica para distinguir, no decorrer da história, cientistas e leigos.

Nosso capítulo de preliminares levou-nos a situar não apenas a DC, mas a CI, em um quadro geral das Ciências Sociais. Entendemos, assim, que as subáreas da CI, como a Arquivologia, a Biblioteconomia e a Documentação participam de uma mesma atividade geral, com todas as lutas de classificação simbólica que isso envolve, já que as categorias sociais e cognitivas – o que inclui o leigo e cientista como portadores de conhecimentos diferentes – não são construções predeterminadas absoluta e geneticamente: a reprodução simbólica da sociedade. Na esteira de Bourdieu, entendemos o conhecimento como um capital simbólico que, ao fim e ao cabo, concorre, ao lado de outras formas de capital (político, social, econômico...), para a caracterização da sociedade humana e perpetuação da espécie como um todo.

Salientemos, por fim, que a linguagem científica – bem como sua relação objetiva com a linguagem comum – tende a ser ocultada pelos cientistas, qualquer que seja sua área, a ponto de parecer um tabu. A prática especificamente linguística do grupo dos cientistas também aparece como sendo a menos historicizada, comparada às cognitivas e sociais. A abordagem mais viável para estudar a DC fazendo aparecer efetivamente a linguagem científica e a comum, com suas diferenças mais ou menos regulares, é portanto sócio-histórica.

Uma vez que situamos, nas grandes linhas, nossa pesquisa, em meio a áreas vastas, diversas, e pouco delimitadas, cabe proceder com mais consistência e clareza à elaboração de nossos objetivos e aprofundamento de nossas pressuposições teóricas.

 

3OBJETIVOS E PRESSUPOSIÇÕES TEÓRICAS

O jornalista Wilson da Costa Bueno, autor da primeira tese no Brasil sobre Divulgação em jornalismo, perguntava, em 1995:

Qual é a linguagem acessível ao grande público? Baseado em que estudos e pesquisas podemos concluir que existe efetivamente uma linguagem acessível a uma clientela tão heterogênea? (BUENO, 1995, p. 1423)59

Quinze anos depois, ele lamenta a ausência de avanços na resposta à sua indagação:

A literatura brasileira em comunicação e divulgação científica não tem contribuído, ao longo do tempo, para o refinamento de alguns conceitos básicos que dão suporte à teoria e à prática nessas áreas.(BUENO, 2010, p. 1-2)

Procuraremos aqui contribuir para preencher a lacuna tanto prática quanto teórica apontada por ele, no que diz respeito à linguagem. Pretendemos formular pressupostos mínimos para se pensar a DC, visando a explicitação da chamada barreira da linguagem, a começar por seus componentes, as linguagens científica e comum. Uma vez fundados em teorias delineadas e explícitas, poderemos formular hipóteses apropriadas para empreender estudos quantitativos dignos de produzirem alguma verdade.

Como vimos no capítulo de questões preliminares, a heterogeneidade das partes implicadas na DC torna complexa sua apreensão. O pesquisador, conduzido a abraçar uma diversidade de conhecimentos, provavelmente com competência desigual, pode facilmente perder a coerência do todo. Por isso começamos esclarecendo e justificando, para cada uma das áreas usadas, os eixos teóricos ou asserções que adotamos, a fim de prevenir eventuais contradições que mais adiante nos levariam a um impasse. Notar-se-á quão pouco a segmentação acadêmica em disciplinas favorece a apreensão da relação entre cientistas e não cientistas.

Segundo o filósofo da Ciência da Informação Rafael Capurro, informação é conhecimento partilhado (1999)60. É geralmente aceito que a partilha do conhecimento científico obedece ao imperativo de explicitação (que por sua vez permite a contestação ou corroboração, e daí em diante), mediante o uso de alguma língua e/ou linguagem particularmente codificada, mesmo na comunicação com os não cientistas. Entre esses últimos, para mostrar que se tem um conhecimento, bastaria falar ou fazer, sem fazer valer regra alguma, quando os outros precisam provar, exteriorizando sistematicamente o conhecimento, demonstrando. Caos, ocultação, uso indiscriminado quando não enganoso, fantasioso ou errado, de qualquer recurso para se chegar ao resultado correto lá, ordem, razão, método, critério e verdade cá, será assim tão simples?

Nossa posição de pesquisador expõe-nos a favorecer o nosso partido que é o dos cientistas, contra o saber do “leigo”, registrando apenas o que for formulado em conformidade com nossos cânones, que também são a forma mais valorizada socialmente do conhecimento. Mas o estudo da DC tem nos ensinado que tomar o partido do grupo dos cientistas contra esse “outro” social chamado “leigo” equivale a ir contra a ciência. Os seguintes propósitos de Capurro e Hjorland, que grifam quão o conceito de informação é modelado a partir do cânone científico, esclarecem nossa escolha teórica geral:

O conhecimento científico é a área clássica em que a criação de uma pré-compreensão comum é um objetivo essencial em si. Não é por acaso se a ciência da informação, desde o início, considerou os processos de manipulação tecnológica ou científica, ou de forma mais geral, o conhecimento de orientação profissional, como seu modelo paradigmático de conhecimento partilhado, i.e., de informação.61 (CAPURRO; HJORLAND, 1999)
Há, contudo, uma contradição entre nossa posição e o uso do termo “pré-compreensão”, pertencente à filosofia de Martin Heidegger. Por um lado, admitimos com Capurro e Hjørland que o conhecimento é, pelo menos em parte, uma “práxis social”62, “constituído pragmaticamente e partilhado socialmente pelos seres humanos, cujo ser é basicamente um “ser(ou estar?)-no-mundo-com-outros””63 (1999). Por outro, não podemos aceitar o “ser(ou estar?)-no-mundo-com-outros” (“being-in-the-world-with-others”) como um estado dado e inacessível ao questionamento, como um existir-no-mundo absolutamente dissociado dos acidentes ou contingências da História (ainda que estar no mundo também possa ser uma condição desta). Tampouco defendemos o oposto: não pensamos que a relação entre os seres, o entendimento e suas condições de existência sócio-históricas sejam deterministas, mas sim probabilísticas. Capurro prossegue afirmando que o “estudo empírico desse fenômeno [“being-in-the-world-with-others”] está no âmago da Ciência da Informação”64 (1999).

As ciências sociais, na qual a CI se inclui e nós mesmos nos situamos, evidenciaram empiricamente que “pré-compreensões” do mundo ou ontologias nunca são isentas de alguma orientação política da época, sociedade e cultura em que foram concebidas, sejam elas contra ou a favor. O próprio conceito de pré-compreensão surge em um certo momento histórico. E quem deixar de refletir sobre o viés das condições sócio-históricas da produção de seu pensamento ou do pensamento que retoma corre o risco de veicular preconceitos implícitos de todo tipo, tanto negativos quanto positivos. Expõe-se ao etnocentrismo, mesmo quando segue à risca um método puramente racional e empírico, conforme o denunciou a Antropologia social, notadamente a de Claude Lévi-Strauss em “Raça e História” (1976[1952]), a qual por sua vez também teria seus vieses, que discutiremos adiante (cf. 2.4.2 e 2.5), da mesma forma que teremos os nossos.

No caso da DC, as consequências do que poderíamos chamar um sócio-centrismo podem ser particularmente agudas. Se não examinarmos antes, como propomos fazê-lo, cuidadosamente, a própria linguagem da ciência, arriscamos perpetuar preconceitos implícitos que essa carrega contra a linguagem dita leiga. Tais vieses podem sub-repticiamente interferir em uma ulterior seleção e análise empírica de dados, levando-nos a legitimar e reproduzir aquilo que a DC deveria mudar: a classificação do não cientista como um ser ignorante a priori.

Nossa posição aproxima-se mais precisamente da do sociólogo Pierre Bourdieu, que se funda em método não apenas empírico mas também reflexivo, para afirmar que as ontologias são não politicamente neutras, fossem elas as de Heidegger65.  A filosofia de Heidegger, ao mesmo tempo que se diz histórica, apagaria as marcas sócio-históricas (no caso políticas, mas também linguísticas66) de suas ontologias. Em nossa perspectiva, a categoria do cientista nem pré-existe e nem é pré-entendida como tal para o não cientista, e vice versa. Ambas foram e seguem sendo construídas, coexistindo em uma mesma sociedade, situando-se e diferenciando-se uma relativamente à outra.
A CI sendo incluída nas Ciências Sociais, parece-nos mais coerente adotar o habitus do cientista social Bourdieu que a “pré-compreensão” da Filosofia. Essa resultaria, de fato, na perspectiva do habitus, de práticas sócio-cognitivas regulares e observáveis, como categorização e operações entre essas categorias, as quais engendram antecipações, “sortes de hipóteses práticas sobre a experiência passada”, que “os cientistas corrigem a cada experiência segundo regras rigorosas”67 (BOURDIEU, 1980, p. 90) – ao contrário dos leigos. Um dos pontos nodais, em nosso estudo, é evidenciar como as linguagens científicas, em relação às demais, influem sobre a antecipação (ou previsão) do sentido, e também sobre a categorização e acumulação do conhecimento – o que ao fim e ao cabo condicionam sua “recuperação”. Para a DC, o habitus apresenta a vantagem notável, em relação à “pré-compreensão” filosófica, de não se restringir ao estudo – ou ao paradigma – de atores ou grupos que praticam um conhecimento especializado e, acima de tudo, minimiza o risco de “pré-categorizar” socialmente os atores segundo especificidades sócio-cognitivas supostamente preexistentes em si para os outros. O habitus fornece-nos perspectivas de análise científica da partilha social do conhecimento, quer se trate de um conhecimento especializado ou não. Aprofundamos nesse capítulo, na seção 2.3, a noção de habitus especificamente linguístico do cientista; e, na seção 2.6.1, discutimos a antecipação ou previsão da compreensão do sentido no caso da comunicação dos sistemas numerais no decorrer da história.

Quanto a adotar a pragmática, como o sugere Capurro, implica aceitar que todo ponto de vista, inclusive o filosófico-científico, está embutido em uma série de pressuposições partilhadas em uma sociedade, associadas às particularidades de alguma prática linguística e período ou momento histórico. Segundo a teoria dos paradigmas do historiador e filósofo das ciências Thomas Kuhn  (2009[1962/1970]), implicitamente adotada na CI por Capurro (1992, p. 84-5), tais pressuposições, no caso dos filósofos e cientistas, são feixes de possíveis práticas e concepções científicas, reconhecidas como tais: possíveis ontologias, axiomas, temas de estudo, programas de pesquisa e verdades científicas.

Sempre vale lembrar o reconhecimento tardio da descoberta das leis da genética por Gregor Mendel (FOUCAULT, 1996[1971]). Ilustra o caso de uma verdade científica capital, que levou décadas para ser reconhecida como tal porque situava-se fora, digamos, do feixe dos “ser-ciência”, ou das “pré-compreensões” de ciência, possíveis em sua época. Portanto, diferentemente de Capurro, para nós, adotar a pragmática implica recusar que a verdade, seja ela científica ou não, possa ser uma categoria pré-existente em si, ou pré-compreendida sem qualquer vínculo com condições sociais de produção e partilha de conhecimento empiricamente observáveis.

Enfim, no que diz respeito à proposta hermenêutica de Capurro e Hjorland na CI, estaria incluída em nossa visão geral: a interpretação de um texto nunca se fundaria exclusivamente na imanência textual, mas estaria sempre relacionada às condições sócio-históricas do intérprete.  Reiteremos que, por outro lado, não consideramos que a interpretação de um texto seja redutível às suas condições sócio-históricas. Essas apenas constituiriam um feixe de interpretações “normalmente” aceitas como tais. Podem surgir novas interpretações, até então impensáveis, mas os pares não as aceitarão ou nem as reconhecerão “automaticamente” (como fazendo parte da ciência “normal” de Kuhn, que pode simplesmente ser somada, sem rupturas, à existente).

Em suma, partimos da posição teórica geral de que não existe teoria científica “pura” ou ciência “pura” ou verdade científica universal “absoluta”, nem, inversamente, conhecimento impuro ou particular a ser a priori descartado como verdade. “Pura” carrega o sentido religioso do que é domínio sagrado por oposição ao profano – esta é coincidentemente a palavra francesa para designar o leigo –, considerando como erros, imperfeições, impurezas ou máculas todas e quaisquer marcas do mortal corpo humano que produz o conhecimento. “Absoluta” carrega o sentido político de totalmente acima de qualquer contradição. Ora, tais critérios religiosos e políticos não devem guiar um estudo que visa a cientificidade. São visões que, no caso da DC, não apenas recusam mas condenam a priori a própria existência e possibilidade de partilha de conhecimento válido com não cientistas. Em última instância, apresentam cientistas e não cientistas como categorias excludentes.

Não poderíamos aceitar que os cientistas, ou os filósofos, pré-existam no mundo como “puras” categorias sócio-cognitivas. Tal pensamento pode ter suas raízes na concepção pitagórica de entidades verdadeiras que existem independentemente dos atores cognoscentes, em que o conhecimento racional é indissociavelmente um processo de purificação espiritual. O que na Grécia Antiga pode ter constituído um avanço da razão pode se tornar hoje um simples preconceito, se for reutilizado tal qual, sem as devidas críticas e sem se considerar os conhecimento atuais, como o nota o filósofo e sociólogo Edgar Morin (1994[1990], p. 146), pensador da complexidade. Como veremos nas seções adiante nesse capítulo, a condição de uma abordagem teórica da DC é que o conhecimento verdadeiro – melhor dizendo: o entendimento, que não reduz o conhecimento a uma operação exclusivamente biológica ou mecânica, predeterminada e objetiva em si – e o social não sejam absolutamente autônomos ou dissociados, e que a linguagem possibilite uma ação sobre a relação entre (filósofo-)cientistas e leigos.

A DC não seria concebível sem uma reflexão crítica da visão implícita de uma sociedade real e fatalmente segmentada – segregada? – entre cientistas e não cientistas, a que são geralmente sobrepostas absoluta e automaticamente as categorias de civilizados educados e bárbaros ignorantes, não raro associadas a características supostamente predeterminadas como os genes, sempre identificadas aos mesmos povos e/ou classes sociais. É contra a crença que esse empilhamento de segmentações é uma realidade monolítica, predeterminada e inquestionável, que a DC deveria, em bases científicas, se justificar. Nem o próprio divulgador deve pressupor que está acima de tal crença. Ele deverá constantemente buscar romper com a certeza de que as categorias linguísticas, sociais e cognitivas existem no mundo definitiva e realmente tais como se apresentam segmentadas a sua percepção imediata, para mostrar como resultam de condições e ações humanas que se efetivaram e construíram, no decorrer da história, a relação social entre as categorias hoje conhecidas como cientistas e leigos.

Tendo explicitado nossa linha teórica geral, passemos às áreas individuais.

3.1Ciência da informação

 Capurro e  Hjorland (1999) advertiram-nos sobre a preponderância das normas do conhecimento científico – que geralmente se confundem com as normas sociais dominantes ou oficiais – , na concepção da informação em geral.

O problema coloca-se de forma aguda quando sabemos que os objetos presentes nos arquivos, bibliotecas e centros de documentação passaram pelo crivo dos critérios de seleção oficiais. Mas qual rastro foi guardado dos objetos recusados, qual é sua história própria? O bibliotecário e historiador do livro Henri-Jean Martin escreveu em 1975 um artigo intitulado “Cultura escrita e cultura oral, cultura erudita e cultura popular na França de Antigo Regime”68 em que discutia a literatura popular à luz dos critérios de seleção das bibliotecas francesas no período que precede a Revolução de 1798. O texto mostra como tudo parece conspirar, nas bibliotecas da época, para tirar o livro popular da categoria de objeto digno de ser conservado e erradicar de vez da história a cultura popular: desde seu conteúdo, considerado sem interesse, redundante, fantasioso ou ultrapassado, até seu suporte, barato, de má qualidade, perecível, passando por seus vendedores, ambulantes, sem destino fixo e local predefinidos. A cultura popular parece estar vencida, condenada a ficar de fora dos meios oficiais de reprodução, antes mesmo de poder lutar. Martin descobre, numa data ainda recente, uma enorme brecha na história da cultura do país da revolução popular, alimentada por critérios de seleção elitistas até então mantidos praticamente implícitos e por isso inquestionáveis. Ele dedicará parte de sua obra à história do livro (1995[1988]). Associou-se a historiadores como Roger Chartier (1992)69, que discutem o conceito de cultura popular, com base no trabalho do sociólogo Jean-Claude Passeron (parceiro de Bourdieu em obras maiores como “Os herdeiros” (1964) e “A reprodução” (1970)).

No que diz respeito à Análise de Domínio, a abraçamos tal como Hjorland a apresenta, em particular em seu artigo “Domain Analysis: A Socio-Cognitive Orientation for Information Science Research” [Análise de Domínio: uma orientação sócio-cognitiva para a pesquisa na Ciência da Informação] (2004), em quase todos os pontos, não fosse o ensinamento de Henri-Jean Martin relatado acima. O paradigma da Análise de Domínios parte da organização social na sua forma especializada, já implicitamente peneirada, aceita, mensurável e validada pelos cânones vigentes. Não arrisca aplicar à organização do conhecimento do leigo o mesmo tipo de seleção socialmente tendenciosa que Martin denunciou na biblioteca? Não seria o conhecimento do leigo aquele que se apresenta numa forma sempre desclassificada pela norma oficial, por ser considerada irregular, desordenada, inverificável, anárquica?

Pelo que nos parece, a Análise de Domínio faz escolhas que podem levar a contradições, embora não sejam em si incompatíveis, como a adoção conjunta dos Estudos do discurso e da Terminologia (Hjørland, 2004, p. 17). Por razões que encontram justificações práticas óbvias, a Terminologia clássica aceita as denominações dos conceitos como dados (dados pelo uso linguístico ou por critérios racionais dos especialistas), sem levar em conta que o uso ou escolha de um nome, mesmo racional, nunca é neutra (cf. 1.6.2). O linguista François Rastier (1995a) aponta o “irenismo” da Terminologia, i.e. crença na paz perpétua. A aceitação social de uma Terminologia como norma linguística, resulta de fato de acordos e lutas, pois pode muito bem ser vivida como uma imposição.

A atribuição de uma vinculação permanente conceito – termo, a qual é necessária para a comunicação, é dada pelo uso linguístico ou estabelecido deliberadamente por um ato voluntário de indivíduos ou especialistas de comissões terminológicas.70 (FELBER, 1984, p. 83)

Mas a deliberação, ainda que passe pela razão, não apaga a dimensão sócio-histórica da atribuição do termo. Como o assinala a especialista da DC Bernadette Bensaude-Vincent em seu livro “Chemistry: The Impure Science” (Química: a ciência impura)(2008), a emergência da “língua da ciência” na França do século da Revolução também foi a ocasião de um rebatismo dos objetos de conhecimento, que suprimiu as denominações ditas populares, inclusive aquelas denominações em línguas não oficiais (outras que o francês, que é a língua da região da capital, Paris):

Antes das reformas do Método de Nomenclatura da Química [introduzidas em 1787 por Guyton de Morveau, Lavoisier, Berthollet e Fourcroy], muitos componentes e até elementos possuíam nomes comuns ou vernaculares que evocavam seu uso na farmácia ou outras artes químicas. Assim, por exemplo, “Sal laxante inglês” virou depois da reforma sulfato de magnésio, e “Soda hispânica, cujo nome evocava sua origem, foi substituído pelo termo genérico carbonato de sódio.71 (BENSAUDE-VINCENT; SIMON, 2008, p. 204-205)

No que diz respeito à linguagem, o paradigma dito sócio-cognitivo suscita ressalvas análogas às que emitimos sobre a adoção por Capurro da pré-compreensão (sem as conotações possivelmente associadas ao período histórico em que atuou Heidegger). Podemos aceitar que o conceito exista como faculdade cognitiva, e até mesmo genética, biológica, mas o Termo não pré-existe como tal em sua totalidade, totalidade que inclui a face perceptual – percepção visual na comunicação escrita ou auditiva na comunicação oral –, sem a qual ele não pode ser comunicado ou “trocado” entre pares. Que se admita ou não a teoria do conceito, pelo menos um dos constituintes do termo, a denominação, depende da percepção, e é inevitavelmente selecionada, comunicada e atualizada dentro de condições sócio-históricas particulares, que revelam uma posição social relativamente ao uso e conhecimento teórico (ou não) do referente.

O emprego de uma denominação e não de outra (usar “sal laxante inglês” em vez de “sulfato de magnésio”) pode não afetar internamente a estrutura do conhecimento do emissor, mas pode modificar a categoria social associada ao mesmo emissor pelo receptor da mensagem. A classificação social pode por sua vez influir no grau de legitimidade atribuído ao emissor e fazer com que, no final, o conteúdo da mensagem seja aceito ou rejeitado pelo receptor, a despeito de seu valor de verdade. A partilha efetiva de um conhecimento – e sua acumulação –  entre locutores não depende exclusivamente da verdade contida na mensagem, mas também da aceitação social do emissor pelo receptor. Em suma, na transmissão do conhecimento, o pertencimento social pode prevalecer, como critério de seleção/rejeição da mensagem como um todo, sobre a verdade racional.

Se, na comunicação entre pares, a prevalência do social sobre o racional pode ser legitimamente condenada, torna-se um problema na comunicação de DC, quando envolve interlocutores de pertencimentos sociais diferentes, possivelmente em situação de conflito e/ou de marcada desigualdade. Assim, a língua da Química, por se referir a entidades invisíveis para os revolucionários e concebidas por um rico representante oficial do Antigo Regime, custou à Lavoisier nada menos que a vida.

No que diz respeito, enfim, a tomar distâncias em relação a “um anti-realismo ontológico no (em certas formas de) construtivismo social”72 (2004, p. 20), concordamos com Hjørland, se for entender por aí que o absolutismo sociológico, que postula um determinismo social absoluto, não é mais sustentável que o realismo absolutista do chamado realismo platonista puro. A existência social é indissociavelmente ligada, entre outras, à cognição e à linguagem.

Tendo assumido essa pressuposição, as classificações, por serem construções sócio-históricas,  não preexistem às formas particulares de organização de cada sociedade com seus respectivos problemas de transmissão simbólica. No plano do sentido, portanto da comunicação da verdade, isso implica que uma abordagem semântica sempre seja também sócio-semântica, e que o sentido –bem como seu recorte em palavras, como o afirmamos na seção seguinte – nunca é dado, mas resultado de negociações, acordos e lutas que se desenrolam na história. Como escreveu Bourdieu (1975) supracitado, as ontologias não podem ser aceitas pelo cientista social como dadas, porque são sempre também políticas – embora possam ser objetiváveis a posteriori pela ciência social.

Para que possamos adotar sem ambiguidade o paradigma sócio-cognitivo, é preciso levar às últimas consequências a dimensão social da cognição, com a particularização que ela implica inevitavelmente para a circulação e estruturação do conhecimento. Particularização que sempre exige uma objetivação tratando-se de produzir conhecimento científico. Haveria algum momento na história do conhecimento científico, em que tal partilha entre cognição e social foi encetada mas permaneceu indecisa. Seria, como aprofundaremos adiante, quando Aristóteles conceitua a verdade como o que é dito, i.e. como ato físico, mas, no que diz respeito ao conteúdo filosófico verdadeiro, conserva do ideal platônico as essências eternas, que existem independentemente de tudo, inclusive acima da realidade social com suas lutas – seu agon –  entre sujeitos falantes embora não plenamente cognoscentes. Aristóteles perpetua uma partilha absoluta, de tipo religioso, entre o ato físico da fala (de ordem humana: mortal, profana, terrestre, corrupta, lei humana, estrutura social, desempenho (i.e. performance chomskiana), forma, percepção, corpo, concretude, cópia) e o conteúdo verdadeiro (de ordem divina: eterna, sagrada, celestial, pura, lei natural, estrutura cognitiva/linguística, competência, sentido puro da Lógica, categoria “clássica” aristotélica, alma, abstração, geração infinita). É nessa virada que situamos o primórdio da linguagem científica, mas unicamente se aceitarmos que o propósito da ciência é recusar racionalmente tal partilha como se fosse absolutamente dada, predeterminada, pré-categorizada, estática, procurando sempre contradizê-la, historicizá-la, humanizá-la. A ciência sempre visaria aumentar, na forma de capital simbólico, a parcela do humano em relação à do inalcançado ou inalcançável, qual seja (o desconhecido, Deus, o inconsciente...) Diríamos que a informação acontece quando percebemos e entendemos que essa linha de partilha se move.73

Quanto à CI  romper com categorias linguísticas dadas, características das linguagens formais, como o  veremos, Hjørland e Bourdieu concordam:

Uma consequência prática desse paradigma [sócio-epistemológico de Hjorland chamado “domain analysis” no qual o estudo de campos cognitivos está em relação direta com comunidades discursivas] é o abandono da busca de uma linguagem ideal para representar o conhecimento ou de um algoritmo ideal para modelar a recuperação da informação a que aspiram o paradigma físico e o cognitivo. (CAPURRO, 2003)

[…] há sem dúvida que renunciar, com Wittgenstein, a buscar algo como uma linguagem de todas as linguagens.74 (BOURDIEU, 1997, p. 142-143)

Lembremos que o conceito de “comunidade de discurso”, atribuído entre outros a Kuhn (1999[1962-1970]) por  John Swalles (1990, p. 9), foi sistematizado pela Análise de Gêneros Textuais, inclusive análise do gênero científico, por certos autores pioneiros citados nessa pesquisa: Bazerman e Swalles (ambos são citados em (HJORLAND, 2002, p. 438)). Observemos que o sociolinguista Labov usa “comunidade de fala” (CAMACHO, 2013, p. 81). Bourdieu recusa “comunidade linguística” pelos mesmos motivos que  “comunidade científica” (BOURDIEU, 1997, p. 66) : “Apenas descreve os múltiplos usos da linguagem na nossa única comunidade linguística (e não comunidades sócio-cognitivas em concorrência)” (BOURDIEU, 2004[2001], p. 113).

Mencionemos, por fim, teorias de destaque na CI como a do Conceito, de Ingetraut Dahlberg (1979[1972]), ou a do Agir Comunicativo, de Jürgen Habermas75. O fato de não levarem em conta a problemática comunicacional tal como se coloca aqui, inevitável na DC, explica que não as tenhamos adotado. Pressupomos que a estrutura conceitual resulta em parte das pressões sociais, embora, vale repetir, não concordamos que estas a predeterminem. No que diz respeito à abordagem do conhecimento em áreas especializadas, em particular acadêmicas, remetemos a Rosali Fernandez de Souza (2004).

Tendo dito isso, a CI está presente em toda a pesquisa, através de autores clássicos como Tefko Saracevic, Bertram Brookes, John Ziman ou John D. de Solla Price, para citar apenas esses.

3.2Discurso

Na perspectiva da reprodução simbólica da sociedade e da acumulação do conhecimento não podemos conceber as frases como isoladas umas das outras, ou fora de suas condições sócio-históricas de produção e interpretação, mas como encadeamentos que se produzem no espaço e no tempo. Por isso devemos nos situar, de partida, no nível do discurso.

No que diz respeito ao Discurso, aceitamos, com Sophie Moirand, estudiosa da Divulgação, o Dialogismo do Círculo de Bakhtin:

[…] o “dialogismo”, conceito emprestado pela análise de discurso ao Círculo de Bakhtine, e que se refere às relações que todo enunciado mantém tanto com os enunciados anteriormente produzidos quanto com aqueles que os destinatários poderiam produzir, tornou-se, para mim, uma noção operatória que se impõe na análise dos discursos sobre a ciência.

Para Mikhaïl Bakhtin e V. N. Volochinov, « o diálogo – troca de palavras – é a forma mais natural da linguagem. Mais ainda: os enunciados longamente desenvolvidos, embora emanem de um único interlocutor – por exemplo: o discurso de um orador, a aula de um professor, o monólogo de um ator, as reflexões em voz alta de um homem só – são monológicas apenas em sua forma externa, mas, por sua estrutura semântica e estilística, são de fato essencialmente dialógicos » (Volochinov 1981, p. 292). Assim compreendida, « a orientação dialógica é, obviamente, um fenômeno característico de todo discurso [...].76 (MOIRAND, 2004, p. 80)

Embora tal conceituação do Dialogismo abranja toda a gama de gêneros textuais que precisaremos analisar, não é suficientemente específica para o propósito de nossa pesquisa. Interessa-nos saber em particular como a relação da verdade – bem como a acumulação de conhecimento, ponto que consideramos decisivo – entre enunciados passados e presentes, é afetada pelo fato de o diálogo envolver cientistas e não cientistas. Queremos poder explicar como se acrescenta, se perde ou se conserva a verdade científica, de um enunciado para o outro, nos diálogos entre cientistas e não cientistas.

Nossa posição está em fase com a definição de Price do modo de acumulação na CC que, segundo ele, se manifesta nas citações (1963, p. 64-65). Essas podem ser assimiladas a uma relação explícita com enunciados e textos anteriormente produzidos e, a esse título, legitimamente abordadas no quadro do Dialogismo.

Eis o que nos parece ser o ponto principal de interseção entre CI em geral e Análise de Discurso: a acumulação do conhecimento através do discurso.

3.3Verdade a priori vs. científica: proposição, sistema, tradução, “ator-rede” e habitus linguístico

A passagem da proposição autônoma para o sistema de proposições encontra-se no âmago da problemática da análise da verdade e da chamada teoria da tradução.

Examinamos aqui duas concepções filosóficas de análise da verdade com base nas aulas que o filósofo Jacques Bouveresse (2102)77 ministrou em 2007-2008 no Collège de France, sobre a noção de sistema filosófico na obra de Jules Vuillemin78.

A primeira concebe “a proposição como unidade de significação completa e autônoma” (BOUVERESSE, 2012, aula 20, §10).

Na segunda, chamada holista, a unidade de estabelecimento da verdade é o sistema (2012, aula 20, §19). Nessa, as proposições só podem constituir verdades como parte de um sistema em que estão todas em relação umas com as outras; não se pode comparar proposições isoladas mas apenas sistemas.

Se cada sistema filosófico-científico se caracteriza por ontologias ou axiomas distintos, então uma proposição verdadeira em um sistema não pode ter um valor de verdade idêntico em outro (VUILLEMIN, 1986, p. 100-101). Essa pressuposição implica que os sistemas filosóficos sejam incomensuráveis, i.e.: contêm valores impossíveis de serem convertidos entre si sem perda do sentido estritamente verdadeiro de suas proposições. Se não há conversão estrita do valor de verdade entre sistemas, então entende-se que há tradução.

A noção de incomensurabilidade é indissociável de uma certa concepção da linguagem filosófico-científica. Os símbolos dos sistemas formais devem ser bi-unívocos, i.e. possuir um único sentido dentro de um mesmo sistema (assim definimos a biunivocidade, o que exclui qualquer biunivocidade absoluta, extensível a todo e qualquer sistema). Kuhn relaciona incomensurabilidade e linguagem: “[…] hoje acho que é tudo linguagem e associo o termo [incomensurabilidade] à mudança de valores. Ora, valores são adquiridos com a linguagem.” (KUHN, 2003, p. 359)

Seus paradigmas baseiam-se na Teoria da Tradução de Quine79 para descrever os elementos que se conservam durante a passagem de um sistema científico para outro, como “planeta”, que sobreviveu à mudança “revolucionária” do sistema ptolemaico para o copernicano:

Quando mudanças de referente dessa sorte acompanham uma mudança de lei ou de teoria, o desenvolvimento científico não pode ser exatamente cumulativo. Do antigo não se se pode obter o novo simplesmente adicionando-o àquilo que é conhecido. Tampouco se pode descrever corretamente o novo com o vocabulário antigo ou vice-versa. Considere a frase composta: "No sistema ptolemaico, os planetas do sistema revolvem em torno da terra; no sistema coperniciano, os planetas revolvem em torno do sol." Estritamente construída, esta frase é incoerente. A primeira ocorrência do termo "planeta" é ptolemaica, a segunda, coperniciana,  uma e outra sendo ligadas à natureza de forma diferente. A frase composta não é verdadeira para nenhuma leitura unívoca do termoplaneta.

Nenhum exemplo tão simplificado pode sugerir melhor aquilo que se encontra envolvido na mudança revolucionária.80 (KUHN, 1987, p. 8)

Se reduzimos a razão à sua expressão formal, biunívoca, e concebemos os sistemas formais como construções racionais incomensuráveis, então com qual linguagem se pode passar de um sistema para outro sem quebrar a continuidade racional – sem cair na irracionalidade? Nessa concepção, como se pode justificar racionalmente a escolha de um e não de outro sistema? E como considerar as proposições que não são verificáveis nem refutáveis em um sistema? Não são nem verdadeiras nem falsas? Ou são ao mesmo tempo verdadeiras e falsas, quebrando a regra de não contradição, fundamental na lógica clássica?

Os filósofos e matemáticos da primeira metade do século 20 se empenharam em solucionar esse problema, em particular o Círculo de Viena, confiante em sua “Nova lógica”.

Dentre as conclusões mais definitivas sobre o problema estão aquelas a que o matemático e filósofo Kurt Gödel chegou nos anos 1930. É uma questão considerada eminentemente técnica que o filósofo Jacques Bouveresse (1998) consegue tornar relativamente acessível. Gödel demonstrou a existência de um sistema formal do qual se pode demonstrar que todas suas hipóteses são ou verdadeiras ou falsas (condição chamada “completude”): os sistemas hipotético-dedutivos chamados “cálculo de predicados de 1ª ordem”. Levou adiante sua tentativa de reduzir a totalidade da Matemática à verificação pela Lógica, mas não achou nenhum outro caso de completude além do “cálculo de predicados”. Daí seu teorema da incompletude:

[a incompletude] significa simplesmente que, para todo sistema formal dado, existe no mínimo uma verdade matemática para a qual o sistema não fornece demonstração (e tampouco refutação...) (BOUVERESSE, 1998)81

Mesmo se a “verdade matemática” que não é provada de dentro de um sistema pode ser provada em outro, a incompletude obriga a sair do sistema, e também a sair da razão “pura” para entrar no empirismo linguístico, i.e. na dimensão social. (Nota-se que Bouveresse escreve “verdade matemática”, que repousa em signos que são convenções sociais, por oposição à verdade lógica, única a permitir uma unidade e universalidade além das particularidades sociais.)

O que estava em jogo, numa lógica (i.e. um método de verificação) que pudesse se aplicar a todos os ramos do conhecimento racional, era a unidade da ciência, e de toda verdade científica:

[…] com o auxílio da nova lógica, a análise lógica conduz a uma ciência unificada. Não há ciências diferentes com métodos fundamentalmente diferentes ou fontes de conhecimento diferentes, mas apenas uma ciência. Todo o conhecimento tem lugar nessa ciência e é, de fato, um conhecimento basicamente do mesmo tipo; a aparência das diferenças fundamentais entre as ciências são o resultado enganoso de usarmos diferentes sub-linguagens para expressá-los. 82(CARNAP, 1959[1930], p. 144)
A seguir a demonstração da incompletude por Gödel, os logicistas do Círculo de Viena, entre os quais CARNAP se incluía, tiveram que admitir que o projeto nem se aplicava à totalidade da matemática, considerada a mais pura expressão da racionalidade. Parte da linguagem da ciência, a matemática, não se dobrava a um método de verificação unificado a priori, e nem à mecanização de seus enunciados (o que é capital na era da computação digital): “Houve um momento em que se acreditou (erradamente) na possibilidade que existe um procedimento de decisão formal ou “mecânica” para os enunciados matemáticos.”83 (BOUVERESSE, 1998 , sem paginação)

Tendo em vista que as conclusões de Gödel se mantêm na atualidade, podemos afirmar que a comunicação da ciência passa por uma prática da linguagem que só é muito parcialmente redutível ao que alguns ainda convêm chamar de pura teoria. Quine considera a tradução como a propriedade comum dos sistemas formais, a ponto de questionar a própria noção de verdade. O impasse da lógica puramente formal condenaria a verdade científica a cair no total empirismo, relativismo e caos?

[…] a filosofia e a ontologia de Quine também têm o que poderíamos chamar seu princípio de continuidade. Quine não acredita numa diferença de natureza mas apenas de grau entre as verdades de essência e as verdades de experiência, entre as verdades a priori e as verdades a posteriori, ou entre as verdades analíticas e as verdades sintéticas. Não acredita que seja possível distinguir realmente, naquilo que torna verdadeiro um enunciado, a contribuição devida à linguagem e a contribuição devida à realidade; e recusa, em seu princípio, de tratar as proposições lógico-matemáticas como proposições verdadeiras em virtude da linguagem apenas, e, por conseguinte, independentes da experiência. Todas as proposições, inclusive aquelas da matemática, estão, de forma  simplesmente mais ou menos longínqua e indireta, em contato com a experiência e suscetíveis de serem confrontadas com esta. (BOUVERESSE, 2012, aula 20, §9)84

Como sustentar uma ciência cujo cânone é a verdade a priori e total do cálculo de predicados, quando a completude aplica-se a esse caso apenas (além disso, não há como negar que a compreensão dos símbolos usados para expor e demonstrar o cálculo dos predicados requer inevitavelmente um aprendizado, o qual passa pelo social)?

Diversos aspectos do problema de adotar o cálculo de predicados como modelo absoluto da ciência quando é, de fato, a exceção, são retraçados pelo linguista cognitivista George Lakoff (1987). Baseado em estudos científicos empíricos85 e nos “ares de família” procedentes da crítica do filósofo Wittgenstein ao positivismo lógico, ele começa refutando a categoria aristotélica, pilastra do cálculo de predicados, e desenvolve uma teoria da metáfora que estende ao domínio cognitivo da categorização (Lakoff parece contudo enveredar para um cognitivismo que esquece a si próprio como uma construção sócio-histórica).

Entre, por um lado a limitação do significado a priori dos sistemas formais, e por outro o empirismo da não-verdade da Tradução de Quine, a verdade filosófico-científica parece ter caído num impasse.

Na visão do significado a priori, a origem da razão é situada fora do âmbito social. Em Quine, renunciar à verdade a priori equivale a sair da razão e talvez até da filosofia. Estar em permanência sob a influência do empirismo identificado ao social implica, para ele, que não haja verdade. Em suma, considera que o social é irracional e vice-versa. Nem por isso Quine passa a tratar a própria razão como uma construção sócio-histórica onde teoria, prática e verdade nunca são dadas como estados puros, absolutos, atemporais.

A teoria do Ator-rede, do economista Callon e do antropólogo Latour, propõe uma solução para a transpor o fosso entre a teoria a priori e a observação empírica, através de proposições intermediárias que “traduzem” os enunciados teóricos em enunciados de ciência prática e vice-versa.

É geralmente reconhecido que é impossível (ao contrário do que pretendiam certos membros do Círculo de Viena), passar de um tipo de enunciado ao outro pelo único recurso à lógica [GRUMBAUM, Adolf; SALMON, W ; 1988. The limitations of deductivism , Berkeley, University of California Press.]: os termos teóricos não podem ser reduzidos a termos observáveis. Qualquer que seja a estratégia selecionada, conduz à criação de uma terceira família de enunciados intermediários que associam certos termos dos enunciados observacionais a certos termos dos enunciados teórico: agem, por conseguinte, como operadores de tradução. (CALLON, 2006[1995], p. 205).86
Vale notar que a teoria do Ator-rede contém uma concepção implícita da linguagem científica: supõe que os enunciados teóricos e observacionais possam sempre ser distinguidos e dissociados uns dos outros. Essa posição evoca-nos a relutância de Valérie Delavigne87 já citada, em adotar a oposição por gênero discursivo entre CC, primário, e DC, secundário, porque sua fronteira nem sempre poderia ser claramente estabelecida. A teoria do ator-rede supõe que teoria e prática situam-se em planos realmente  distintos, perpetuando uma posição filosófica que estabelece uma separação absoluta entre teoria e prática. Ela parte do pressuposto que a verdade teórica permanece externa ao social, como vimos com Quine e as consequências para a verdade. Aconteceria nesse ponto uma ruptura inconciliável entre verdade absolutamente a priori e ciência.

Argumentamos a favor da crítica de Bourdieu segundo a qual Callon e Latour, por não concluírem a ruptura com a verdade absolutamente a priori e todas as consequências que isso implica, caem em contradição.

Renunciar a uma concepção de verdade a priori externa e estanque ao social não significaria renunciar à verdade científica, muito pelo contrário. Do ponto de vista da Sociologia, seria até uma condição sine qua non da própria existência desse tipo de verdade. Como as ciências sociais poderiam afirmar qualquer verdade científica se situarem a verdade racional fora do social? E onde se situaria, nisso, o cientista, entendido como o ator social que enuncia, ou partilha com cientistas ou não, a verdade científica? Dentro ou fora da sociedade?

A verdade científica sempre implica no mínimo o aprendizado e prática de uma linguagem para comunicar verdades e, como o vimos com Gödel, a de uma linguagem irredutível em sua totalidade à teoria – em todo caso não redutível a uma teoria única fundada em verdade absolutamente a priori.

Se assim for, devemos renunciar a conceber a razão científica fora da prática no mínimo da linguagem.

Se admitimos que as condições para se comunicar a verdade científica implicam o social e a aquisição de uma língua particular, então temos que situar a verdade e a razão científicas dentro do social. Se a verdade e a razão científicas não são a priori, e situam-se no social, então são inevitavelmente construções sociais. Se admitimos que a sociedade não é uma estrutura absolutamente imóvel ao longo do tempo, então a verdade e a razão científicas são construções sócio-históricas (que não são absolutas pois dependem de um corpo e aptidões biológicas situados em um ambiente físico com suas restrições). Se são construções sócio-históricas, então são, em parte pelo menos, o resultado de uma acumulação.

A partir daí, como partir do pressuposto que existe uma diferença clara, dada, preexistente, absolutamente universal, ou até mesmo natural, entre termos teóricos e termos observacionais? Por isso perguntamos: não pressupõe o Ator-rede uma teoria implícita da linguagem científica, e essa teoria, cuja explicitação esboçamos brevemente aqui, verifica-se?

Em última instância, o fim do sentido a priori priva os cientistas da justificativa para conceberem a si próprios como completamente separados da sociedade ou externos a essa. Cientistas e leigos coexistem, mesclados, numa mesma sociedade.

Cientistas e leigos são indissociavelmente unidos pela prática de uma linguagem irredutível à teoria, permeada por valores sociais outros que a pura verdade. A verdade científica requer em suma um aprendizado e uso práticos da linguagem prévios, ou seja, requer no mínimo um conhecimento “leigo” da linguagem.

Em paralelo à verdade a priori, há uma concepção do cientista desinteressado88 dos eventuais benefícios visíveis do jogo social e por isso sempre disposto a ajudar o leigo. Bourdieu opõe ao desinteresse do cientista à noção de economia simbólica.

No que diz repeito à linguagem, como é possível que esta participe ativamente da acumulação de conhecimento – inclusive conhecimento de si própria –, i.e. do enriquecimento simbólico do cientista, se continua sendo concebida a priori, mesmo na prática científica?

A noção de economia simbólica parece-nos capital: permite considerar a DC como uma relação social fundada em interesses comuns e recíprocos (embora não necessariamente aviltantes), não apenas como um puro ato unilateral de caridade simbólica por parte do cientista.

O a priori é o nó górdio da história, tanto entre leigos e cientistas quanto entre os próprios cientistas. É aquilo que esvazia a problemática da comunicação do conhecimento, isolando as dimensões cognitiva, social e linguística, confinando-as a divisões acadêmicas estanques, impedindo que se mostre seu vínculo histórico sob o pretexto de cair na absoluta irracionalidade, seja crença ou ideologia, e/ou nos vis interesses do jogo social. É aquilo que, de certa forma, impede que as subdivisões acadêmicas menos prestigiadas maculem, profanem com o contato de uma linguagem não puramente interna e abstrata, mas corporal e por aí impura, o conhecimento daquelas mais elevadas. Vale lembrar que, antes do evolucionismo, as espécies não eram concebidas como variações, mas criações divinas ex-nihilo, categorias isoladas, estanques e absolutas, sem a mínima relação uma com a outra.

Publicamos no livro  “Linguagens em contexto” (2014, p. 11-48) um capítulo que trata do problema da expressão da verdade científica e da razão, entre cientistas, na ótica econômica de Bourdieu, confrontada, inclusive, ao ator-rede de Callon e de seu parceiro Latour. Seguem alguns trecho desse capítulo.

Distintiva da comunicação entre cientistas, a linguagem científica, que une na prática comunicacional razão e linguagem formais, seria uma variação indissociável de seu homólogo “comum”. A esse título, pode ser objeto de estudo da sociolinguística, que mostra que as variações linguísticas são racionalmente compreensíveis como regularidades correlacionadas às variações de pertencimento ou situação social. A sociolinguística mostra, além do mais, que todo discurso sofre algum grau de pressão social, i.e. de “monitoramento” (LABOV, 2010, p. 373), fornecendo a prova empírica que nunca seria efetivamente “puro” (ou puramente “proposicional”, nos termos do sociolinguista) […]. Podem ser observados indícios de pressões sociais exógenas no discurso científico, abrindo o caminho para métodos de análise e talvez medição empírica da autonomia efetiva de cada disciplina que compõe a ciência.

Segundo Latour, “importa apenas o enunciado novo” (2001, p. 41). De fato, não deveria haver verdade científica que não tenha sido nova. Mas como afirmar se um enunciado é novo, sem aderir às regras da ciência, i.e. sem buscar traduzir ao máximo o sistema de linguagem e razão comuns, em sistema de linguagem e razão formais, condição linguística da determinação e comunicação da verdade racional especificamente científica? Teria algum sentido falar em pesquisa, sem a possibilidade de justificar ou provar (inclusive no sentido jurídico, em caso de conflito de propriedade intelectual) a descoberta ou inovação? Esse ponto parece-nos ilustrar de forma exemplar o impasse do relativismo absoluto. “Latour e Woolgar decidem colocar-se no ponto de vista de um observador que vê o que se passa no laboratório sem aderir aos pressupostos dos [pesquisadores].” (BOURDIEU, 2004[2001], p. 44). Com sua sociologia reflexiva, que objetiva, de dentro do campo científico, tanto o observado quanto a posição social do observador, a teoria de Bourdieu aponta uma direção para solucionar a aporia da objetividade do conhecimento.” (MERIGOUX, 2014, p. 38)

Por mais que se a possa considerar irracional (ou menos racional) e contaminadora da pureza do conjunto da ciência, a linguagem não puramente científica ou da ciência prática, quando usada pelos cientistas, não deixaria de poder ser concebida de “dentro” da ciência.

Para discutir esse ponto, embasamo-nos no Capital Simbólico e na Economia de Trocas Linguísticas tal como os entende Bourdieu (1982), contrapondo-os ao “capitalismo científico” de Latour. Este afirma que a “operação de base [do capitalismo científico] consiste da conversão de uma forma de crédito [crédito-científico] em outro [crédito-dinheiro].” (LATOUR, 2001, p. 37). Mas qualificar literalmente de capitalismo a economia em geral, seja a da ciência, seja a do dinheiro, não implica a regência direta de qualquer economia simbólica, pela regra do dinheiro? Isso não apagaria de fato a diferença entre uma e outra economia, esvaziando a própria necessidade de conversão89 de crédito? Latour escreve que “[n]o mundo bárbaro do capitalismo científico, […] importa apenas o enunciado novo”. (2001, p. 41) Se o novo é um enunciado, então pertence, antes de mais nada, à ordem linguística, e em parte pelo menos à “linguagem comum”, porque o enunciado nunca prescinde dessa por mais lógico que seja. Ora, o que caracteriza as línguas, em particular a língua dita “comum” ou “natural”, é que seu recorte em palavras nunca corresponde a priori ao recorte semântico (HALLIDAY, 2004, p. 83-84). As línguas diferem nesse ponto das chamadas linguagens formais ou matemáticas. Nestas, o recorte entre unidade formal (palavra) corresponde ao sentido, em virtude da chamada regra da univocidade (uma palavra, um sentido). O recorte é regular, sistemático, usa classes finitas de signos, daí o sentido torna-se previsível (i.e. redutível a política e ao management). Tal semântica adequa-se, aliás, à expressão da quantidade com o máximo de precisão (para evitar mal-entendidos, notemos que o sentido (bi-)unívoco de uma unidade de linguagem formal não existe isoladamente ou fora de algum uso: só vale, geralmente, em rigor, dentro do contexto da comunicação de sistemas de verdades formais entre cientistas – é sempre possível desviá-lo para outros fins, por exemplo trocadilhos humorísticos).

Se a transição entre a lógica (que determina a verdade do enunciado) e a matemática (que expressa no enunciado a relação quantitativa entre o conceito e sua propriedade) não pode prescindir da língua “natural”, então sempre há uma parte da comunicação do conhecimento científico em que o recorte entre unidade e sentido nunca é automático. Grifemos que o fato de esse recorte não ser absolutamente automático ou mecânico, não implica que seja irracional.

[…]

O interesse do habitus científico de Bourdieu é que permite conceituar o pesquisador não porque usaria linguagem e razão puras, mas porque usa criativamente a linguagem e razão comuns na perspectiva de sua máxima formalização, assumindo que é a forma característica e a mais valorizada social e universalmente entre cientistas (por mais que a riqueza econômica também possa ser valorizada entre pares, tal critério não seria distintivo dos cientistas: pode valer para qualquer grupo social). A prioridade dada pelo cientista à formalização e/ou à teoria visaria simultaneamente o lucro simbólico, interesse que seria de ordem da razão estratégica e prática, e a verdade racional. Visto assim, o fato de o cientista sempre depender da linguagem e razão comuns, como qualquer ator de qualquer grupo social, não desqualifica a ciência.

Em suma, seria a o uso incontornável da linguagem “comum” conjuntamente com as linguagens formais e/ou matemáticas, guiado por uma razão social prática, que implicaria sempre, não a simples conversão, mas a criação, pela tradução entre duas formas de economia: economia de trocas simbólicas geral (uma forma não corresponde a priori a um sentido) e economia [assimilável à] “monetária” (unívoca, correspondência sempre previsível entre forma sentido). A linguagem científica, como economia de trocas linguísticas, usa ambas.

A descoberta e a inovação, verdades imprevisíveis, não podem ser formuladas total, direta e automaticamente em linguagem formal ou matemática; mas sempre usarão ao máximo essa linguagem para expressar o novo, orientadas pelo habitus científico. O capital científico sempre apresentaria uma parte irredutível de economia de trocas, que impede de confundi-lo com uma economia puramente monetária. A criação de um valor de verdade racional não pode ser predeterminada por um valor puramente econômico existente. A verdade científica, novidade enraizada no habitus científico, nunca seria uma verdade (teórica ou prática) pura ou total.

Tal abordagem ofereceria um fundamento sólido para afirmar a diferença da ciência, portanto a autonomia dessa em relação à economia [estritamente] monetária, quanto mais a suas expressões específicas, como o capitalismo, seja ele “científico” ou não. O tão criticado viés economicista seria dessa forma evitado. Assim, isoladamente, nem o social “comum”, nem as regras linguísticas de formalização e determinação da verdade e seus sistemas de notação bi-unívocos, poderiam levar à construção dessa economia específica que é a ciência. A ciência une a ambos com suas formas de inovação, acumulação e também de história, específicas.” (MERIGOUX, 2014, p. 35-37)

O método reflexivo de Bourdieu obrigaria ao fim e ao cabo ao cientista incluir a si próprio em sua análise, como um ator que não pertence exclusivamente a seu grupo e participa do conjunto da sociedade.

Comentamos, por fim, sempre no mesmo capítulo, outro fundamento da teoria do Ator-rede, a chamada tese Duhem-Quine, ou “subdeterminação da teoria pela experiência”.

Não seria a teoria que determina direta e absolutamente a experiência científica, nem haveria uma subdeterminação absoluta da teoria pela experiência, como o sugere o parceiro de Bruno Latour e economista Michel Callon, referindo-se à chamada tese Duhem-Quine  (CALLON, 2006[1995], p. 230). Na prática científica, essa subdeterminação seria, até certo ponto, reduzida, aduzida e estabilizada, pelo uso provável do que chamamos aqui uma linguagem científica, que orienta o tipo de economia, o tipo de recorte, o tipo de razão, comunicação e relação sociais através dos quais o pesquisador apreende e acumula a experiência como um dado. O problema da subdeterminação da teoria poderia ser emoldurado, na prática, por uma pragmática da ciência fundada em sociologia, ou, mais precisamente, em habitus 'sociolinguístico' do cientista.” (MERIGOUX, 2014, p. 35-37)

Ressalta que a forma de se recortar da realidade com a linguagem, e a perspectiva cumulativa adotada, constituem uma diferença decisiva entre cientistas e não-cientistas.

Tendo chegado à conclusão que a verdade científica nunca prescinde da língua comum, e que sua dimensão sócio-histórica coloca necessariamente as proposições umas em relação com as outras, então sua expressão desenrola-se no nível do discurso. E, por aí, torna-se mais ou menos acumulativa, em graus de sistematicidade diversos, dependendo de os encadeamentos envolverem verdades mais ou menos sistemáticas e sistemas mais ou menos tradutíveis.

Guardamos dessa seção que a linguagem não é uma diferença a priori entre leigo e cientista, mas, pelo contrário, o que os torna indissociáveis, embora também seja parte daquilo que os diferencia social e relativamente um em relação ao outro ao longo da história.

Analisamos a emergência sócio-histórica da prática da formalização quando tratamos dos primórdios da diferença entre linguagem científica e comum na Grécia Antiga.

3.4Linguística, cognitivismo, sociolinguística, unidade, sentido, paráfrase, uso e regra

Vale assertar90, antes de mais nada, a pressuposição que não existem na comunicação linguística humana palavras isoladas. Palavras são concebidas no mínimo dentro de relações umas com as outras. Quanto a postular, com Saussure (1995[1916]), a língua (langue) como um sistema especificamente formal e imanente, uma estrutura puramente autônoma a ser considerada “em si mesma e por si mesma”, cortada de suas manifestações sociais observáveis, objetaremos com o fundador da sociolinguística moderna Labov que a língua muda (através de variações regulares) em correlação com forças sociais, que lhe são exclusivamente internas, embora toda mudança social não cause, de forma determinística, uma mudança linguística como supunha em 1921 o linguista Meillet (LABOV, 2010, p. 185).
Os estudos sociolinguísticos de comunidade de fala mostraram que a variação linguística no mundo moderno é correlacionada com um pequeno número de variáveis sociais: idade, gênero, classe social, raça/etnicidade, estatuto urbano/rural e localização em redes sociais. 91(LABOV, 2010, p. 197)
A respeito das redes sociais mencionadas por Labov, Bourdieu em seu artigo “Le capital social” [O capital social] (1980), recusa reduzir o social às únicas interações diretamente observáveis entre os atores. As interações segundo ele são influenciadas pela posição do ator no campo (que depende por sua vez dos capitais de que dispõe: econômico, social, simbólico, científico...). Essa posição dá ao ator um certo poder de nomear  (BOURDIEU, 1982, p. 99)92, i.e., pelo que entendemos, impor na sociedade sua segmentação linguística e cognitiva do mundo. As próprias variáveis resultam dessa imposição que também é, para o sociólogo, uma luta de classificações (que no caso seria um genérico da luta de classes claramente identificadas de Karl Marx). Assim, não seria aceitável no atual contexto da França, por exemplo, usar a variável “raça”, que consta da citação de Labov acima, em um estudo de ciências sociais (a não ser como objeto explícito de inquérito sociológico).

No que diz respeito à sociolinguística no Brasil, citemos a entrevista dos linguistas Cláudia Roncarati e Sebastião Votre a seu colega Julius Naro:

[…] Também existe um ramo da sociolinguística mais voltado para a sociologia. Mas, pelo menos, até agora no Brasil, esse ramo não tem prosperado, ninguém se interessou por ele.

S: Mais ou menos o que chamam nos Estados Unidos de sociolinguística interacional?

N: Não é na sociolinguística interacional que eu estou pensando não. É, por exemplo, no papel das mulheres e dos homens na sociedade ou um grupo qualquer. Lá, nos Estados Unidos, o foco era principalmente nos afro-americanos. Mas existe todo um ramo da sociolinguística voltado mais para questões sociais do que para questões linguísticas... Mas, aqui no Brasil, não temos esse campo de estudos. (RONCARATI, 2008, p. 13-21)

A orientação sociolinguística que escolhemos para a DC é sócio-semântica93, porque se falamos na diferença entre linguagem científica e comum, então falamos de verdade(s), portanto necessariamente de sentido, embora nunca exclusivamente, porque se admite, a partir de evidência empírica sustentada pelos sociólogos Bourdieu e Passeron (1970, p. 34), que a comunicação da verdade, tida como relação social entre interlocutores, depende fortemente, para ser recebida e entendida, de como o receptor percebe a posição social do emissor.

3.4.1Segmentação das unidades linguísticas, comunicação da verdade e uso

Em virtude do mecanismo chamado Merge, introduzido pelo “Programa minimalista” do linguista gerativista Noam Chomsky (1995)94, admite-se que não existe língua conhecida em que as palavras  – sugerimos acrescentar: os signos linguísticos – não apresentam nenhuma relação umas com as outras. Segundo Chomsky, o Merge, relação aplicada recursivamente entre palavras e também frases, e por aí criando novas formas, sentidos, categorias, construções95 e frases inéditas, seria a condição mínima de existência das línguas.
Do seu lado, o psicólogo Steven Pinker e o linguista Ray Jackendoff (2005, p. 219), de orientação cognitiva diversa de Chomsky, contestam que Merge seja o “mecanismo” genético96 único, exclusivo e suficiente para fazer existir plenamente e explicar as línguas humanas em todas suas dimensões, diversidade e complexidade.
Eles fornecem uma lista de questões (2005, p. 220) das quais, pelo que julgam, o “Programa minimalista” de Chomsky não dá conta. Uma delas é a segmentação das palavras, ponto fundamental pelo qual as línguas particulares diferem (2005, p. 210-211)97.

Do ponto de vista da comunicação da ciência, não se pode descartar a segmentação: como saber se uma frase é verdadeira, e depois comunicar com os pares a verificação, sem saber segmentar corretamente os elementos postos em relação?

A questão toca uma das diferenças fundamentais entre a língua “comum”, atribuída ao “leigo”, e a linguagem – melhor dizendo: sistemas de notação – lógica e matemática. Nesta, a segmentação forma-sentido é convencionada previamente. Uma das características que tornaria “universais” tais sistemas seria a  regularidade e previsibilidade de sua segmentação (ou, colocando-se no nível não apenas da forma pura mas também da unidade semântica, sua composicionalidade98), a qual não é natural, mas resulta de regras explícitas e de convencionalização, i.e. de ações normativas sócio-semânticas particulares, que por sua vez resultam de ações convergentes ou conflitantes.

Notemos que Chomsky (1995) representa o Merge por uma árvore binária, deixando supor que se trata de uma capacidade genética pré-determinada e pré-codificada em linguagem formal: toda relação entre palavras poderia então ser explicitada na forma canônica da razão científica.

A questão é pauta da CI, através da teoria do agir comunicativo do filósofo alemão Jürgen Habermas (1975), fundada na suposição chomskiana de que existe uma forma de razão a priori99, biologicamente predeterminada em sua forma de expressão. Tal teoria permitira fundar em critérios biológicos e racionais uma condição de igualdade linguística e cognitiva, portanto política, efetiva e realmente universal, entre todos os indivíduos. Se tal hipótese fosse verificada, é provável que a DC e sua problemática nunca teriam surgido e todos os problemas de comunicação da verdade científica ao maior número já estariam resolvidos.
Trabalhos recentes em cognição, como os de Giorgio Vallortigara (2013)100, apresentam provas empíricas de que a noção de quantidade existe no mundo animal (mamíferos, aves) e até mesmo nos humanos recém nascidos. A questão que nos interessa aqui, então, não é a capacidade de contar, mas de fazê-lo comunicando e acumulando os resultados mediante signos, símbolos, tendo escolhido certa classe de signos e não outra, e, como o mostrou o matemático Benoît Mandelbrot, partir de um algoritmo em que dados e instruções são absolutamente separados e não chegar a resultados conhecidos, questionando a validade de uma recursividade absoluta (BERLINSKI, 2009[2004], p. 117).

Afinal de contas, não é a aritmética em si que separa o leigo do cientista.

Segundo Joan Bybee, linguista seguidora da linha dos modelos linguísticos baseados em uso, a convencionalização do sentido depende da exposição do indivíduo à repetição das palavras, portanto no mínimo ao uso (BYBEE, 2010, p. 36)101. E, por aí, exposição a condições linguísticas sócio-históricas particulares além daquelas universais e genéticas contempladas por Chomsky. Tal constatação aplica-se inclusive às unidades semânticas chamadas “multi-word” (BYBEE, 2010, p. 35-36)102, muito usadas na linguagem científica e que, por isso, constituem um ponto de marcada diferença em relação à língua “comum”. A linguística baseada em uso mostra que nem a própria divisão entre as categorias de palavras gramaticais e lexicais é estática, estanque ou definitivamente dada, mas resulta de mudanças gradativas correlacionadas ao uso. A partir daí, Bybee elabora uma teoria geral da cognição (CEZARIO; PINTO; ALONSO, 2012, p. 7) que, ao contrário daquela de Chomsky, é baseada em uso, sem por isso ignorar as condições biológicas da linguagem.

Por outro lado, se recusamos que o Merge de Chomsky seja concebido como absolutamente inato e a priori, por outro o aceitamos como explicação a posteriori da capacidade humana de juntar duas "palavras" com sentido autônomo para formar outra, um “multi-word”, que possua um terceiro sentido distinto daquele de cada palavra individual (sentido então que não é o resultado a priori de alguma operação formal, ou que não pode ser predeterminado por uma única e exclusiva regra gramatical, tirando obviamente o caso dos sistemas declaradamente composicionais elaborados no decorrer da história).

Guardaremos para nosso eixo teórico que, se as palavras de uma língua estão sempre em relação, como o postula aliás o Merge, não existe segmentação ou categorização gramatical a priori das palavras. Se, na comunicação linguística em geral, não se pode prever o pareamento forma-sentido fora do uso e da interação, logo não se pode afirmar a priori, mecanicamente e com absoluta certeza, quais são as unidades visadas por uma relação de verdade e portanto afirmar que existe a priori a afirmação de uma relação efetivamente verificável. Isso não implica que as situações de uso e interação linguísticas escapem de tudo à verdade científica, pois acontecem dentro de relações sociais que apresentam regularidades, e a esse título observáveis, sujeitas à indagação científica e a hipóteses de mudanças regradas.

Assim, no caso da comunicação entre cientistas, em que se busca idealmente a composicionalidade, a regularidade do pareamento forma-sentido e composicionalidade na expressão da verdade poderá ser mais provável que na comunicação entre não cientistas (o que não exclui que a língua comum desenvolva estratégias de desambiguização eficientes e suficientes para a comunicação de outros valores, em particular valores indeterminados, embora tais estratégias de desambiguização não tenham os diversos níveis de sistematicidade semântica e sígnica das notações simbólicas). Assertamos que tal probabilidade não existiria exclusivamente por causa de capacidades genéticas, mas também porque a composicionalidade é uma regra adquirida em uso no grupo social particular dos cientistas – caberia obviamente mais nuança, pois os cientistas não formam segundo os sociólogos um grupo social homogêneo – , regra que os cientistas procuraram aplicar sistematicamente à expressão da verdade a partir de condições e normas sócio-históricas que propomos examinar aqui.

Se não é exclusivamente genético, o conhecimento e sua segmentação – e por aí seu gerenciamento e organização –  requerem para ser comunicados técnicas de transmissão e, inevitavelmente, em graus diversos, de acumulação. Um dos pontos que evidenciaremos aqui é como as regras da linguagem científica, em particular, contêm hipóteses implícitas sobre a otimização dessa transmissão e sua economia, através da acumulação de conhecimento.

 

3.4.2O enunciador: falante como ator social

A língua é concebível sem falantes? A pergunta seria descabível, não fosse essa a visão da estrutura, implicitamente aceita pelos chamados estruturalistas, que seus detratores pintavam como um sistema completamente desencarnado, abstrato, atemporal, com lugares vazios preexistentes como os de um tabuleiro de xadrez, fixos, pré-regrados e necessários, nos quais se encaixam à perfeição, com a regularidade de um relógio, as palavras particulares e acidentais de falantes passivos.

Em um artigo intitulado “Uma reflexão crítica sobre a teoria sociolinguística”, o linguista Roberto CAMACHO defende a necessidade de “... repropor mais plenamente o falante enquanto agente condutor de seu próprio discurso e, consequentemente, a noção de variável linguística como o espaço privilegiado da construção do significado social da linguagem.” (2010, p. 1)

Mas quem conduz o discurso e constrói o significado? O cientista é geralmente considerado ator e produtor do discurso racional verdadeiro (e socialmente mais valorizado), o leigo não. Mas será que os cientistas não são, à imagem dos leigos, agidos e falados? Qual é o peso do significado social (i.e. do pertencimento social do enunciador) em relação ao do significado linguístico (semântico) na comunicação da verdade? O ponto é fundamental para reduzir os vieses a que é exposta a DC, pois os cientistas, entre eles os linguistas, aceitam geralmente o pressuposto que sua comunicação é efetivamente mais racional (que a dos leigos).

Segundo Bourdieu, a própria seleção de uma mensagem por um receptor, antes mesmo de se avaliar a verdade de seu conteúdo, dependeria probabilisticamente mais da posição de autoridade do emissor que de sua competência objetiva intelectual específica. Em obra conjunta com o também sociólogo Jean-Claude Passeron, ele apresenta o problema da forma particular como se manifesta no sistema de ensino:

Contra o senso comum e muitas teorias eruditas que fazem do entender (no sentido de compreender) a condição do escutar (no sentido de prestar atenção e dar crédito), nas situações reais de aprendizagem (inclusive o da língua), o reconhecimento da legitimidade da emissão, i.e. da AuP [=Autoridade Pedagógica] do emissor, condiciona a recepção da informação e, mais ainda, o cumprimento da ação transformadora capaz de transformar essa informação em formação.103 (BOURDIEU; PASSERON, 1970, p. 34)

Em suma, os estudos empíricos mostram que a existência de uma preponderância do sentido verdadeiro na comunicação entre pares é um preconceito social, mais que uma realidade efetiva.

No decurso de nossa pesquisa faremos referência ao linguista Benveniste e à teoria da enunciação, de que foi pioneiro (DOSSE, 1998[1992], p. 47). Essa reintroduz o sujeito falante nos anos 1950-60 na linguística francesa, abrindo o caminho para concebê-lo como um ator social, sem partir a priori da oposição radical entre falante passivo/ativo na construção da língua e do sentido.

A teoria da enunciação permite interligar sociologia e linguística pelas noções de ator/agente e ato de fala – i.e. performance e não apenas competência –, independentemente de se postular ou não a existência de uma estrutura matemática – “puramente” racional – que predetermine a ação. O postulado da preexistência de uma estrutura formal da linguagem, fruto de regras a priori, quando é estendido ao domínio da ação, e por aí ao ator, pressupõe que a ação é a priori redutível a uma expressão não apenas racional como necessariamente formal (o que exclui a razão prática). A teoria da enunciação abre portanto o caminho para se abordar ambos os leigos e cientistas como sendo indissociavelmente atores sociais e falantes, mais ou menos passivos, independentemente de se usar ou não a noção estritamente matemática de estrutura, seja ela social ou linguística, como construto definitivo e condição sine qua non de toda teoria.

Afinal, a própria noção de estrutura não poderia ser uma verdade definitiva, absoluta ou “caída do céu”, mas uma construção que passa a existir como verdade científica (e antes como bem simbólico) por ser comunicada dentro de circunstâncias sócio-históricas particulares de desempenho (por oposição à competência linguística). Circunstâncias particulares das quais a emergência da noção, por mais universal que se pretenda, não poderia ser absolutamente dissociada. Nem que seja porque tais circunstâncias estão na origem temporal (senão histórica) da existência e elaboração da “estrutura”, não apenas linguística e social, como também cognitiva. Só uma vez comunicada, a estrutura pode ser sujeita ao controle, questionamento, contradição, verificação e, por fim, tida pelos pares como noção científica verdadeira ou não.

A noção de estrutura a priori tal como a entendem os estruturalistas nos parece inaceitável na DC. Seu formalismo sofisticado coloca o leigo em situação de completa passividade e ignorância perante regras que em ele seguiria “naturalmente”, e coloca o cientista na posição de detentor “objetivo” de regras absolutas porque definidas por ele próprio como inatas. Mas, nos fatos, como o expusemos acima, o cientista nunca é totalmente neutro, porque em certa medida sempre escolhe as regras e portanto as produz, dentro do enfoque de seu pertencimento social, além de as aplicar e impor através de suas práticas sociolinguísticas e cognitivas particulares.

3.4.3Ambiguidade, unidade de sentido, uso e regra: a via da paráfrase

Entre os males atribuídos à “linguagem comum” pelos cientistas104, sempre constam a ambiguidade e seus corolários: imprecisão, quando não erro, incorreção, imperfeição, defeito, ignorância ou inferioridade. A ambiguidade é geralmente considerada, junto com a irregularidade de pareamento, uma linha divisória entre uma e outra linguagem. Ora, na análise que os linguistas Michael A. K. Halliday, Wolfgang Teubert, Collin Yallop e Anna Cermakova expõem no livro “Lexicology and Corpus Linguistics. An introduction” (2004, p. 83-84), a causa da ambiguidade encontra-se justamente no problema da segmentação da forma com base na unidade de sentido.

Em concordância com Bybee, e contestando o absolutismo inatista da corrente chomskiana, Halliday et al. (2004) afirmam que a segmentação em unidades de sentido só pode ser estabelecida efetivamente pelo uso. Fundados na noção de paráfrase, fornecem-nos um método de análise (pormenorizado e implementado na seção 5.1).

Comparado com as regularidades das mudanças fonéticas e das construções frasais, o sentido das palavras é geralmente turvo e vago, não apenas quando se compara diferentes línguas, mas também na perspectiva monolingual. Palavras, palavras sós, podem ser a unidade nuclear ideal quando se descreve os mecanismos gramaticais. Mas são unidades nucleares muito menos apropriadas quando nos interessamos pelo sentido. Palavras sós são geralmente ambíguas. […] A ambiguidade é a consequência de nossa crença equivocada que palavras sós são a unidade de sentido. As unidades de sentido são, por definição, não ambíguas: possuem apenas um sentido. Certas palavras são unidades de sentido, outras não. 105(TEUBERT, 2004, p. 83)

A posição de Halliday et al reforça nossos argumentos segundo os quais a segmentação correta das unidades de sentido é uma condição no mínimo simultânea à regra, para se poder compreender qualquer enunciado, inclusive proposições lógicas.

Mas, antes de adentrar a questão capital e controvertida das relações entre uso e regra, caberia perguntar: “regra” tem o mesmo sentido quando se aplica à segmentação correta em unidades de sentido e à gramaticalidade de uma frase inteira? Ou: toda regularidade implica necessariamente alguma regra sempre verificável?

Afinal, não seria ambígua a noção de regra? É o que sugere Wittgenstein (1953) em um trecho de suas “Philosophische Untersuchungen” (Investigações filosóficas), citado em um livro do também filósofo Jacques Bouveresse (2003, p. 137):

82. O que chamo de 'regra segundo a qual ele procede'? A hipótese que descreve de modo satisfatório seu uso das palavras observado por nós; ou a regra que consulta ao usar os signos; ou a que nos dá como resposta, quando perguntamos qual é sua regra? Mas como, se a observação não permite reconhecer claramente nenhuma regra, e a pergunta não traz nenhuma à luz? — Pois ele deu à minha pergunta "o que compreende por N" realmente uma explicação, mas estava pronto a revogá-la e a modificá-la. — Como devo então determinar a regra segundo a qual ele joga? Ele próprio a ignora. — Ou mais corretamente: o que poderia significar aqui a expressão "regra segundo a qual ele procede"? (WITTGENSTEIN, 1999[1953], §82)

Halliday et al. reconhecem a contribuição de Chomsky à linguística ao mudar o estatuto da regra que, de descritiva e passiva, passa a criadora (HALLIDAY et al., 2004, p. 77-78), embora se demarquem dele (2004, p. 81-82). Lembremos, muito sucintamente, que Chomsky mostrou em 1959106 que as amostras linguísticas107 a que uma criança é exposta, nos termos da teoria da linguagem do behaviourista Burrhus F. Skinner, não são suficientes para explicar a criatividade, característica única da linguagem humana, i.e. a geração de uma infinidade de frases gramaticalmente corretas, nunca prévia ou diretamente ouvidas. Apenas regras sintáticas já conhecidas poderiam, segundo Chomsky, suprir tal carência de stimulus, daí sua teoria de uma "gramática universal" inata. Por isso ele recusa que a sintaxe (a qual permite estabelecer relações regradas entre entidades) possa ser de alguma forma determinada pelo uso ou inferida desse e, para além disso, que possa ter qualquer relação com a analogia ou com dados estatísticos. Daí, aliás, seu desinteresse pela análise estatística de corpus linguísticos.

Mas, antes mesmo de aceitar a existência de alguma regra absoluta, não haveria que reconhecer com Halliday et al. (2004, p. 82) que, nas línguas “naturais”, a própria diferença entre o que é sintaxe e o que é léxico dependeria da perspectiva ou método adotados? Obviamente o problema não se coloca no caso dos sistemas ditos de notação simbólica, uma vez que essa diferença deve ser explicitada imperativa e previamente, e as categorias dos símbolos são predefinidas. A criação linguística pode então se dar tanto pela concepção chomskiana da regra quanto pela transposição desta pelo uso: prova disso os já mencionados processos de gramaticalização, que combinam elementos categorizados como sintáticos (regra) com elementos categorizados como lexicais (uso) para criarem novos elementos linguísticos (LIMA-HERNANDES, 2011, p. 17). A mudança implícita de categoria de um elemento viola a regra de constituição dos sistemas formais, que só operam em cima de símbolos que pertencem a categorias pré-determinadas. Pelo que entendemos da crítica de Halliday et al (2004, p. 82) a Chomsky, o Merge pode explicar tal criação linguística, mas parcialmente apenas: não poderia prevê-la ou determiná-la sistematicamente em todas suas dimensões linguísticas em cada língua particular, das quais só o uso daria conta.

Dito de outra maneira, a tradução entre o sistema da competência e o sistema do desempenho seria indeterminada: uma única regra não produziria (ou permitiria prever) sempre um único e mesmo output e vice-versa.

Resta que, para se verificar que se entendeu corretamente o que é uma regra, ainda mais uma regra formal com tudo que isso implica, é preciso, antes, não apenas saber, mas também comunicar explicitamente em que sentido se usa a palavra “regra” (no caso das linguagens formais pode-se até falar em exigência social de comunicação pública do sentido). Para tanto recorre-se à paráfrase: essa permite explicitar, eventualmente de forma unívoca, o sentido da palavra “regra”, ao mesmo tempo que a identifica como unidade de sentido.

Chomsky mostrou que o aprendizado da língua exige mais que o conhecimento de adjacências recorrentes como o supunha a estatística 'ingênua' dos behaviouristas. Existem contudo outras abordagens estatísticas possíveis, que vêm sendo exploradas e aplicadas com plausibilidade à explicação do aprendizado das línguas.

Assim, estudos cognitivos experimentais recentes, fundados em modelos estatísticos de tipo bayesiano, dos quais Stanislas Dehaene dá um extenso panorama (2012-1013), tendem a confirmar que, ao cabo de algumas exposições a amostras apenas (a partir de 5), um bebê de menos de 18 meses já seria capaz de detectar padrões de regularidades linguísticas complexos (não lineares ao contrário daqueles de Skinner: variações linguísticas regulares e não adjacentes) com a ajuda da memória (repetições presentes em amostras novas são comparadas pelo bebê com padrões complexos já ouvidos)(DEHAENE, 2012-1013, aula 6). Mas o “conhecimento da regra” entre os bebês só se manifestaria na presença de um mínimo de repetições, i.e., uso.

No que diz respeito ao inatismo, os cognitivistas bayesianos não o recusam, embora também não requeiram que assuma um caráter absoluto como em Chomsky para se explicar o aprendizado das línguas. Afinal, porque um certo inatismo da regra sintática haveria de excluir um certo inatismo da regra estatística?

Os estudos experimentais mencionados por Dehaene tendem, por fim, a confirmar um ponto importante: a existência de uma estrutura “interna” do indivíduo – melhor dizendo: existência de uma autonomia cognitiva do sujeito em relação ao meio – , pois esse apresenta reações fisiológicas mensuráveis devidas a (padrões de) expectativas de presença ou ausência de um certo padrão, e não à ausência ou presença in abstracto de certos padrões (não seria o caso se a estrutura cognitiva fosse determinada apenas pela realidade imediatamente percebida). Se essa evidência elimina as teses que defendem que o conhecimento ou informação possam ser comunicados por simples imitação, nem por isso confirma, no outro extremo, o absolutismo inatista da regra, que postula uma independência total entre estrutura cognitiva e percepção.

O problema com a regra é que, se ela própria é ambígua, então não pode ser absolutamente natural (não existe por natureza uma regra explícita única e predeterminada, biológica, totalmente isenta de escolha ou interpretação) ou intrinsecamente unívoca (é sempre necessário algum elemento suplementar à regra para se chegar a uma única interpretação da regra) ou unívoca a priori (nem sempre a regra se aplica e se verifica em todo e qualquer caso); além do mais, não apenas a regra, mas também o uso, contribuem para a criação linguística. Em suma: não existiriam regras absolutamente abstratas ou a priori, mas sempre relativas a padrões de percepção presentes/ausentes e memorizados.  No estado atual dos conhecimentos só se poderia afirmar que as regras se tornam unívocas por força da imposição/aceitação prévia de uma regra de explicitação semântica geral, que ela mesma seja implícita ou explícita e comunicada entre pares que adquiriram e memorizaram regras semelhantes (regra da univocidade, a qual, como mostramos na parte histórica da DC sobre a Grécia Antiga, é enunciada nos Tópicos (Livro VI, cap. X) de Aristóteles, i.e. em um registro escrito, empiricamente observável, datado com certa precisão – até que se prove a existência de outro mais antigo). A própria explicitação, via paráfrase, de uma regra com sendo uma regra e não um elemento a que a regra se aplica, não pode prescindir do uso.

A paráfrase parece-nos indispensável para estudar a DC, porque permite conceber a partilha de sentido e verdade sem reduzi-la necessariamente às exigências estritas dos sistemas formais (unidades de sentido pré-pareadas, predefinidas, composicionais, biunívocas e fixas, que permitem declarar regras unívocas). Permite efetivar a partilha de conhecimento, não apenas no que diz respeito ao próprio sentido, e a seu recorte em unidades mais ou menos regulares e estáveis, mas também às regras que permitiriam produzi-lo e apreendê-lo. A paráfrase permite assertar um sentido (único ou regular) a fim de tê-lo compreendido pelo interlocutor, quer se explicite ou não uma regra racional de uso.

Permite conceber que se comunique, entenda e valide sentido sem pressupor, por parte do interlocutor, um conhecimento a priori tanto da segmentação correta das unidades de sentido quanto do sentido que se quer dar a estas. Aceita o fato que na comunicação ocorrem sentidos novos ou usos imprevistos, e portanto incompreensão, devida ora ao desconhecimento do uso de uma forma já conhecida, ora ao uso de alguma forma desconhecida. Não pressupõe que o interlocutor conheça todas as regras de uso ou todas as palavras usadas.

Além do mais, permite expressar um sentido interativamente, conforme as necessidades expressadas pelo interlocutor, quer se explicite uma regra formal ou não. Aplica-se à explicitação de uma unidade de sentido tanto dita “a priori” (definição estrito sensu, de cunho propriamente lógico, que supõe uma total intercompreensão prévia e/ou mecânica/automática) quanto a posteriori, como na comunicação humana em sociedade, em que a intercompreensão pode contar com a interação para fornecer ou trocar explicitações pontuais as mais diversas entre os interlocutores, inclusive quando surgem situações inéditas.

A noção de paráfrase também aceita, vale grifar, que o sentido de uma unidade possa resultar de regras inconscientes ou mantidas tácitas. Não se nega aqui a existência ou necessidade de regras para se chegar a um entendimento, apenas não se pressupõe que sempre se deva, possa, requeira ou queira fornecer uma regra explícita ou regra alguma, ainda menos a priori, para se comunicar e compreender todo e qualquer uso ou sentido. Admite-se inclusive que um interlocutor comunique deliberadamente uma regra errada.

Tal abrangência permite dar conta tanto da linguagem comum quanto científica, sem por um lado reduzir a linguagem do leigo a uma pura prática implícita (porque supostamente ignorante) do sentido, nem por outro erigir como única, original e exclusivamente válido o modelo semântico dos mais formalizados sistemas de notação simbólica, em teoria absolutamente regrados. Tampouco obriga-nos a equacionar o cientista à explicitação e omnisciência da totalidade dos sentidos que produz como ser social; nem descarta que os sentidos tácitos ou inconscientes, que um cientista usa e produz em sua prática científica, venham a ser parafraseados a posteriori, a partir de regras explícitas e racionais.

No que diz respeito ao leigo, a noção de paráfrase apresenta uma vantagem crucial: evita cair no preconceito de tratá-lo como um deficiente linguístico por inerência, que sofre de alguma carência lexical, semântica, e por fim cognitiva. Ou pior: atribuir ao leigo uma inferioridade racional e moral, devida a alguma incapacidade interna ou inata, tanto de conhecer quanto de explicitar e seguir corretamente regras de sentido ou ação em geral.

Aqui o risco de se fazer passar a norma social por regra científica é gritante. Em um estudo sobre Divulgação, confundir aquilo que é socialmente ilegítimo com o que é errado do ponto de vista racional equivale a fazer fundamentalmente o contrário de tudo a que se propõe.

Em suma, a condição de preexistência absoluta da regra, independente de qualquer uso, para explicar o aprendizado da língua, é posta em xeque-mate quando se aponta a ambiguidade da própria palavra “regra”, uma vez que essa ambiguidade só pode ser levantada pelo uso. A regra sai do domínio exclusivo da competência para entrar no do desempenho. A criação linguística não se resumiria à geração de enunciados ou entidades inéditos. Também inclui a criação de novas regras linguísticas, que depende de novos usos, novas segmentações e novos sentidos – a serem explicitados por paráfrases dentro de moldes formais ou não formais – da palavra regra. Tanto uma regra pode deixar de sê-lo, e ser rebaixada a simples regularidade, quando se refuta sua racionalidade, quanto um uso considerado irracional (ou absolutamente irregular, errado ou simplesmente ilegítimo perante a regra em vigor, o que muitas vezes o desclassifica como objeto de estudo108) pode encontrar uma explicação racional e adquirir o estatuto universal de regra gramatical.
Toda regra, em suma, é espaço-temporal. Mas isso não implica que qualquer uso pode virar regra ou é possível. A esse respeito, em relação com o caráter biológico da linguagem, vale mencionar a abordagem do linguista Andrea Moro109. Não parte do postulado chomskiano da regra inata única, abstrata (não espaço-temporal): pergunta antes se nosso cérebro impõe quaisquer limitações às sintaxes e línguas possíveis, e sua conclusão é positiva.  Nem por isso Moro afirma que dentro desse feixe de possíveis existe uma, e uma só, determinação sintática.

Restam as perguntas: se não existe uma única regra fixa e pré-determinada, então como escolhemos alguma possível e a justificamos como tal? Saber e poder fazer a escolha da linguagem e regra corretas, adequadas e fundadas em razão, para determinar e comunicar a verdade, não seria isso afinal que diferencia cientistas e leigos?

3.4.4Existe significado único e fixo, mecânica e indefinidamente acumulável?

Uma palavra pode ser efetivamente interpretada sempre com um único e mesmo sentido, que por sua vez é sistematicamente retomado e acumulado na forma de palavras com as mesmas regras de interpretação?

O algoritmo n+1, usado nos computadores digitais atuais, da forma como Alan Turing (1950)110 os concebeu, responderia pela afirmativa:

O único símbolo da máquina de Turing é 1. Todo número natural n é representado pela máquina como uma cadeia de 1 consecutivos em número n +1, de forma que 0 é 1, 1 é 11 e que n + m = (n+m) + 1. (BERLINSKI, 2012[2004], p. 173)

Mas, mesmo nesse caso, há perda de sentido, tendo em vista as descobertas do matemático Mandelbrot: aplicado a certos conjuntos de números, um algoritmo pode chegar a resultados desconhecidos, questionando a recursividade total da máquina de Turing (BERLINSKI, 2009[2004], p. 117). A existência de uma reprodução do sentido absolutamente previsível, portanto sem perda, não se verifica nem no caso da mais mecânica das linguagens.

Vale lembrar que a concepção de algoritmo de Turing se funda no mesmo método que a chamada linguística estruturalista, i.e uma separação absoluta entre langue (estrutura) e parole (ato de fala), separação absoluta a qual ressurge ora entre sintaxe (regras) e semântica (léxico), ora entre competência (estrutura profunda) e performance (estrutura de superfície)111:

Em 1936, Turing e Church assimilaram a obra de seu colega Kurt Gödel, inclusive o conceito fundamental de dualidade entre programa e dados, uma noção que remete à distinção entre signifié e signifiant cara ao Saussure. (CHAZELLE, 2013[2012], p. §17)

A consequência que tiramos da descoberta de Mandelbrot é que a total ausência de influência entre dados e instruções não se verifica. Invalida o postulado da autonomia absoluta da sintaxe em relação à semântica, ou o postulado de existência de sistemas de signos cujas funções e sentidos são totalmente predefiníveis e previsíveis, seja nas linguagens ditas naturais ou artificiais/formais.

Quanto a afirmar que a semântica da comunicação entre humanos atende à condição da univocidade e acumulatividade, o fato pode ser verificado em todos os casos observáveis de resultados de cálculos corretos feitos até hoje por humanos e retomados, e da probabilidade de ocorrência de tais casos.

Resta a questão da face social da capacidade de comunicar elementos de linguagem unívocos sem perda de sentido. Se a comunicação de quantidades usando signos verifica-se em todas as sociedades humanas (DEHAENE, 2007, p. 28), nem todas as sociedades dedicam a mesma importância ao conhecimento e desenvolvimento dos signos matemáticos, ou praticam a matemática, como uma atividade distinta, sabendo, além disso, que o valor dado à matemática varia dentro de uma mesma sociedade.

Um estudo de Valérie Izard et al (2011), “Flexible intuitions of Euclidean geometry in an Amazonian indigene group” (Intuições flexíveis da geometria euclidiana em um grupo indígena amazônico) afirma que o conhecimento das formas ideais (não perceptivas) da geometria euclidiana encontra-se tanto em crianças de tribos amazônicas que não receberam educação formal quanto em alunos de escola americanos ou franceses:

Kant sustentava que a geometria euclidiana é sintetizada na base de uma intuição a priori do espaço. […] Testamos a hipótese que certos aspectos não perceptíveis da geometria euclidiana podiam ser mapeados em intuições do espaço que estão presentes em todos os humanos, mesmo na ausência de educação matemática formal […] Concluímos que, durante a infância, os humanos desenvolvem intuições geométricas que concordam espontaneamente com os princípios da geometria euclidiana, mesmo na ausência de formação em matemática. 112(IZARD; PICA; SPELKE et al, 2011)

O problema fundamental é saber se, quando o humano faz uma operação matemática, o único e exclusivo valor usado na interpretação do sentido é aquele unívoco, ou se implica sempre em paralelo algum valor social, como o reconhecimento alheio (o dos pares, no caso dos cientistas). Falta então ao estudo de IZARD et al indagar em que medida o conhecimento da geometria euclidiana pelas crianças pode depender de fatores sociais como o conhecimento que a criança tem de sua posição na sociedade, na sua própria família (relação de autoridade, etc.) e em relação a outros grupos em geral. Ora, podemos considerar que a existência de influência entre entendimento em geral e posição social já foi verificada por estudos de Bourdieu e Passeron (1970), conforme trecho já citado que repetimos aqui:

Contra o senso comum e muitas teorias eruditas que fazem do entender (no sentido de compreender) a condição do escutar (no sentido de prestar atenção e dar crédito), nas situações reais de aprendizagem (inclusive o da língua), o reconhecimento da legitimidade da emissão, i.e. da AuP [=Autoridade Pedagógica] do emissor, condiciona a recepção da informação e, mais ainda, o cumprimento da ação transformadora capaz de transformar essa informação em formação.113 (BOURDIEU; PASSERON, 1970, p. 34)

Poderíamos rebater que Bourdieu funda suas conclusões em casos de ensino formal e por isso não se aplicam ao estudo de Izard et al. que considera justamente casos de aprendizado não formal. Respondemos que as conclusões de Bourdieu se aplicariam sim, pois a relação social de comunicação, como a de aprendizado, seja ela “formal” ou não, implica sempre alguma relação de autoridade que afeta o entendimento, inclusive nos casos específicos em que a comunicação se apresenta (falsamente segundo ele) como primordialmente racional e por isso neutra, como o do ensino formal. (Além do mais, as categorias e oposição ensino formal/informal, usadas por Izard et al., são específicas de nossas sociedades, sendo questionáveis inferências a partir de sua aplicação a sociedades onde não têm curso; Izard et al. supõem também que o “ensino formal” tal como o concebemos e praticamos é o único meio de adquirir os princípios explícitos da geometria euclidiana.)

Uma vez que não se verifica a existência de um mecanismo de (re)produção de sentido absolutamente previsível, não se poderia afirmar que existe sentido imutável e acumulável sem perda. Tampouco existe, portanto, diferença absoluta entre a mais formal das linguagens e a não formal, i.e. a “comum”, e por aí não existe diferença absoluta e a priori entre a expressão da verdade praticada pelo cientista e o leigo. Se, no caso da comunicação computacional, a reprodução mecânica sem perda e acumulação do sentido unívoco ocorrem em probabilidades muito altas, não são reais em si, não existem natural ou fatalmente. São sempre percebidas como um valor social resultante de uma seleção.

3.4.5O que é uma palavra?

É possível sempre isolar, no enunciado científico, a forma que corresponde ao sentido e vice versa? A abordagem adotada deve dar conta tanto de casos em que o pareamento forma-sentido é considerado não-problemático, caso das notações lógico-matemáticas, quanto daqueles em que não é previsível, caso da linguagem “comum” como se costuma aceitar.

Antes de mais nada, eliminemos a definição da palavra por sua forma exclusivamente gráfica, i.e. cadeia de caracteres entre dois brancos. Halliday fornece argumentos que permitem facilmente refutar essa definição, ao mesmo tempo que critica sua adoção implícita pelos dicionários:

114Os espaços entre as palavras são uma invenção relativamente recente. Foram introduzidos pelos monges nos scriptoria medievais porque facilitavam a cópia dos textos. Palavras são aquilo que constitui as entradas de dicionário. Mas, como “arma de destruição em massa” não é composto de uma única palavra, fica escondido no dicionário, se é que consta dele. (HALLIDAY, 2004, p. 106-107)
Na CI, Le Coadic atesta a unidade da palavra: “a palavra: (p) (forma linguística mínima independente dotada de sentido)” (1996[1994], p. 54). Sua definição, que corresponde à do morfema em Linguística, parece-nos insuficiente. Nessa ótica, a identificação da palavra passa pela segmentação do enunciado em morfemas (unidades mínimas de sentido), mais especificamente em morfemas lexicais115, acrescentaríamos, no caso que nos interessa.

Na ótica da intuição linguística, a capacidade do falante de segmentar em palavras enunciados é inata em sua língua nativa: “falantes do inglês moderno 'concordam' que a forma gato é usada para se referir a certo tipo sentido” (cf. citação abaixo). Mas a definição da “unidade convencional” é múltipla:

Por exemplo, os falantes de inglês moderno 'concordam' que a forma “cat” é usada para referir a um certo tipo de sentido que está ilustrado na Figura 1.2. Uma unidade convencional pode ser uma subparte significativa de uma palavra, que os linguistas chamam morfema ('anti-dis-establish' . . .), uma palavra inteira, uma cadeia de palavras que 'andam' juntas (um sintagma) ou uma frase inteira. 116(EVANS;  GREEN, 2006, p. 12)

Para a linguista “Bybee (2011)[,]... a palavra é o elemento básico da representação mental, posto que, ao contrário do morfema, tem autonomia cognitiva.” (SILVA, 2012).

O problema surge quando a unidade de sentido inclui vários morfemas lexicais, i.e. unidades de sentido que têm uso autônomo e autonomia cognitiva, além de morfemas gramaticais como as preposições. Por exemplo: “Ministro das relações exteriores”. Essa construção é composta de um substantivo (“ministro”), uma preposição e um artigo (“das”), um segundo substantivo (“relações”) e um adjetivo (“exteriores”). Nela, “ministro” tem claramente o sentido de “chefe de um ministério”. Mas, isoladamente, “ministro” pode designar um padre ou um pastor. “Relações” e “exteriores” também possuem individualmente vários outros sentidos autônomos (“exterior” sendo policategorial, i.e. substantivo ou adjetivo), além de “relações exteriores” também constituir aqui uma sub-unidade autônoma (no sentido de política estrangeira de um país). O sentido dessa expressão como um todo não pode ser deduzido com absoluta certeza, ou automaticamente derivado, de suas partes. Não há composicionalidade como na notação lógica e matemática.

Em seus “Elementos de linguística geral”, de 1960, o linguista André Martinet já concebe as unidades sintagmáticas complexas congeladas (em francês: figées), nomeando-as sintemas e associando-as ao uso: “os locutores tratam o sintagma como um sintema, i.e. como se fosse um monema indissociável” (1991[1960], p. 194[§6-20]). “Na terminologia de André Martinet, monema é a unidade significativa elementar […][com a qual busca] desambiguizar o termo morfema que designa as unidades significativas de base tanto lexicais quanto propriamente morfológicas” (DUBOIS, 1994, p. 308). O sintema é “um segmento de enunciado formado de vários monemas lexicais que funciona como uma unidade sintática mínima” (DUBOIS, 1994, p. 468). Não devemos, portanto, subestimar o problema.

Em “Linguistics and Information Science”, Karen Sparck Jones, reconhecida especialista em Linguística Computacional e RI, e Martin Kay, referem-se ao monema quando abordam a caracterização das linguagens de indexação por Maurice Coyaud. A definição da unidade mínima de sentido permanece problemática na Documentação:

Partindo da noção de monema ou unidade mínima, Coyaud distingue monemas lexicais e funcionais chamados respectivamente lexemas or morfemas. Lexemas são os termos do documentalista e os morfemas são relações de termos, as quais são sempre binárias.[…] Na sintaxe, Coyaud distingue a unidade independente mínima, ou palavra, e o sintagma. A palavra pode ser ou um lexema acompanhado de um morfema sintético, que indica sua função, ou um conjunto de lexemas caracterizado por uma relação analítica particular. Um sintagma, por outro lado, consiste de um par de lexemas  ou palavra cominados por uma relação sintética. A unidade descritiva, ou “enoncé” é definida, mais vagamente, como a menor unidade que faz sentido do ponto de vista da documentação, ou seja, a menor unidade que pode constituir uma consulta (“request”). (JONES; KAY, 1973, p. 64)117
Em seu livro “Diffusion et vulgarisation: Itinéraires du texte scientifique” (Difusão e divulgação: itinerários do texto científico), Daniel Jacobi, autor especializado em DC, nota: “na língua científica, manifesta-se uma  forte tendência para a nominalização e a construção de macro-termos”118. Daí a necessidade de alguma “definição operacional da palavra” que abranja os “sintagmas lexicais”. Jacobi cita uma lista elaborada por Kocourek que contém nada menos que 27 termos próximos do que Benveniste denomina, por sua vez, “synapsie” (JACOBI, 1986, p. 126-127).

Em livro recente, Joan Bybee fala de “multi-word chunks”, “multi-word sequences” (e ainda soma sua própria denominação às inúmeras existentes: “prefabs” (2010, p. 35) (embora o conceito se aplique mais às expressões chamadas “idiomáticas”)), antes de se fixar em “multi-word expressions”, unidade que ela parafraseia na forma de definição:

Uma expressão de palavras múltiplas é convencionalizada se foi estabelecida (tacitamente ou através da repetição) como a forma apropriada de dizer algo em uma comunidade particular119 (PAWLEY; SYDER, 1983; ERMAN; WARREN, 2000; WRAY, 2002)(BYBEE, 2010, p. 36)

Bybee corrobora com estudos cognitivos o critério do uso proposto por Martinet para atestar a unidade de sentido composta de várias palavras (autônomas ou não). Contudo, a simples repetição não seria suficiente para estabelecermos, no caso de sintagmas nominais, o sentido.

A definição da unidade de sentido em todas suas dimensões parece-nos tão problemática quanto crucial no estudo na DC: como o nota Jacobi, as linguagens especializadas, geralmente adquiridas em fase mais adulta, quando da especialização profissional e/ou acadêmica (sobre ensino da matemática, cf. (LEAL; MOLLICA, 2010, p. 13-38)), impõem o reconhecimento de segmentações complexas, em particular no sintagma nominal; ora a fronteira entre o leigo e o cientista é traçada inclusive pela especialização, que compreende justamente o aprendizado das palavras complexas.  

Sabemos que a Terminologia propõe soluções para dar conta da “língua especializada”, mas não atendem a nosso pré-requisito de também serem aplicáveis à “linguagem comum”. O estudo da DC requer um método de análise unificado, que evite a aporia da separação a priori das linguagens comum e científica, como já o expusemos acima.

3.4.6Unidade de sentido, paráfrase e análise lexicográfica de corpus

Sem conceito de unidade de sentido, como analisar com rigor o fenômeno descrito como “complexificação do grupo nominal”? Este é, segundo Gross, Harmon e Reidy (2002), corroborando Halliday, a maior mudança ocorrida na literatura científica no século 20:

No século 20, a maior mudança na evolução da literatura científica é de longe a que ocorreu em nossas medidas de complexidade cognitiva. A medida que a ciência tornou-se mais complexa teórica e metodologicamente, sua gramática adaptou-se aumentando substancialmente a complexidade de seus sintagmas nominais, usando dispositivos literários especializados (como cadeias de nomes concatenados e abreviaturas) destinados a veicular mensagens técnicas compactadas para pequenos grupos de leitores altamente treinados em um campo de pesquisa. Essas conclusões concordam com a posição de Halliday (1993a, 1998) segundo a qual o “grupo nominal” evoluiu como um recurso gramatical “para construir a realidade científica como um mundo de relações lógicas entre entidades abstratas” e o universo material120 (MARTIN 1998, p. 6). (GROSS; HARMON; REIDY, 2002, p. 167)

A abordagem da unidade de sentido que melhor atende à diversidade de dimensões de nossa análise é a de Halliday et al. (2004). Seu método de análise, que associa ao critério do uso a paráfrase, permite determinar, recíproca e simultaneamente, tanto a delimitação da unidade de sentido quanto seu sentido explícito.

Além disso, permite abordar a diferença entre sentido comum e científico não pela oposição tácito/explícito (como na definição de Bybee acima), mas pela oposição razão prática/razão teórica que desenvolvemos no capítulo sobre asserções. Do contrário, arriscaríamos resvalar na visão de uma língua “leiga” cuja semântica seria intrinsecamente mais implícita e por aí lexicalmente mais pobre, mais fraca em arguição, evocando a oposição entre “código restrito” e “código elaborado” do educador Basil Bernstein (1960), que Labov (1990[1969]) criticou como sendo preconceituosa. O que muda entre o leigo e o cientista não é a presença ou ausência de explicitação do sentido, ou uma quantidade maior ou menor de sentido, mas o objeto e a forma da paráfrase que, na linguagem científica, pauta-se geralmente pelo cânone da definição unívoca, pública e relacional, que visa o ideal comunicacional de reprodução simbólica absoluta, conforme argumentamos adiante.

Observemos, além do mais, que o sentido tácito também pode ser uma forma de acumulação de conhecimento, não pela explicitação e retomada linguísticas, i.e. um saber falar, mas pela retomada gestual de um saber-fazer e sua incorporação (no caso, saber falar e saber fazer seriam dois casos específicos de um saber agir em geral, ou em certo aspecto um habitus se seguirmos Bourdieu); nem por isso o sentido tácito passa a existir isoladamente, como uma entidade mental em si mesma, senão em relação aos demais sentidos reconhecidos, tanto explícitos quanto implícitos, cada qual intervindo em momentos diferentes das interações sociais entre falantes.

A abordagem de Halliday et al. tem a particularidade de abrir a perspectiva para uma comparação efetiva entre as diferenças de recorte de sentido (sistematicamente unívoco ou não, regular ou não) tanto quanto sua retomada (composicional ou não, simbólica e sistematicamente acumulativa ou não). Cobre desde a mais simples paráfrase até a mais formal das definições.

O sentido entendido como uma paráfrase mostra o caminho para identificar unidades de sentido. Nessa perspectiva, uma unidade de sentido é tudo aquilo para que achamos paráfrases no discurso121. Halliday nota: “Os computadores podem dar conta dos perfis de uso com eficiência. Paráfrases, por outro lado, precisam ser interpretadas. Precisam ser compreendidas. É algo que os computadores não podem fazer.”122(HALLIDAY et al., 2004, p. 133)

O problema da interpretação, e da compreensão, passa em suma pela capacidade de identificar unidades distinguido dentre os pareamentos forma/sentido aqueles que são regulares, irregulares e convencionados ou não, além de implícitos.

3.5Antropologia, sociologia, trocas simbólicas, informação e moeda

Em um artigo seminal da antropologia social, intitulado “Relações reais e práticas entre a Psicologia e a Sociologia”123, Marcel Mauss (1924) concebe a sociedade como um sistema de trocas simbólicas, reciprocidades, valores e traduções:

São signos e símbolos as exclamações e as palavras, os gestos e os ritos, por exemplo, da etiqueta e da moral. No fundo, etiqueta e moral são traduções. Com efeito, elas traduzem primeiramente a presença do grupo […] As palavras, as saudações, os presentes solenemente trocados e recebidos, e retribuídos obrigatoriamente sob pena de guerra, que outra coisa são senão símbolos? (MAUSS, 1966[1924], p. 332-333)

Sem reduzir a sociedade ou a cultura à língua”, tal abordagem prepara, escreve o antropólogo Claude Lévi-Strauss em sua “Antropologia estrutural”, uma “ 'revolução copernicana' […] que consistirá em interpretar a sociedade, em seu conjunto, em função de uma teoria da comunicação.” (LÉVI-STRAUSS, 2008[1958], p. 95).

Toda a questão é saber se as estruturas simbólicas são estruturas cognitivas objetivas, i.e. correspondem literal e exatamente à estrutura da realidade, ou se são segundo a expressão usada por Bourdieu “estruturas estruturantes”, i.e. que agem inevitavelmente sobre a realidade a medida que os atores a conhecem e a comunicam, modelando-a e construindo-a ativamente (embora não necessariamente voluntária ou conscientemente), em um desajuste constante com momentos mais ou menos ilusórios de acordo perfeito ou consenso.

Embora  Lévi-Strauss afirme claramente que “o princípio de uma categorização nunca se postula: só a pesquisa etnográfica, isto é, a experiência, pode evidenciá-lo a posteriori” (1962, p. 79), ele pressupõe, na prática da pesquisa, segundo a crítica de Bourdieu em “Esboço de uma teoria da prática” (1983[1972]), que nos resultados finais o modelo de dados se encontrará em ajuste perfeito com a realidade. Bourdieu constatou, em suas pesquisas antropológicas na Kabília argelina, que esse ajuste 'perfeito' nunca ocorre efetivamente. Observa-se sempre irregularidades irredutíveis ao modelo, que a análise dita estruturalista não explica e acaba excluindo dos dados e dos resultados (um pouco como se tudo que não cabe no modelo ou não é exatamente previsto por ele fosse anomalia, imperfeição, erro...).

Em suma, as trocas simbólicas não operariam ideal e automaticamente, segundo um modelo de regras predeterminadas (inconscientes ou não). Sempre há símbolos cuja irregularidade e imprevisibilidade obrigaria a admitir valores a posteriori, porque não preexistentes, não previstos pelo modelo. Tornam constante na troca comunicacional a dimensão prática da negociação, a qual por sua vez implica uma relação de forças, portanto um papel ativo e não neutro do ator na construção das estruturas sóciossimbólicas.

O que está em jogo, ao fim e ao cabo, nessa discussão, é se toda troca econômica, inclusive simbólica, é econométrica, i.e. opera com sistemas de valores autônomos, independentes do tempo e do espaço, que permitem sempre prever um valor determinado para qualquer objeto em qualquer transação, como as trocas estritamente fiduciárias.

No caso da concepção econômetra, nota-se, não se considera que são negociados símbolos, mas apenas objetos completamente dissociados desses a não ser pela relação exclusiva da determinação quantitativa.

Se a economia de trocas simbólicas não se reduz ao modelo fiduciário como as demais trocas econômicas, então a característica invariante das trocas em geral é o uso de sistemas de símbolos indeterminados, que assumem um valor relativamente às transações particulares. Nesse caso, o valor do próprio sistema simbólico também é um bem de troca, embora não explicitamente quantificado e nem mesmo sempre necessariamente quantificável, relativo à relação de força dos atores, que Bourdieu mede pela detenção de diversos capitais.

O que nos interessa especificamente, aqui, é saber se a troca de informação é uma econometria, i.e. uma troca cujos valores são sempre em sua totalidade determináveis, redutíveis a uma codificação métrica e sempre verificáveis por esta.

Equiparar informação e moeda fiduciária pressupõe que a informação, como a moeda na sua forma atual, seja expressa por um sistema de signos que atenda a duas exigências interdependentes mínimas: pareamento (correspondência entre unidade de forma e unidade de sentido) absolutamente regular e previsível, além de atender a um número finito de regras e operações previamente estabelecidas; composicionalidade (o sentido da proposição é determinado pela soma das palavras individuais que a compõem124 – requer a primeira exigência).

As moedas e notações lógico-matemáticas são sistemas que supostamente atendem a  essas exigências, ao contrário da linguagem “comum”, dita “ambígua” e cujo pareamento nunca é previsível a priori e por isso nunca composicional a priori. Logo, equiparar estritamente a informação a uma moeda fiduciária exclui que se use a linguagem comum se para comunicar informações que tenham qualquer valor (ou pelo menos valor verificável em termos quantitativos, o qual, por ser a expressão da economia oficial, também é o valor socialmente legítimo, a verdade econômica mais valorizada socialmente).

Mas, se consideramos a comunicação como uma troca simbólica, fiduciária ou não, e a informação como uma troca simbólica com algum valor de verdade, expresso em linguagem exata ou comum, então não se pode reduzir a informação em geral a uma economia de tipo estritamente fiduciário (BOURDIEU, 2000[1972], p. 381).

O sistema de signos usado pela economia fiduciária permite especificamente, pelo menos em teoria e pela sistematização da semântica unívoca de seus signos, sempre dizer de uma operação de medida quantitativa que é verdeira ou falsa. Mas a expressão da informação em geral é indeterminada, i.e. possivelmente comunicada de uma infinidade de formas, consideradas mais ou menos equivalentes segundo os interlocutores, não necessariamente fixas, e sujeitas à renegociação a cada transação. O fato de os valores não serem necessariamente comunicados através de um sistema de signos determinista (que pressupõe que todo resultado de toda transação é verificável), não implica, por sua vez, que não haja, na prática, desempate racional possível entre as partes no que diz respeito à validade da transação e ao valor das trocas simbólicas “comuns”.

A redução de todas as trocas à única forma verdadeira e legítima da economia “monetária-materialista”125 serve de partida para a ampla reflexão crítica e teórica do sociólogo Pierre Bourdieu, em seu livro “Esboço de uma teoria da prática” (1983[1972]). Ele tenta desenvolver uma “Ciência geral da economia das práticas” (2000[1972], p. 375), que considere não apenas uma única forma legítima de capital – aquela diretamente medível pela moeda fiduciária –, mas uma diversidade delas, notadamente os capitais social e simbólico. Este último, em particular, oferece as bases teóricas e empíricas para conceber as trocas simbólicas, e a informação em particular, sem reduzi-las à única forma digital, que é determinista.
Segundo Bourdieu, confundiu-se a economia com uma “econometria” (2000[1972], p. 297)126, em que se postula que as únicas trocas válidas (ou legítimas) são aquelas redutíveis a transações cujos ganhos e perdas –e também, vale grifar, temporalidade da transação – sempre podem ser quantificados e verificados por cálculos “puramente” racionais de sentido ou valor fiduciário (nesse tipo de operação o sentido se confunde com o valor).

Mas, como nenhuma comunicação humana (e tampouco física, por causa da constância do ruído) é totalmente redutível a uma comunicação de puro sentido (a qual pressuporia aliás uma omnisciência da totalidade das condições de comunicação), então, a  troca tem sempre um valor sóciossimbólico, ao passo que não é obrigatório que toda troca de valores ocorra no sentido estritamente monetário ou que troca de sentido seja puramente formal.

A economia de trocas simbólicas tal como Bourdieu a entende não se reduz às trocas com quantificação discreta, pelo contrário, abrange-as. Reiteremos que isso não impede a existência de trocas de valores relativos, através de uma comparação não quantificada, embora formalizável por uma representação binária, de tipo "maior ou menor". Na economia não fiduciária, os valores ou objetos não são reduzidos a uma operação de troca cujo resultado tem expressão necessariamente bivalente e métrica. Isso não implica que tais valores ou objetos não se prestem a priori em si a tal redução. Eles são considerados incomensuráveis no sentido estrito de não serem comparados por um único e mesmo sistema de verificação, mas eles não são totalmente incomparáveis: podem ser partilhados, negociados ou trocados como qualquer bem, ou nada impede a priori que o sejam.

Conforme o detalhamos na seção seguinte, inclusive sob o aspecto histórico, a introdução das notações binária ou indo-arábica teria causado uma mudança importante na comunicação da quantidade. O sistema numeral romano (que levou nada menos que meio milênio para ser desbancado pelo indo-árabe, generalizando-se apenas por volta de 1500), possui o pareamento regular e a composicionalidade. Porém, sempre introduz signos novos para expressar novos valores, em suma: não é previsível porque, além do pareamento, não são dados de antemão todos os signos usados na expressão de todos os valores numéricos possíveis. Trata-se ao meu ver de um salto crucial: do ponto de vista estritamente cognitivo e introspectivo o sistema romano seria equivalente para fazer a verificação dos valores computados, mas difere do indo-arábico do ponto de vista da partilha dessa verificação, em sociedade, usando signos.

A diferença reside, pelo que nos parece, na suposta previsibilidade absoluta da expressão do sentido que garante (no sentido de dar certeza, crédito, garantia) a intercompreensão do símbolo comunicado, e daí a maior certeza que a transação simbólica entre dois atores possa ser efetivada, e que o valor transmitido possa ser acumulado, sem perda devida à transação. É a busca de uma troca simbólica sem perda que cria na prática a necessidade de um sistema posicional que usa uma classe finita de signos; signos que são combinados infinitamente para dar (teoricamente) a qualquer valor uma expressão absolutamente previsível e sempre decifrável pelo interlocutor.

Desde que se admitiu isso, há que se aceitar que o conhecimento introspectivo dos números passa a ser mediado, estruturado, regrado e regularizado (absolutamente, nos casos do maia, indo-arábico e binário e de todos os sistemas numerais que combinam indefinidamente uma classe finita de signos) por sistemas de signos obtidos via trocas simbólicas com a sociedade e suas regras. Há o que chamamos de ideal ou teoria da reprodução sem perda, de orientação religiosa, que estrutura a comunicação da verdade, e tende a instaurar entre esta e a sociedade uma separação absoluta.

É nesse ponto que poderia ser situada a ruptura entre o estruturalismo à la Lévi-Strauss e a teoria da prática de Bourdieu, que funda a noção de capital simbólico, entre outros, distinto do capital estritamente econômico, ou, melhor dizendo, econômetro. É a construção paulatina de sistemas de signos cada vez mais previsíveis que permitiria regularizar a prática, quando não regrá-la, e in fine representá-la por uma teoria formal, e até mesmo apresentá-la como uma condição natural.

Assim, aplicada à comunicação, que envolve interlocutores/atores distintos, a noção de estrutura pressupõe a previsibilidade total – mecânica –  de todos os signos. Pressupõe que os interlocutores sempre saberão decifrar qualquer signo que surgir para expressar qualquer sentido/valor da estrutura. Implica que tudo numa estrutura já possui a priori um signo que o representa, e que o valor desse signo será automaticamente compreendido e interpretado corretamente pelo interlocutor (Bourdieu fala de “comunicação instantânea” (1983[1972]). É evidentemente falsa essa suposição se consideramos qualquer sistema semântico e os signos usados na comunicação. Só valeria para os sistemas de numeração absolutamente previsíveis como o indo-árabe, cujo uso se generalizou à expressão e manipulação dos valores fiduciários há apenas meio milênio, criando as condições sócio-históricas para o próprio surgimento da concepção econômetra da economia, e, acrescentaríamos, da estrutura dos estruturalistas.

Nota-se que tais sistemas absolutamente previsíveis não excluem sentidos novos, mas estes só podem ser introduzidos usando signos comunicados previa e explicitamente, predefinidos e que atendem a regras também prévia e explicitamente estabelecidas. A noção de estrutura pressupõe que todos seus sentidos/valores e regras preexistam sem ambiguidade no entendimento de cada interlocutor. Trata-se, de fato, de uma concepção mecânica da comunicação.

A pressuposição de uma intercompreensão automática tem, além disso, uma função social: permite absolutizar o conceito de estrutura (bem como absolutizar o conceito de sistema), e por aí situá-lo fora do tempo. Volta-se à noção platonista de verdade externa ao sujeito cognoscente e que, por se revelar eternamente, constitui uma comunicação atemporal, fora do social e fora da ação, e sobretudo fora da troca simbólica como economia profana sempre um mínimo irregular (e apenas eventualmente regular, no caso da economia monetária), e por aí fora da história, e por fim subtraí-la ao escopo da acumulação e do interesse, vil, venal, corporal.

A economia monetária e fiduciária não é cumulativa em si, por "natureza", mas, associada a meios materiais de reprodução como os suportes escritos, permite uma acumulação cujas perdas e ganhos são, na teoria embora não na prática, sempre verificáveis quantitativamente e independentemente dos atores em relação de comunicação, e por isso (teoricamente) reprodutíveis “fora” da sociedade e sem perda.

No verbete “informação” da Enciclopédia Enaudi, Anthony Wilden127 escreve:

Em suma, assim como é possível afirmar que as significações digitais emergem através da distinção entre fundo diferencial e analógico do significado, assim também se pode sustentar que os valores de troca (que são necessariamente digitais) emergem do continuum dos valores de uso mediante a digitalização da diferença. (WILDEN, 2001, p. 37)

É esse caráter digital do valor de troca da informação que Bourdieu (1983[1972], p. 50) contesta quando, ao refletir sobre o dom, tenta remontar à gênese da economia fiduciária, mostrando como a simetria que ela supõe não possui nenhum caráter universal ou natural, e se inscreve numa concepção de economia reducionista, etnocêntrica e positivista. Se devemos entender “digital” por ser/não ser, binário, então o termo não se aplica universalmente à troca de informação, na medida em que a economia, de forma geral, se comporta segundo a previsibilidade, i.e. uma expressão modal: que "pode ser e pode não ser". A previsibilidade diz respeito ao tempo de conclusão ou efetivação da transação.

Ora, excluir da definição da economia a noção mais ampla da temporalidade em benefício de uma noção de tempo discreta, verificável e absolutamente previsível em sua expressão, permite excluir da economia estrita as trocas assimétricas, aquelas que se pode concluir usando um valor ou objeto diferente daquele com que se recebe, bem como excluir da categoria do sentido estrito as expressões ambíguas, heterogêneas, metafóricas. Expressões as quais perdem sua ambiguidade e sua imprevisibilidade de sentido quando são contextualizadas, i.e. reintroduzidas na situação em que são trocadas, com base em valores locais, limitados à espaciotemporalidade e interpessoalidade da transação.

A ambiguidade não serve para produzir o sentido verdadeiro ou digital, mas para servir a expressão da modalidade, i.e. a expressão de uma maior ou menor certeza de que uma troca será efetivada, e será retribuída/compensada com alguma forma de bem predeterminada, preestabelecida, e não em outra.

A ambiguidade indetermina a troca sem prejuízo de seu caráter econômico, ela possibilita que os interlocutores escolham entre diferentes sistemas simbólicos de retribuição, não necessariamente quantitativos ou quantificáveis. É voltada para as trocas assimétricas, e permite retribuir não em moeda estrita, em unidade quantitativa predefinida, mas, de forma geral, em outro bem de troca, e até em outro tempo indefinido. O dom seria a forma, tempo e espaço menos determinados de troca. A relação de poder, que tende a impor uma metria a essas três dimensões da troca (forma, tempo e espaço), seja ela simbólica ou monetária, transforma a assimetria em: desigualdade, atraso (ignorância ou dívida, “déficit público” na DC) e exclusão.

A língua “comum” não se diferencia dos sistemas métricos pela ausência de categorias discretas e pela incapacidade intrínseca de produzir verdades bivalentes. Sua semântica, mais ambígua, é adaptada à expressão de trocas menos determinadas, das quais não se pode (ou não se quer!), na prática, quantificar ou explicitar previamente (a priori) todos os valores. Os sistemas de signos unívocos não possuem uma semântica autônoma, mas relativa. Não são mais reais e corretos em si que os outros, apenas representam outro tipo de troca, que não é (ou não está) organizada em torno da acumulação sistemática (qualquer que seja o motivo). A língua comum serve para operar trocas das quais não se espera (ou se exige) que sejam necessariamente medidas através de um mesmo sistema de valores homogêneo e concluídas dentro de um prazo quantificado com precisão.

Assim, para se produzir conhecimento científico, são necessariamente usados sistemas semióticos de trocas primordialmente voltados para a produção de valores indeterminados ou inverificáveis, e cujo uso as próprias ciências denegam. A invariante econômica de qualquer atividade é a prática da troca não exclusivamente econômetra. Como as relações sociais não são cognoscíveis e previsíveis em sua totalidade, a língua “comum” é o elo constante entre o cientista e o leigo, que a ciência “já pronta” oculta, como se ela devesse sempre, para ser aceita socialmente, se apresentar como uma verdade pura, atemporal e anistórica, associal, reproduzindo o corte absoluto que separa o conhecimento sagrado  do profano. Corte que não deveria ser aceitável no estudo  científico da comunicação da ciência mas ter, antes, sua construção e instituição estudadas.

“… a teoria da informação parece ter emergido da Segunda Guerra Mundial como Dionísio saiu da coxa de Júpiter. Para muitas pessoas, e frequentemente para aqueles que dela se servem nas suas formas mais rigorosas, a teoria da informação  aparece como um desenvolvimento intelectual e tecnológico praticamente destituído de bases históricas” (WILDEN, 2001, p. 13)

Para empreender plenamente essa historização da informação, é indispensável que se examine a troca simbólica não em sua forma binária como algo dado e acabado, mas como algo que existe e é verificável, até certo ponto, fora de um sistema de signos cujas características são as dos sistemas de notação numérica, fora de um sistema cujas características são as dos sistemas monetários.

É preciso entender a informação como um sistema de trocas não redutível, de partida ou constantemente, a uma forma métrica "pura", sistemática e perfeitamente explicitada e regrada, da qual se pode ter um conhecimento prévio e antecipação totais, à maneira da mecânica celeste absolutamente determinista de Laplace, que inspira a computação binária.

...dado o estado inicial da máquina e os sinais de entrada é sempre possível predizer todos os estados futuros. Isso evoca a visão de Laplace segundo a qual, a partir do estado do universo em um momento do tempo, tal como é descrito pelas posições e velocidades de todas as partículas, deve ser possível predizer todos os estados futuros.128 (TURING, 1950, sem paginação)

O sistema só vale se os símbolos e regras usados para representar os estados da máquina são tão previsíveis e finitos quanto os estados. Turing pergunta se esse tipo de sistema deixa o espaço para o surgimento de novos conhecimentos e seu aprendizado:

A ideia de uma máquina que aprende poderá parecer paradoxal para alguns leitores. Como as regras de funcionamento da máquina podem mudar? Elas devem descrever completamente como a máquina irá reagir qualquer que seja sua história , quaisquer que sejam as mudanças que atravessar. As regras são portanto invariantes no tempo. É verdade. A explicação do paradoxo é que as regras que mudam no processo de aprendizado são de um tipo menos pretensioso, pretendendo apenas uma validade efêmera. O leitor poderá fazer um paralelo com a constituição dos Estados Unidos.129 (TURING, 1950, sem paginação) (itálicos nossos)

Conceber uma produção da verdade que exclua a criação e aprendizado de novas regras não nos parece apenas paradoxal, mas contraditório, em particular no que diz respeito à produção de conhecimentos novos e à sua dinâmica sócio-histórica.

Pelo que ensina Kuhn (2009[1962]), na ciência tal concepção não seria nem única nem eterna, nem uma predição inscrita como uma predestinação, mas um paradigma, período histórico particular que ele chama de “incremental” ou “normal”, por oposição à ciência “revolucionária”. À luz da história, a criação de valores novos, e também de sistemas novos, passa inevitavelmente pelo reconhecimento de uma ambiguidade –  inclusive da própria regra –  e de uma indeterminação, reconhecimento que só seria possível a partir de uma visão parcialmente “de fora” do sistema da  máquina de estados finitos (discutimos especificamente a noção de regra, cf. 2.4.3.); mas nem por isso visão de fora de algum ator situado em um momento sócio-histórico particular.

Para produzir verdades, o leigo, tanto quanto o cientista, usa eventualmente axiomática, uma axiomática eventualmente implícita (BOURDIEU, 2000[1972], p. 303), contudo sem usar um sistema de signos cujos sentidos/valores são explicita e sistematicamente unívocos, definidos, representados por uma quantidade finita de signos, pareados convencional, prévia e regularmente, composicionais, verificáveis por bivalência, calculáveis e acumuláveis pressupostamente sem perda; nem por isso tais sistemas de signos deixam de ser datados.

O leigo não usa sistematicamente tais sistemas de signos para construir, comunicar, trocar e acumular valores de verdade, segundo regras explícitas e "devidamente" convencionadas, reconhecidas e legitimadas, simplesmente porque não se aplicam necessariamente a suas trocas.  O leigo não produz conhecimentos menos verdadeiros em si que os do cientista, apenas menos verificáveis ou menos legitimamente verificáveis não porque são menos reprodutíveis em si, mas também porque, como operam com valores e normas de menor “importância” sócio-econômica que as trocas em divisas, são menos reproduzidos e lembrados.

3.6História das ciências

Comecemos tratando dos sistemas de notação numeral, incontornáveis em um estudo que inclui as linguagens científicas, para depois abordar a História das ciências em geral.

3.6.1Comunicação da quantidade, verdade e construção matemática, face social dos sistemas numerais

Citamos acima autores, como Vallortigara (2013), que fornecem a evidência empírica que a noção da quantidade é uma capacidade cognitiva amplamente difundida não apenas entre os humanos, desde suas primeiras horas de vida130, como também entre diversas classes de animais, distantes de nós, como as aves. Como tratamos aqui especificamente de humanos, nosso foco não é a noção ou percepção da quantidade em si, mas a comunicação desta usando signos perceptíveis.
Entre os clássicos da história da notação matemática figura “A History Of Mathematical Notations”, em dois volumes, de Florian Cajori (1929-1930). Entre as obras recentes consideradas importantes, que abordam a dimensão cultural da matemática,  constam a “Histoire universelle des chiffres” de Georges Ifrah (1981)  e “Numerical Notation: A Comparative history” de Steven Chrisomalis (2010). Apesar de o segundo escrever que seu livro foi-lhe inspirado pelo primeiro (2010, p. viii), é considerado pelos pares como o mais confiável dos dois. A obra de Ifrah é tanto alvo de críticas do matemático francês Martzloff quanto a de Chrisomalis é elogiada por ele131.

Chrisomalis define a notação numeral:

Um sistema de notação numérica é um sistema estruturado, relativamente permanente, visual, principalmente não fonético, para representar números […] um sistema de diferentes signos-numéricos discretos: símbolos elementares sós, ou, na terminologia usada nos sistemas escritos, grafemas, que são usados em combinação para representar números.3 Uma expressão-numérica é um grupo de um ou mais signos-numéricos usados para expressar um número específico […] Todos os sistemas de notação numérica (e a maioria dos sistemas numerais lexicais) são estruturados por potências de uma ou mais bases.132(CHRISOMALIS, 2010, p. 2-3).
Ele afirma, a respeito da tradutibilidade e da comensurabilidade dos números: “Considero as notações numéricas como sendo traduzíveis entre culturas sem perda significativa de informação ou mudança de sentido.”133 (2010, p. 8).

Critica um certo relativismo cultural, segundo o qual 1+1 em quéchua não seria equivalente a 1+1 em inglês, porque não existiriam na cultura dos falantes de um e outro idioma objetos estritamente idênticos ou quantitativamente comparáveis. Chrisomalis parece referir-se aqui ao que Bourdieu chama de relativismo radical (BOURDIEU, 2004[2001], p. 13-14).

Sugerimos apreender o problema da “tradutibilidade sem perda” sob outro ângulo. Na seção 2.3 acima, colocamos o sistema como unidade de análise da verdade (além da unidade proposição).

Consideramos aqui sistemas, e não a comparação inter-sistemas das proposições uma a uma (nem os termos um a um), para analisar a tradutibilidade entre si das notações numéricas.

As notações numéricas são um caso de análise da verdade que envolve sistemas de “natureza” diferente:  matemático e social. Dentro de sistemas numéricos e entre eles, da forma como Chrisomalis os definiu acima, não há, pelo menos em teoria, perda de verdade quantitativa. O problema é que qualquer sistema numérico, como um todo, é percebido como um símbolo distintivo da cultura (ou grupo social) particular que o usa, quando entra em contato com outra cultura (ou grupo social) que usa uma notação diferente (os símbolos e a base usados podem diferir, como entre a notação maia e a romana); além disso grupos diferentes podem ter usos distintos de um mesmo sistema numeral.

A dimensão cultural ou social dos sistemas numéricos poder ser observada no próprio Chrisomalis. Ele adota a denominação “ocidental” (“western”) (2010, p. 1), e não “Hindu-arábico”, “usado na literatura acadêmica em geral”, para designar o sistema adotado na Alta Idade Média europeia, alegando diferenças “na forma dos signos” (“shape of signs”). Mas, como ele próprio afirma, é o sentido que conta para se ter a inter-compreensão da verdade sem ter perda. Então, se não há diferença de sentido entre um e outro sistema (tirando algumas diferenças de forma, que não afetam a compreensão), porque ele usaria duas expressões lexicais distintas, “indo-arábico” e “ocidental”, que são segundo ele sinônimos, senão para simbolizar o pertencimento a culturas ou grupos diferentes?

Todo sistema numérico participaria da atividade simbólica, seja essa desempenhada por símbolos visuais ou sonoros, e por isso é associado à algum pertencimento sócio-histórico. Todo sistema numérico seria relativo – não enquanto conjunto fechado de unidades internas mas enquanto tipo de sistema simbólico particular com sua face social perceptível – aos diversos sistemas de significados sociais em curso, em dado momento sócio-histórico da comunicação entre humanos. Nenhum sistema numérico comunicável teria de fato uma autonomia absoluta em relação a seu uso, porque precisaria antes adquirir uma realidade social pela comunicação.

O fato de comunicar o conceito de quantidade usando um dado sistema simbólico, e não outro, quando há escolha entre vários sistemas simbólicos em uso numa mesma sociedade, nunca seria desprovido de algum significado social, independente da exclusiva vontade dos enunciadores. Essa mudança de significado, contudo, não seria completamente irracional, inquantificável, ou incomensurável, pois comparar sistemas semânticos e se for o caso medi-los cientificamente em seus diversos aspectos (psicológico, sociológico, sócio-semiótico...) é justamente um dos propósitos das ciências sociais.

Expressar uma quantidade, por exemplo no sistema numeral quéchua, não muda o valor ou sentido (nesse tipo de sistema valor e sentido são confundidos) relativo dos números estritamente dentro e entre os sistemas numéricos; mas pode afetar o significado social da mensagem que usa esse sistema para expressar quantidades. Pode fazer variar a forma como a mensagem é recebida (percebida, entendida, registrada, acumulada, reproduzida, em suma tal como o definem (BOURDIEU; PASSERON, 1970, p. 34) supracitados) por membros de outras sociedades, cada qual com seus sistemas de valores e significados sociais diferentes. Deparamo-nos novamente com o problema da aceitação ou rejeição da informação, independentemente de sua validade semântica, por causa de possíveis conotações sociais associadas pelo receptor à forma da mensagem.

Esclarecemos que, em nossa concepção, existe bi-univocidade quando um signo tem um só sentido e vice versa, não em absoluto, mas única e exclusivamente em relação aos outros signos pertencentes ao mesmo sistema que ele, signos os quais também devem todos ser unívocos nessas mesmas condições. Com efeito, se admitirmos que, como não existe apenas um único sistema de signos isolado, e que sistemas diferentes, passados, atuais ou por vir, reutilizam no mínimo alguns dos mesmos signos individuais com sentidos diferentes, então não existe bi-univocidade absoluta, e tampouco criação ex-nihilo de sistemas de signos ou, como já o notamos, signos absolutamente isolados. Em linguística, tal reutilização corresponderia ao princípio de persistência: “algo do estágio x é mantido no estágio y […] que permite associar esses dois estágios, como dar equilíbrio ao sistema.” (LIMA-HERNANDES, 2012, p. 153). A supor que a noção de quantidade seja inata e traduzível sem perda, o sistema de signos específico que permite medir as trocas seria sempre histórico e sua prática é associada a grupos sociais mais ou menos poderosos que lhe conferem seu valor social.

Chrisomalis distingue a expressão numérica, essencialmente visual, e a lexical:

[…] ao passo que os numerais ocidentais podem ser estendidos ao infinito – pode-se acrescentar ad infinitum zeros à direita de um número – os numerais lexicais em inglês são apenas potencialmente infinitos, dado que é preciso forjar novas palavras à medida que se quer expressar valores cada vez maiores. O maior número na maioria dos dicionários ingleses é o decilhão.134(2010, p. 22)

Mas, ao contrário do que afirma Chrisomalis, não é preciso forjar indefinidamente novos numerais “lexicais” para poder expressar indefinidamente valores cada vez maiores. Basta usar recursivamente os numerais lexicais existentes: uma vez que tenho uma “expressão-numérica” para denominar a potência da base, posso reiterá-la um número infinito de vezes para expressar qualquer uma de suas potências. Por exemplo, no caso da base 10, cem são dez dezenas, mil são dez dezenas de dezenas, e assim por diante. Também é possível expressar qualquer número gigantesco proferindo seus algarismos um a um.

Uma análise mais cuidadosa evidencia que, no que diz respeito à numeração dita lexical, essa pode expressar uma infinidade de números teoricamente sem perda de sentido e sem requerer a introdução de novas palavras, e, no que diz respeito à representação visual, nada obriga que os números possam ser comunicados oralmente sem perda a não ser por questões de tempo ou facilidade de manipulação e memorização.

Não parecem sólidos os argumentos de Chrisomalis para sustentar que a comunicação dos números seja um problema de diferença entre expressão visual e lexical. Não se trataria de um problema exclusivo de alguma modalidade perceptual particular como a visão ou a audição135. Seria antes uma questão comunicacional mais geral e primordialmente prática: trata-se de comunicar qualquer quantidade com o máximo de facilidade de memorização, inter-compreensibilidade e eficiência, em suma, de comunicar de modo a facilitar as trocas em geral, ou de bens simbólicos, ou de bens “externos” mediados por símbolos.

Em reforço a nossa posição, observamos que um sistema numeral, que não é lexical mas visual, também pode exigir que sejam “forj[adas] novas palavras a medida que se se quer expressar valores cada vez maiores”: é o caso do sistema numeral romano. O sistema numeral romano possui, como o indo-arábico, a composicionalidade (embora seja mais complexo atribuir-lhe posicionalidade e pareamento regulares). Mas, como sempre introduz signos novos para expressar novos valores, não é absolutamente previsível: não é finita a classe de todos os algarismos que usa na expressão de todas as expressões-núméricas possíveis.

Notamos que do ponto de vista estritamente cognitivo, o sistema romano seria suficiente para a verificação introspectiva dos valores computados, mas não do ponto de vista da partilha dessa verificação, em sociedade, usando signos. É a previsibilidade absoluta da expressão do sentido que garante (no sentido de dar certeza, crédito, garantia) a intercompreensão do símbolo comunicado, e daí a maior certeza que a transação simbólica entre dois atores possa ser efetivada, e que o valor transmitido possa ser acumulado, sem sofrer perda quantitativa devida à transação.

Por isso afirmamos que é a troca simbólica, a prática da comunicação, que cria a necessidade de um novo sistema de signos específico, no caso um sistema de signos absolutamente previsível. É no quesito da maior previsibilidade, e não na diferença entre modalidade visual e lexical, que reside a especificidade dos sistemas binário, indo-arábico ou maia.

A previsibilidade opera, de passagem, um salto crucial rumo à automatização: o uso de uma classe finita de signos, os algarismos, para comunicar, seja visual ou lexicalmente, uma infinidade de expressões-numéricas cujo sentido é (teoricamente) sempre previsível, decifrável e por aí verificável pelo interlocutor, abre o caminho para uma concepção mecânica da comunicação da quantidade. Aqui, o algoritmo é aplicado não mais ao único conceito de número, mas ao signos que representam a quantidade. A representação de valores quantitativos ou estados, por um número finito de regras tanto quanto de símbolos (combinados ao infinito segundo uma mesma regra), além da posicionalidade, é a condição para se conceber uma máquina de estados finitos. Passamos aqui da necessidade estritamente semântica da regra que permite produzir uma verdade quantitativa, já plenamente satisfeita pelo sistema numeral romano, a uma necessidade dada pelo uso em comunicação, i.e. a possibilidade prática de se encadear, eventualmente acumular, indefinidamente, verdades quantitativas, (em teoria) absolutamente previsíveis em sua forma de expressão, sem outra intervenção que a do mecanismo, que nem humano precisa ser.

Do ponto de vista do sentido estrito, o resultado de uma operação (ou mais amplamente sentido entendido como valor de verdade) calculada com numerais romanos não é mais nem menos verdadeiro que se fosse usada a numeração indo-arábica. Deduzimos disso que o uso de um sistema em detrimento de outro não se deve a uma razão “pura”, mas a uma razão prática. O fato de o resultado ser obtido através de um ou outro sistema, ou ser devido a uma razão prática ou teórica, não mudaria a verdade quando esta é concebida como quantidade isolada, mas influi sobre o valor sócio-histórico, aceitação, circulação e acumulação da verdade como bem simbólico. A possibilidade de escolha entre diversos sistemas numerais possíveis não afeta a verdade produzida por um cálculo isolado, mas a retomada em massa (industrial) de resultados de outros cálculos, que o indo-arábico propicia, pode afetar a circulação, peso e impacto das verdades geradas por cálculos numerais, em relação a outros tipos de sistemas de valores usados nas tocas do conjunto de uma sociedade.

Desde que se admite isso, também há que se admitir que o conhecimento dos números, por mais introspectivo e cortado da interação que se o conceba, passa a ser mediado, estruturado, regrado e regularizado (de maneira aparentemente definitiva e absoluta, no caso dos sistemas de algarismos finitos) por sistemas de signos obtidos via trocas simbólicas com a sociedade e suas regras. E um certo uso de um sistemas de signos particular por certos atores também simboliza uma certa pertença – e posição – social que distingue esses atores, estruturando seus valores e seu ponto de vista sobre o mundo.

No mais, a mecanização do cálculo esvazia a mediação do corpo humano, mas apenas em aparência: instaura uma maior distância social, subtraindo-se ao contato direto com o corpo humano e por aí com aquilo que no humano é “corruptível” e mortal, ocultando de passagem o “impuro” interesse econômico, seja ele simbólico ou fiduciário, indissociável, na realidade, da atividade prática do cálculo. Por assim dizer, a mecanização “purifica” de uma passagem pelo profano corpo humano o encadeamento de verdades, ao mesmo tempo que apaga sua dimensão efetivamente econômica. Ao ocultar a mediação do corpo na produção de verdades quantitativas, a mecanização faz as trocas se situarem no espaço sagrado da atemporalidade, além de as fazer passarem por operações e produtos de uma razão “pura”.

Na CI e em particular na CC, tais questões remetem ao problema nodal da acumulação do conhecimento: do ponto de vista econômico, mais especificamente da economia simbólica, tais sistemas permitem comunicar e acumular o conhecimento de quantidades sem nenhuma perda –  pelo menos ideal e/ou teoricamente. Do ponto de vista da hierarquia social, apresentam esse tipo de verdade como um valor superior, situado acima e fora da sociedade “mortal” humana, com suas perdas, interesses e conflitos irremediáveis.

Chrisomalis levanta em seguida uma discussão sobre a eventual superioridade de algum sistema numérico em relação aos demais, o que descarta: “A eficiência de qualquer tecnologia só pode ser avaliada em vista dos propósitos para a qual foi desenvolvida e/ou usada. Não há portanto padrão abstrato e eterno de eficiência para nenhuma tecnologia.”136 (2010, p. 30)

Ao mesmo tempo que Chrisomalis recusa o que seria uma posição positivista que levaria a uma ideologia de superioridade tecnológica, ele subentende que a concepção numeral pode ser totalmente independente da tecnologia usada para expressá-la, ou de alguma finalidade particular.

Podemos perguntar se é possível conceber um computador, máquina imprescindivelmente recursiva, que não use signos de antemão todos conhecidos e predefinidos com um sentido único e fixo, e daí se é possível conceber e mecanizar certos cálculos sem necessariamente usar sistemas em que é praticada a redundância pré-regrada de uma quantidade finita de signos, retomada e combinada indefinidamente, para representar todos os valores possíveis que manipulam e produzem. Se certos cálculos só puderem ser feitos dentro dessas condições, então não é possível dissociar ou opor em absoluto a técnica (ambas a escrita e a palavra sendo técnicas de comunicação) ou tecnologia do cálculo matemático, como o subentende Chrisomalis. O pensamento matemático nunca poderia ser completamente dissociado de sua prática comunicacional com tudo que ela implica.

Por fim, usar sempre os mesmos signos, repetindo-os infinita e eternamente, para representar qualquer valor de um sistema, não obedeceria unicamente a necessidades objetivas e práticas em si. Atenderia também a um ideal de comunicação sem perda de conhecimento, que nada mais é que a recepção da alma incorruptível, eternamente idêntica a si mesma, conforme Platão a apresenta no triálogo do Mênon (cf. 4.1.6). Trata-se nos fatos de um ideal de gestão social, econômica e política, que se realiza através da seleção de um único sentido/valor para cada signo, e da redução dos signos individuais aceitos na comunicação a uma quantidade finita e predefinida, a fim produzir um consenso e por aí uma ordem social preexistente e indiscutível.

Sistemas de notação como o binário, o indo-arábico ou o maia, parecem ser os que melhor concretizam a teoria implícita, de cunho econômico e prático, segundo a qual quanto maior a previsibilidade de um sistema de signos, menor a perda de valor dos signos e maior a eficiência da comunicação racional da quantidade, e maior a acumulação de valores racionais. Por fim, maior a capacidade de produzir e reproduzir valores verdadeiros, que regrem e legitimem, da forma menos contestável possível, a ordem social. Essa teoria implícita subjaz ao ideal mecânico de comunicação. Veicula, além disso, um ideal – ideologia? – de perfeição, naturalidade e também de superioridade moral da razão “puramente” quantitativa.

Observemos, enfim, que a postura teórica no que diz respeito à prova matemática que adotamos nessa tese corresponde a grosso modo à uma das duas concepções modernas, a cartesiana (intuicionista, nos termos de Vuillemin), que Ian Hacking opõe à leibniziana (dogmática, nos termos de Vuillemin):

O raciocínio geométrico é apenas o começo do estilo de pensamento matemático [na classificação de A. Crombie]. Esse estilo teve sua mais significativa extensão quando incorporou o raciocínio combinatório e algorítmico, contribuição dos matemáticos árabes. Duas concepções da prova emergem dessa consolidação. A primeira, a que chamo cartesiana, implica a possibilidade de uma demonstração que repousa na intuição e na compreensão da verdade. A outra, a que chamo leibniziana, implica a possibilidade da verificação da prova pelo cálculo e a aplicação dos algoritmos. Isso nos leva ao fenômeno de que fala Wittgenstein quando nota que « as matemáticas são uma mistura matizada de técnicas de prova. » Debate-se atualmente se as provas que exigem recorrer a computadores são verdadeiras demonstrações. É um conflito entre duas concepções : a concepção cartesiana responde não e a leibniziana responde sim.137 (HACKING, 2005-2006, p. 417)  

No que diz respeito à intuição, na física atual não-cartesiana, é ambígua, como vimos com Bachelard (cf. 1.4). Para ele, a intuição cartesiana, que atribui simultaneamente ao objeto físico uma unidade imediata e uma existência definitiva, é abandonada em prol de um constante processo de objetivação de uma realidade plural, cuja existência exige escolha e construção explícitas para ser provada.

O problema é saber se essa construção discursiva pode ser feita inteira e exclusivamente em uma linguagem matemática puramente racional. Caso sim, o “caráter social da prova” (BACHELARD, 1934, introdução) não tem nenhuma consequência sobre a verdade científica, que seria então puramente racional; caso contrário, a verdade científica é uma construção sócio-histórica, com suas particularidades, que deixa inevitavelmente as marcas (máculas?) do ator sobre seu objeto de conhecimento, como qualquer outra verdade impura, por assim dizer.

Poderíamos dizer que, para Leibniz, a questão da construção do objeto matemático nem se coloca: a linguagem matemática é o que faz existir a realidade como verdade, e todos os valores computáveis possíveis existem necessariamente, independentemente dos fatos. Ele atribui uma existência autônoma à verdade matemática. A esse título, Vuillemin classifica como “dogmática” a posição de Leibniz (BOUVERESSE, 2012, aula 20, §5-6).

Em consonância com os propósitos supracitados de Hacking sobre a capacidade de os computadores produzirem verdades científicas, a ideia que qualquer valor matemático possível existe necessariamente, inclusive aqueles computados automaticamente, valeu a Leibniz a sagração de “Santo Padroeiro” da Cibernética (MATTELART, 2006, p. 11-12).

Mas, se levamos em conta os fatos, i.e. a computação efetiva, então o pressuposto de Leibniz não é verdadeiro. Melhor dizendo, sua validade é limitada a certos conjuntos particulares de números, como o descobriu o matemático Mandelbrot: quando calcula certos conjuntos de números (em francês  “nombre borné”, em inglês “bounded number”) um algoritmo produz resultados imprevistos, desconhecidos, resultados que portanto não são verdadeiros relativamente ao sistema que os gerou (BERLINSKI, 2009[2004], p. 117). Isso refuta o determinismo absoluto de Turing.

Ao contrário de Leibniz, em Descartes, a existência não é absolutamente autônoma ou mecânica: depende em última instância da intuição humana de Deus. Mas essa intuição, por ser inata, racional, é tida como uma pré-construção objetiva em si, e por isso dispensa a construção explicitamente discursiva do unidade do objeto. Em Descartes, a verdade matemática existe relativamente à intuição humana, mas como esta começa pela intuição de Deus, exclui-se que seja puramente mecânica, consoante os propósitos de Hacking citados acima.

Parece-nos contudo que essa intuição cartesiana já era ambígua, justamente no que diz respeito à linguagem científico-filosófica, sobre a qual Descartes deixa pairar a dúvida se é uma ação humana ou divina. Se for uma ação humana, a linguagem é mecânica, e o conhecimento humano é absolutamente agido por Deus através dela. Se for uma ação divina, o Criador estende-se, através da intuição, ao ser da linguagem; então, ao tornar-se plenamente ator da linguagem, o humano também torna-se criador desta, arriscando em última instância usurpar o poder absoluto de Deus (ou pior: usurpar o poder absoluto do monarca de direito divino).

Na física não-cartesiana atual, tal como é apresentada pela epistemologia bachelardiana, a linguagem da prova matemática, heterogênea e declarada inata, admite simultaneamente que a intuição é ambígua e que vários pontos de vista possam construir uma pluralidade de verdades contraditórias entre si, embora individualmente unívocas – o que é inaceitável na linguagem da lógica clássica, unificada por suas regras de identidade e não contradição holísticas. (Por isso, como nota Vuillemin, intuição matemática e construcionismo não são automaticamente associados (BOUVERESSE, 2012, aula 20, §5-6)).

Embora segundo Bachelard ambas a intuição e a construção sejam necessárias para se provar a existência do objeto de conhecimento da Física, o epistemólogo considera que a existência dos signos usados para demonstrar a verdade matemática são uma realidade biológica, natural, portanto incontraditável. Bachelard subentende então que a linguagem matemática da Física, ao contrário do objeto de conhecimento dessa, não é construída socialmente; por isso, a existência e unidade da linguagem matemática da Física não precisam ser discursivamente provadas, validadas pelos pares.

Em suma, nem Leibniz, nem Descartes e nem Bachelard consideram que a linguagem da ciência seja problemática em si. Sempre a apresentam como a solução e condição da unidade. Não seria essa uma solução que serve menos a razão pura que a necessidade política de os cientistas aparentarem um grupo homogêneo, unido por práticas sociais inquestionáveis?

Se considerarmos que os próprios signos da linguagem matemática não são exclusivamente uma realidade biológica e autônoma, mas também social, com tudo que isso implica, então sua existência é a de um objeto de conhecimento construído, contraditável, que requer explicitação discursiva para ser cientificamente justificado e controlado, sob pena de meramente 'fazer um social'.

Pitágoras postulava a origem divina, senão mítica, e portanto anistórica, das eternas entidades matemáticas. Essa posição caracteriza a concepção dogmática na matemática. Platão, embora declarasse sua adesão ao pitagorismo, já inquiria as ontologias matemáticas pitagóricas: o que são números, pontos e linhas? (VUILLEMIN, 1986, p. 104).

Teremos que esperar a segunda metade do século 19 para se ter uma definição dos números. Foi fornecida pelo filósofo e logicista Frege, um dos fundadores da chamada Nova Lógica (CARNAP, 1959[1930], p. 134-135), a que aderiu o Círculo de Viena:  “O número é propriedade não de um objeto, mas de um conceito: ser satisfeito por tais objetos”.138(POPELARD; VERNANT, 1998, p. 32). Ou seja, com Frege, o número deixa de ser uma realidade em si, absoluta, aceita como algum dogma científico, para se tornar a propriedade de uma representação conceptual da realidade. (HABERMAS, 1997, p. 26-28)

Mas isso não muda o problema de saber se o conceito, por sua vez, deve sua existência a uma aptidão racional absolutamente inata, biológica, i.e. se o conceito é uma realidade cognitiva absoluta, autônoma, não construída e incontraditável, tanto aliás quanto a linguagem usada não apenas para representar o conceito mental e internamente (um “mentalês” que dispensa qualquer passagem pelo social), mas também comunicá-lo “externamente” afim de prová-lo discursiva e socialmente como verdade científica.

Tendo em vista as posições teóricas que passamos em revista até agora, e em particular se aceitamos com Bachelard que a prova científica depende necessariamente do controle social dos pares, social que por sua vez é construído através de representações sóciossimbólicas estruturantes, e assumimos com Bourdieu todas as consequências sociológicas dessas pressuposições, então a verdade explícita, desde a menos até a mais formal, inclusive matemática e lógica, nunca é pura e exclusivamente racional, unificada e homogênea. É sempre construída, em sua existência social, com o uso de sistemas formais e numerais datáveis, cujos recortes em unidades são escolhidos e particulares, e por isso nunca isenta das marcas sócio-históricas de seus atores.

Em suma, quando se considera, contra Leibniz, que a matemática não é uma prova de existência necessária e suficiente, e contra Descartes, que tampouco o é a intuição imediata, natural, racional, pré-recortada, unificadora e unívoca, do objeto pelo sujeito, e, enfim, contra Bachelard, que não existe unidade de linguagem matemática puramente intuída (ou puramente biológica), então exige-se que se construa discursiva e socialmente o objeto “número”, e por aí que se o explicite como divisão e unidade particulares, usando-se inevitavelmente, para tanto, linguagem não matemática ou não formalizada, o que aliás não é sinônimo de linguagem irracional.

A existência do número passa então a ter uma origem não mais na crença absoluta em um ser divino, de tradição pitagórica até onde sabemos, mas uma origem relativa ao discurso humano, cujas unidades de troca não são dadas a priori, e, por aí origem histórica, a qual não é predeterminada (e nem predestinada como no mito), mas concebida como um feixe de possíveis numa sociedade.

Bachelard escreve: “A palavra perdeu o seu ser; ela é o instante de um sistema semântico particular.” (1978[1940], p. 80). Diríamos que essa “palavra” –  bem como os números –, entendida aqui como enunciado e prova, não perdeu sua verdade; perdeu apenas o absolutismo de seu ser cognitivo, objetivo, atemporal e unívoco, existente a priori numa dimensão espaciotemporal considerada única, invariante e absolutamente unificada. A perda desse absolutismo instaura uma separação entre, por um lado, a verdade una, puramente cognitiva e “interna” (a verdade unificada da Lógica com suas regras semânticas e identidade e não contradição), e por outro a verdade múltipla, produzida através dos sistemas de signos “externos” da linguagem matemática, individualmente verdadeiros embora contraditórios entre si.

Isso implica que o sentido, a prova e a verdade percam seu estatuto de substância e por aí sua autonomia e universalidade absolutas. Passam a ser relativos a uma linguagem particular, não àquela linguagem inata que se confunde com algum sistema cognitivo biológica e formalmente pré-estruturado e pré-segmentado, mas a linguagem de signos usada para trocar socialmente valores numéricos, simultaneamente construída nas dimensões do espaço-tempo e construtora ativa destas.

A palavra-enunciado adquire assim um estatuto de ser ambíguo, relativo à posição social de seu enunciador (cientista ou não) e ao momento sócio-histórico do sistema semântico que usa. Sistema semântico o qual deixa de ser necessário em si, ou puramente formal; e, quando o é minimamente, é sempre devido a alguma construção histórica de atores-enunciadores humanos no que seria um espaço social com uma pluralidade de dimensões (resultantes do entendimento, pressões e/ou conflitos sociais), cada qual com sua prática particular da razão, a que Bourdieu chamaria campos 139, entre os quais o campo científico.

Nessa perspectiva, por fim, a verdade científica não age por força própria ou por alguma força intrínseca ou imanente das palavras que a expressam, mas relativamente ao poder dos diversos pares de exercerem seu controle e aceitação social, com as regras particulares de validação que são – ou deveriam ser – primordialmente aquelas racionalmente construídas pelos cientistas (o que não exclui as pressões permanentes de valores ou razões de outros campos que o científico, e que podem inclusive prevalecer).

Vale esclarecer, por fim, que a noção de campo, embora recuse entidades absolutas em si ou substâncias, aceita uma autonomia relativa das verdades particulares válidas entre atores de certos grupos. Isso exclui que seja aceitável usar, por exemplo, argumentos sociológicos para invalidar ou recusar o resultado de um cálculo matemático considerado estrita e isoladamente.

Assim, por mais que possam depender de capacidades genéticas ou de mecanismos cognitivos autônomos em relação à sua comunicação, os sistemas numerais não escapam, enquanto sistema de signos e expressão de valores partilhados em sociedade, ao uso, datado na história e distintivo de certos grupos, de uma prática particular de comunicação e de prova.

Os sistemas de notação numeral seriam, como qualquer outro sistema sóciossimbólico, não uma estrutura objetiva, rija, acabada, definitiva, última e perfeita, mas uma “estrutura estruturante” (BOURDIEU, 2004[2001], p. 109). Distinguem-se dos outros sistemas sóciossimbólicos por participar de forma dinâmica da particularização, construção, circulação, reprodução e história do conhecimento e de todas as dimensões simbólicas quantificáveis da sociedade. Os sistemas de notação lógico-matemática são construções sócio-históricas, especificamente dedicadas à produção e comunicação de verdades quantitativas e/ou lógicas, sempre indissociáveis de uma pluralidade de valores (por sua vez não necessariamente quantificados, quantificáveis, ou verificáveis racionalmente) além daquele estritamente lógico e/ou matemático.

Mencionemos, por fim, que certos autores, como Richard C. Brown (2009), recusam categoricamente que as ciências e as matemáticas sejam socialmente construídas.

Em suma, nossa posição é que os sistemas de comunicação da quantidade, nos quais se incluem as notações numerais, podem e devem legitimamente ser incluídos entre os objetos contemplados pelo presente estudo sobre linguagem e DC.

3.6.2Abordagem sócio-histórica

Em concordância com nossa abordagem da comunicação da quantidade, adotamos para a história das ciências em geral a perspectiva sócio-histórica.

Fazemos nossas as asserções do livro “The Scientific Revolution” (A Revolução Científica) do historiador Steven Shapin140 (1996). Shapin parte da assunção que “a ciência é uma atividade situada social e historicamente, que deve ser compreendida em relação aos contextos em que ocorre.”141 (1996, p. 9). Por isso, sua história deve abranger não apenas as ideias como também a dimensão coletiva daqueles que a praticam: “a tarefa do historiador voltado para a sociologia é apresentar o fazer e a detenção do conhecimento como sendo processos sociais”.142(1996, p. 9) No que diz respeito a uma ciência ou racionalidade que existiria fora da sociedade e da história, ele corrobora nossas posições teóricas, apoiadas em Bourdieu, que apresentamos na seção 2.3 quando comentamos a teoria do Ator-rede de Callon e Latour:
[…] identificar o que é sociológico na ciência com o que é externo a essa parece uma forma curiosa e limitada de proceder. Há tanta sociedade dentro do laboratório do cientista, e interna ao desenvolvimento do conhecimento científico, quanto há fora dele.143 (SHAPIN, 1996, p. 10)

Tendo aceito esses pontos, mencionemos as três oposições que, segundo o filósofo Jean-François Braunstein (2008, p. 87-103), marcam a história das ciências e das quais comentaremos apenas a última: internalismo/externalismo, whiggismo/presentismo/historicismo, continuísmo/descontinuísmo.

O gênero da história das ciências144, afirma Georges Canguilhem (1989[1968], p. 51-58)145, foi inaugurado por Fontenelle, como também, coincidentemente, segundo diversos autores, o da DC. Houve histórias das ciências anteriores, como a da Royal Society do reverendo Thomas Sprat, de 1667146, mas não eram gerais como a do francês – nem, vale mencionar, periodizadas, a periodização sendo um critério definitório da revista científica (MEADOWS, 1999, p. 8).
O descontinuísmo já está presente nos escritos do também 1º secretário da Academia de Ciências francesa em seu “Prefácio sobre a utilidade das matemáticas” (“Préface sur l'Utilité des mathématiques...”) (FONTENELLE, 1699, p. 4-13) e discurso preliminar dos “Eloges des Académiciens avec l'Histoire de l'Académie Royale des Sciences”147. Michel Foucault cita um trecho desse texto cujo final salienta, com muito propriedade para nossa tese, a relação entre história e divulgação.
[Fontenelle] retomou primeiro o tema da “descontinuidade”. Velho tema que se delineou muito cedo, a ponto de ser contemporâneo, ou quase, do nascimento de uma história das ciências. O que marca essa história, já dizia Fontenelle, é a formação súbita de certas ciências « a partir do nada », é a rapidez extrema de certos progressos […] é a distância que separa os conhecimentos científicos do “uso comum” 148 (FOUCAULT, 1978, sem paginação)

O fato de os cientistas se tornarem objeto de um história particular reforça tanto sua instituição como grupo distinto quanto, reciprocamente, a do leigo, relegado em outro tempo, dessincronizado da verdade racional pelo uso e senso comuns.

Quanto às revoluções, Fontenelle já as augurava como inevitáveis:

A história não fornece em toda sua extensão exemplos de virtude nem exemplos de virtude nem Regras de conduta. Fora disso, é só um espetáculo de revoluções perpetuais, de nascimentos e quedas de impérios, […] que arrasta tudo e muda continuamente a face da terra (FONTENELLE, 1699, p. 8)149

Na contemporaneidade, Thomas Kuhn pode ser citado entre os representantes do descontinuísmo. Sua abordagem interessa-nos porque, como Price (1963, p. 64-65), destaca a acumulação do conhecimento, aproximando-se da problemática da reprodução simbólica que consideramos central na CI. Kuhn sugere que a reprodução simbólica da sociedade não significa apenas reprodução literal, mas também, imprescindivelmente, rupturas inovadoras que levam à “violação ou distorção”  do sentido normal e puramente formal (1987, p. 21). É compatível com nossa concepção da linguagem científica: para Kuhn, a superação das rupturas entre pares causadas pelas revoluções científicas passa pela linguagem e a ambígua metáfora. Metáfora que é um dos traços característicos da obra de Fontenelle considerada pioneira da DC, “A pluralidade dos mundos” (1686), como o nota Marie-Françoise Mortureux (1971)(1991), bem como no gênero de DC em geral. Kuhn chega até a identificar as grandes mudanças com momentos em que a ciência se torna mais acessível ao público:

Na dinâmica, a pesquisa tornou-se igualmente esotérica nos fins da idade Média, recapturando sua inteligibilidade mais generalizada apenas por um breve período, durante o início do século XVII, quando um novo paradigma substituiu o que havia guiado a pesquisa medieval. (KUHN, 2009[1962/1970], p. 41)

Mas, se a Ciência não desce até o cidadão, esse ainda pode subir até ela. A mudança de paradigma pode ser acompanhada de mobilidade social (BOURDIEU, 2001, p. 126): os valores das ciências “baconianas” (KUHN, 1977), que valorizam o contato com a realidade pela experimentação, contra a verdade exclusivamente livresca, favorecem a ascensão de classes antes desvalorizadas, como os alquimistas, associados inclusive à venalidade.

No que diz respeito aos continuístas, podemos citar o físico Pierre Duhem (1861 – 1916), que cunhou a “sub-determinação da teoria pelos dados”, reelaborada por Latour e Callon sob o nome de “tese Duhem-Quine”. Mas nos referiremos sobretudo a Alistair Crombie, através do filósofo e historiador das ciências Ian Hacking. Crombie, autor da obra “Styles of Scientific Thinking in the European Tradition” (1995), apesar de continuísta, foi discípulo de Alexandre Koyré, outro “revolucionário” contemporâneo e um pouco anterior a Kuhn.

No trecho abaixo, Ian Hacking condensa o propósito de Crombie além de nos apresentar um panorama dos quadros de análise atualmente em curso na História da ciências:

Recapitulamos, acrescentando algumas modificações e clarificações, a teoria dos estilos de pensamento da aula de 2003. Na lista original de A. C. Crombie constavam os estilos de pensamento seguintes:
1. O método por demonstração e de derivação das consequências dos postulados, em matemática.
2. A exploração e a medida experimental de relações observáveis mais complexas.
3. A construção por hipótese de modelos analógicos.
4. A ordenação do diverso pela comparação e a taxonomia.
5. A análise estatística das regularidades nas populações e o cálculo das probabilidades.
6. A derivação histórica própria ao desenvolvimento genético.

Na verdade, o conceito de estilo de pensamento científico de
Crombie (1978, 1994) é um exemplo entre muitos outros quadros de análise encontrados na história, sociologia e filosofia das ciências. Não exclui os demais: cada qual tem um objetivo próprio. Discutimos o valor e a utilidade, por exemplo, dos conceitos de Denkstil e Denkkollectif (Ludwik Fleck, 1935) ; conjetura e refutação (Karl Popper, 1935) ; obstáculo epistemológico, corte (Gaston Bachelard, 1938); paradigma, anomalia, crise, ciência normal (Thomas Kuhn, 1962) ; episteme, formação discursiva, enunciado, arquivo (Michel Foucault, 1966, 1969) ; programa de pesquisa (Imre Lakatos 1970) ; temata (Gerald Holton, 1978) ; actante — rede (Bruno Latour, 1980) ; e o « interesse » da escola de Edimburgo (nos anos 1980). Mantemos um certo ecletismo, usando cada um desses quadros por seus objetivos próprios. (HACKING, 2005-2006, p. 417-418)150

Nos apoiaremos na história das ciências em particular para indagar se a concepção de linguagem científica influi sobre a continuidade ou a descontinuidade da acumulação de conhecimento. Como a lógica é considerada por Crombie não como um estilo particular, mas como um constituinte constante da ciência, e que essa mesma lógica é baseada em regras linguísticas explícitas, então temos reunidas as condições para analisar ao longo da História das ciências, desde a Antiguidade até a atualidade, as diferenças de linguagem tanto intra-pares quanto extra-pares.

3.7Classificação de conhecimento, “tipos naturais”, univocidade e segmentação

Admite-se geralmente que as primeiras iniciativas de classificação natural remontam à Aristóteles e à sua noção de categoria151. Segundo o historiador das ciências Geoffrey Lloyd, especialista da Grécia Antiga, dois problemas resistem ao filósofo na concepção dos “tipos naturais”:
Primeiro, quando [Aristóteles] inicia suas obras de zoologia, as definições dos tipos naturais particulares que ele contempla são, na realidade, muito mais complexas que a fórmula clara que aplicou facilmente aos argumentos do silogismo, do tipo “o homem é um animal racional de duas pernas”. Pior ainda (embora esse ponto seja mais controvertido): o requisito de univocidade dos termos, essencial para toda sua lógica formal, e que é pressuposto em seu conceito de demonstração, é fortemente questionado na prática por suas indagações zoológicas. Por exemplo, um termo como “bípede” é “dito de muitas formas”, já que a bipedalidade dos pássaros não é a mesma que a dos humanos. O mesmo ocorre com “concocção sanguínea” e muitos outros termos fundamentais da biologia, que não passam no teste da univocidade […]. Se a demonstração ainda permanecia um ideal na zoologia, era um ideal que retrocedia à medida que avançavam os estudos zoológicos de Aristóteles.152 (LLOYD, 1990, p. 88-89)

Pelo que escreve Lloyd, a problemática da categorização apresenta-se, de partida, como um problema indissociavelmente cognitivo e linguístico, cujo nó encontra-se na univocidade, quebrada no caso da categoria “bípede”.  Aristóteles deparou-se com dificuldades que já indicavam que a univocidade é um ideal linguístico, a que ele não logrou reduzir o conhecimento da Natureza. O modelo piramidal de suas categorias não deu conta de representar univocamente o mundo animal.

Os gêneros animais, apesar de uma multiplicidade de formas, são concebidos pelo filósofo como categorias estanques, imutáveis, substâncias corpóreas que existem absolutamente separadas umas das outras, embora partilhem uma mesma essência incorpórea. Cada categoria, fundada em univocidade absoluta, só pode ser pensada como eterna reprodução isolada e ao idêntico. Isso exclui que alguma mudança de forma permita passar de uma categoria para outra, portanto que novos seres possam resultar das variações quantificáveis de substâncias existentes. Sendo a aparência considerada uma propriedade apenas acidental e externa da substância, não poderia ter nenhum efeito sobre esta.

Além disso, a concepção hierárquica da categorização depara-se com a falta de determinismo exclusivo na relação forma-função. No caso de “bípede”, uma mesma função (deslocar-se) pode ser preenchida por formas diferentes (pés, asas) e vice-versa (nota-se que a problemática forma-função manifesta-se na análise da língua em categorias gramaticais, categorias consideradas absolutamente estanques até recentemente, quando se passou a explicar a criação de certas palavras pela fusão entre palavras de categorias diferentes, através do mecanismo de gramaticalização (LIMA-HERNANDES, 2011, p. 17)).  

No século 19, Charles Darwin usa uma árvore filogenética para representar sua teoria biológica da evolução das espécies. Esta soluciona a aporia da classificação zoológica piramidal de Aristóteles, explicando a criação das espécies pela quebra do isolamento absoluto da categoria aristotélica: a Teoria da Evolução concebe a diferença, no caso a variação biológica (e morfológica), como uma possível transição (mais ou menos abrupta) geradora de novas categorias de seres.

O uso da metáfora, recurso cognitivo-linguístico que permite relacionar e até mesmo mesclar elementos pertencentes a categorias (ou domínios) distintas, portanto passar de uma categoria cognitiva (ou sistema conceitual) para outra, foi condenado na Ciência desde Aristóteles153 até muito recentemente154. Com Darwin, o “tipo natural” aristotélico deixa de existir como essência pura para se tornar o resultado de uma evolução e seleção “naturais” (podemos nos interrogar sobre o sentido atual de “natural”, uma vez que parte da seleção genética se deve hoje a uma ação baseada em conhecimento humano adquirido e construído, i.e. que não é predeterminado geneticamente).
Para Ian Hacking, filósofo e também historiador das ciências, autor de uma história das estatísticas155(1975), não existem “tipos naturais”. Segundo ele, a dimensão classificatória surge em um contexto propriamente científico apenas com o estilo nº 4 de Crombie, “A colocação em ordem do diverso pela comparação e a taxinomia.” ((HACKING, 2005-2006, p. 417-418) supracitado). Hacking afirma:
[…] certas classificações são mais naturais que outras, mas não existe nada que se pareça com um tipo natural. Na linguagem das classes, não existe classe bem definida ou definível cujos membros seriam unicamente tipos naturais e nada mais. Igualmente, não há classe “fuzzy”, vaga ou simplesmente aproximada, que seja útil em um projeto filosófico ou científico reconhecido e que mereça ser chamada a classe dos tipos naturais.156 (HACKING, 2005-2006, p. 423)

Ou seja, a classificação nunca é unicamente natural, articula sempre várias dimensões, entre as quais focamos aqui a linguageira. Não existiria classe puramente natural, seja ela linguística, cognitiva, social e até mesmo física ou biológica.

Entendemos a posição de Hacking como a adesão às teorias que escolhemos até o momento, que não admitem segmentação de sentido inatas ou a priori, e tampouco categorização cognitiva ou social a priori. Não há evidência que permita afirmar a existência de uma verdade científica “pura” ou absolutamente determinada pela Natureza; e tampouco pelo “puro espírito”.

Para terminar, citaremos novamente Bourdieu, cuja teoria social da classificação oferece pistas para articular essas diversas dimensões e apreender a gênese do “tipo natural”:

Para romper com a ambição, que é própria das mitologias, de fundar na razão as divisões arbitrárias da ordem social, em primeiro lugar a divisão do trabalho, dando assim uma solução lógica ou cosmológica para o problema da classificação dos homens, a sociologia deve tomar como objeto, ao invés de deixar-se tomar por ela, a luta pelo monopólio da representação legítima do mundo social, essa luta pelas classificações que é uma dimensão de qualquer tipo de luta de classes: classes etárias, classes sexuais ou classes sociais. A classificação antropológica distingue-se das taxionomias zoológicas ou botânicas pelo fato de os objetos que ela põe — ou repõe — em seus lugares serem sujeitos classificantes. Basta pensar no que aconteceria se, como nas fábulas, os cachorros, as raposas e os lobos tivessem voz no capítulo relativo à classificação dos caninos e aos limites aceitáveis de variação entre os membros reconhecidos da espécie (BOURDIEU, 1994[1982], p. 11-12)

A aplicabilidade da teoria bourdieusiana do capital simbólico, em específico cultural, à organização do conhecimento, é atestada por Peter Burke em sua “Uma história social do conhecimento” para o estudo da “organização do saber entre 1450 e 1750” (2003[2000], p. 38): “[…] o exemplo das instituições de saber no princípio da Europa moderna parece confirmar […] as ideias de Bourdieu sobre a reprodução cultural”. (2003[2000], p. 51)

Na comunicação da classificação, o ato de nomeação, cuja eficácia não é puramente linguística, como o sugerimos abaixo, seria decisivo. E o uso de nomes unívocos é aquilo que, teoricamente, garante que uma classificação possa ser comunicada sem perda da relação verdadeira entre seus elementos.

Os conceitos da sociologia de Bourdieu (campo, habitus, capital econômico, social, simbólico, científico e linguístico, entre outros) são centrais em nossa pesquisa porque nos permitem articular em torno de uma mesma entidade, o ator, as diversas dimensões simbólicas que nos interessam: as classificações social e cognitiva, coordenadas pelo ato linguístico da nomeação.

A interação simbólica dar-se-ia no que Bourdieu chama de luta de classificações. Nessa, a probabilidade de um ator conseguir impor aos outros sua segmentação simbólica do mundo, coordenando as dimensões linguística, social e cognitiva, depende de sua posição no campo social, portanto de seus capitais. A abordagem pela reprodução simbólica permite interligar os atores em pauta, cientistas e não cientistas, sem unidade ideal nem, inversamente, diferença incomensurável, como também as diversas atividades, disciplinas e áreas que de outra forma permaneceriam ininteligíveis em seu conjunto.

A abordagem reflexiva de Bourdieu convida-nos, enfim, a monitorar constantemente as tendências sócio-cêntricas (especificamente cientifico-cêntricas) particularmente danosas no estudo da DC.

A ciência social lida com realidades já nomeadas, já classificadas, portadoras de nomes próprios e nomes comuns, títulos, signos, siglas. Sob pena de retomar para si, sem sabê-lo, atos de constituição cuja lógica e necessidade ela ignora, ela deve tomar como objeto as operações sociais de nominação e os ritos de instituição através dos quais esses atos são cumpridos. Mas, mais profundamente, precisa examinar a parte que cabe às palavras na construção das coisas sociais; e a contribuição que a luta de classificações, dimensão de toda luta de classes, traz à constituição das classes, classes etárias, classes sexuais ou classes sociais, mas também clãs, tribos, etnias ou nações.

Tratando-se do mundo social, a teoria neo-kantiana que confere à linguagem, e mais globalmente às representações, uma eficácia propriamente simbólica de construção da realidade, é perfeitamente fundada: ao estruturar a percepção que os agentes têm do mundo, a nomeação contribui a fazer a estrutura desse mundo. Quanto mais amplamente reconhecida, i.e. autorizada, mais profunda é a contribuição da nomeação. Não há agente social que não pretenda, na medida de seus meios, a esse poder de nomear e de fazer o mundo nomeando-o […] 157(BOURDIEU, 1982, p. 99)

Ian Hacking aceita, à exemplo de Crombie, que a lógica é a constante da ciência, e que os estilos científicos se acumulam. Ele sugere que seja examinado o que explica a estabilidade do conhecimento, ponto que merece ser revisitado uma vez que, com a queda do positivismo lógico, o foco tem sido as rupturas. A esse título, a linguagem, por ser um elemento constante na produção, circulação e validação do conhecimento científico, deve ter papel importante na estabilização do conhecimento, e até mesmo na própria possibilidade de acumulação de estilos de que fala Crombie.

Para além disso, a linguagem científica não é apenas a lógica, conjunto das regras básicas de todo raciocínio científico básico, mas também, indissociavelmente, uma técnica ou método de acumulação de conhecimento – idealmente reprodução de conhecimento sem perda; não apenas um método, mas uma hipótese implícita de reprodução simbólica ideal. A reprodução começaria pela segmentação do discurso em unidades unívocas – muitas vezes renomeadas segundo as normas da linguagem científica – que passam a poder ser encadeadas e contabilizadas teoricamente sem perda (junto com os encadeamentos da lógica, a notação matemática já pré-segmentada e pareada oferece uma alavanca importante para a quantificação precisa da acumulação). Essa segmentação, que se apresenta como universal, seria de fato uma prática social específica dos cientistas, que dificulta para o “leigo” o reconhecimento dos termos implicados na relação de verdade do enunciado científico.

Supomos que a identificação clara desses segmentos terminológicos facilitaria a compreensão dos enunciados científicos pelo leigo. A verificação deve ser feita na forma de um sistema de Recuperação de Informação. O teste compara os resultados obtidos por dois grupos de “leigos”, uns a quem o sistema propõe unidades devidamente pré-recortadas (por humanos especialistas), e o outro não. Supomos que as unidades visadas pelo enunciado científico são tornadas perceptíveis para o leigo, ele terá mais chance de descobrir o conjunto ciência que está por trás dos enunciados científicos.

A centralidade do problema da segmentação na compreensão do enunciado científico não apenas pelos leigos, mas pelos próprios pares, é confirmada na atualidade pela análise de extenso corpus feita pelo sociólogo Donald Hayes (1992), corroborada por (GROSS; HARMON; REIDY, 2002, p. 171). Hayes mostra que a maior mudança sofrida pelo gênero científico desde 1665, que culmina em meados do séc. 20, foi a chamada complexificação lexical. Nessa, o sintagma nominal aumenta em grandes proporções, dificultando a segmentação do que é termo (nomeação de elemento verdadeiro) e não é. (Pode estar em jogo aqui a explicação da explosão da informação dos anos 1950 que não correspondeu segundo Price a nenhuma variação no crescimento exponencial da ciência; poderia tratar-se então de uma explosão da complexidade lexical.)  

Além disso, Hayes fornece-nos um método de análise e medida da dificuldade lexical dos textos, com base nos dados linguísticos reais de um corpus, que pode servir de indicador para a DC (e para a CC como ele mesmo já o mostrou em seus estudos). O método foi implementado na forma de um programa que aplicamos a análise de textos em português após constituirmos um corpos a partir de mais de cerca de trezentos e sessenta mil artigos de periódicos generalistas.

3.8Recapitulação

No capítulo de preliminares, buscamos destrinçar a problemática da DC em toda sua complexidade e extensão. Dar conta da heterogeneidade da DC impõe abraçar as áreas mais diversas, cada qual com seus enfoques e pressuposições. Esses, não raro divergentes, para fins de coerência teórica de nossa tese, precisam ser explicitados, aprofundados e consolidados  área por área, começando pela CI. É o que propomos fazer nesse capítulo de pressuposições teóricas, que pretende fornecer sólidas para uma abordagem científica da DC.

Fundamentalmente, aceitamos com Capurro e Hjorland (1999) que informação é conhecimento “partilhado socialmente”. Resta saber o que se entende por “conhecimento”, “social” e como se dá a partilha.

No que diz respeito à linguagem em que se dá a partilha, recusamos junto com Capurro e Hjorland (1999) a concepção idealista. Essa pressupõe a preexistência de uma linguagem científico-filosófica, o que limitaria a “pré-compreensão-com-os-outros”  (1999) da ciência aos “outros” pares, excluindo os “outros” leigos. Leva-nos ao fim e ao cabo a preconceber e predeterminar, via formalismo linguageiro, os grupos sociais (e/ou étnicos) como partes de uma estrutura – tanto social quanto cognitiva – natural, imutável e eterna; denega, simultaneamente, a violência exercida, na prática (inclusive na prática discursiva), para impor a ordem social “ideal”, no caso de essa ordem não ser 'compreendida' de forma idêntica pelos filósofos-cientistas e pelos leigos. Tal concepção é incompatível com a DC porque recusa – ou denega – que a partilha social do conhecimento, e através dela as entidades sociais mais diversas, possam agir um mínimo sobre o entendimento e a própria linguagem, construindo-os segundo perspectivas e interesses particulares, desprovidos de objetividade intrínseca.

Em suma, qualquer abordagem que naturalize, substancialize, absolutize ou sacralize a compreensão da ciência e por aí de quem é cientista e quem é leigo, em particular através da linguagem que é nosso foco, desqualificaria uma reflexão de cunho científico sobre DC. O divulgador não é menos imune que o cientista à substancialização de sua atividade, que sempre o expõe, à sua revelia, a alimentar os mesmos preconceitos ou ideologias de superioridade que ele pretende, na prática, transpor. No plano cognitivo, a DC supõe a possibilidade de agir a posteriori sobre a compreensão das categorias que ela envolve na prática, a partilha de informação tornando-as um mínimo porosas, dinâmicas, indeterminadas.

A recusa de uma predeterminação cognitiva das categorias envolvidas na comunicação de DC reforça (e condiz com) a recusa da predeterminação biológica das mesmas, assertada no capítulo 2 de preliminares.

No que diz respeito à CI em específico, Capurro e Hjorland  (1999) fundam-se em noções primordialmente filosóficas: pré-compreensão, de cunho heideggeriano (um “ser(ou estar?)-no-mundo-com-outros”),  cujo “estudo empírico […] está no âmago da Ciência da Informação”, associada a uma hermenêutica pragmática. Do ponto de vista das Ciências Sociais, que é o nosso pois nelas se situa a CI, a pré-compreensão é problemática, pois subentende uma existência prévia ou em si do entendimento, quando, de fato, para o cientista social Bourdieu, esse entendimento é um habitus, que resulta antes de práticas incorporadas, expectativas e condições sócio-históricas particulares. A partilha de conhecimento pressupõe a possibilidade de intercompreensão, daí a necessidade para a CI, e para a DC, de uma abordagem teórica da compreensão. Mas admitir a existência de uma compreensão a priori equivale a substancializar o entendimento, por mais que se adote a pragmática e a hermenêutica.

Se recusamos a linguagem ideal, que postula uma comunicação predeterminada e objetiva em si, aceitamos que a partilha de conhecimento implica escolhas linguísticas. Ora, essas nunca são socialmente neutras, nem mesmo na mais racional filosofia de Heidegger. O mesmo se aplica às palavras usadas para partilhar o conhecimento técnico, no caso a Terminologia, adotada no paradigma sócio-cognitivo da CI de Capurro e Hjorland: a face perceptível do termo, i.e. sua denominação, não resulta de uma livre escolha, mas da relação de forças entre os atores cognitivos, e omiti-lo reduz a linguagem a uma mera necessidade mecânica de comunicação, puramente objetiva, à serviço de trocas econômicas 'racionais'. O limite da análise terminológica, para a perspectiva que é a nossa, é que não contempla problemas de não-acumulação de conhecimento, como a rejeição social de um termo por parte do receptor, não porque é falso, mas por causa da conotação de sua denominação.

Não existiriam categorias absolutas, eternas e definitivas, nem mesmo a de pré-compreensão, inevitavelmente linguística, a qual emerge em um dado momento histórico, na voz de autores que ocupam uma certa posição social, a qual influi sobre as condições pragmáticas de sua compreensão (produção e interpretação). Não se verifica, nas ciências sociais, uma transcendência absoluta das condições sócio-históricas particulares de produção e recepção – partilha – do conh