DANIEL RIBEIRO MERIGOUX


TESE DE DOUTORADO - PhD - THÈSE DE DOCTORAT

2014 - INSTITUTO BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA (IBICT)/ UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (UFRJ)

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA, A BARREIRA DA LINGUAGEM:

Univocidade e acumulação de conhecimento, reprodução e desigualdade simbólicas


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RESUMO (português), ABSTRACT (english), RÉSUMÉ (français)

RESUMO

A existência de uma barreira da linguagem, transponível por uma “tradução” em que se perde a verdade pura, justifica geralmente a Divulgação Científica (DC). Problematizamos esse pressuposto retraçando as diferenças teóricas entre as linguagens ditas científica e leiga, bem como sua construção sócio-histórica. Concebemos a DC como parte de uma Comunicação Científica estendida, intra e extrapares, na perspectiva da acumulação de conhecimento, pautados mormente pelos conceitos de reprodução e capital simbólico de Bourdieu. Apreendemos cientista e leigo como atores comparáveis, embora socialmente distintos, recusando qualquer separação a priori, absoluta, natural ou anistórica entre eles. Os primórdios da DC são geralmente datados dos diálogos de Galileu e Fontenelle no século 17. Mas os modernos defendem primeiro o sigilo. Herdeiros do “Mênon” de Platão, aderem a uma filosofia pitagórica tão restrita ao par quanto o “artificial” latim, mesmo quando opõem a este o logos inato, vivo e dialético, representado pelos romances. Contra o poder central papal e o monopólio escolástico das universidades, a quantificação moderna do mundo legitimava os soberanos das nações europeias mercantilistas nascentes, patrocinadores das academias científicas oficiais. A linguagem do Livro da Natureza de Galileu é absolutamente divina: afirma um universo unificado e unívoco, acima das disputas clericais e interpretações qualitativas da Bíblia, mas nega à expressão leiga qualquer verdade científica, inviabilizando a Divulgação. Em vista disso, a DC surge na Atenas dos séculos 5 e 4 a.C., quando a retórica faz a dialética privada entrar na arena pública, governada por escolhas democráticas. Aristóteles seculariza a verdade filosófico-científica, imputando-a a um ato de fala humano, explicitamente regrado pela univocidade sistemática (uma palavra=um sentido), a qual distingue até hoje a linguagem científica da leiga. A definição do Termo impõe à determinação bivalente da verdade tanto quanto à sua comunicação a seleção de um único sentido correto entre aqueles possíveis, prefigurando uma teoria da informação, sem estatísticas. Associada à escrita e ao dialógico agonístico, a univocidade perpetua a ordem social pelo desempate e acerto simbólicos. Oposta à violência física e ambiguidade oraculares, transmite a verdade segundo um ideal de reprodução sem perda. Traduz partes do discurso profano em símbolos impessoais eternos, equivalentes às entidades pitagóricas imateriais e sagradas. Essas, demostradas pelo ato de fala, podem ser trocadas na ágora como bens simbólicos “purificados” entre cidadãos “pares”. A posse da verdade torna-se publicamente perceptível, “qualificando” o leigo pelo “déficit” simbólico, espiritual, moral, cognitivo, social. As linguagens lógico-matemáticas seguem ocultando as marcas linguísticas (pessoa, tempo e modalidade) do ator mortal que as profere. Na perspectiva quantitativa, histórica e progressista da Modernidade, a expressão da experiência e verdades antes incomensuráveis, torna-se unificada, previsível, replicável, incrementável, universal e capitalizável como divisas simbólicas. Antes portado apenas pela voz do filósofo, o ideal de reprodução é impulsado pela mecanização dos meios de comunicação: desde a imprensa até o sinal da comunicação digital, a verdade transmite-se com menor perda física, tempo e intervalo, a um público sempre mais numeroso e distante, enquanto a reprodução sócio-simbólica do cientista cresce exponencialmente. Contudo, nunca foram comprovadas a existência de uma comunicação absolutamente sem perda ou de uma unidade de sentido a priori ou naturalmente pré-segmentada, refutando uma diferença linguística irreversível entre científicos e leigos. Como o Hípaso de Metaponte da lenda pitagórica, divulgador efetivo da “imperfeição” dos números irracionais e origem humana da ciência, hoje os hackers expõem as falhas da linguagem computacional unívoca, a qual separa as sociedades ditas imaterial e material na “nova” ordem tecnológica informacional.

Palavras-chave: Divulgação Científica; Barreira da Linguagem; Linguagem Científica; Capital Simbólico; Univocidade;Tradução; Reprodução Social.

ABSTRACT

Science Popularization (SP) is generally justified by a language barrier, overcame by a “translation” that loses “pure” truth. We discuss this presupposition tracing the theoretical differences between so-called scientific and common languages, as well as their socio-historical construction. We assume SP is part of a Scientific Communication extended to both peers and non peers, in the perspective of knowledge accumulation, mainly based on Bourdieu's notions of symbolic capital and reproduction. We comprehend Scientists and laypersons as comparable actors, nevertheless socially distinct and not separated by any a priori, absolute, natural or innate characteristic. While it is admitted that early SP dates back to Galileo's and Fontenelle dialogs, the moderns prove firstly to be secretive. Heirs of Plato's Meno, they stick to a Pythagorean philosophy, as restricted to peers as the “artificial” Latin, even when they oppose to this the dialectic, innate and living logos, represented by romances. Against central papal power and scholastic university monopoly, moderns' universe quantification legitimates the emerging Mercantile European nations' sovereigns, who funded the official academies of science. The language of Galileo's Book of Nature is absolutely divine, above clergymen disputes and qualitative Bible interpretations. But it denies any scientific validity to lay expression of truth, then obstructing SP. Considering this, SP emerges in Athena during 6th-5th centuries BC, when rhetoric makes private dialectic enter the public arena, governed by democratic choices. Aristotle secularizes philosophico-scientific truth, imputing it to a human speech act, explicitly ruled by systematic univocity (one word=one meaning), which until now distinguishes scientific from common language. Term definition imposes to bivalent determination of truth and its communication the selection of a single correct meaning among possible ones, prefiguring an information theory yet without statistics. Combined with writing and agonistic dialog, univocity perpetuates social order trough symbolic settlement. Contrary to oracular ambiguity and physical violence, it transmits and accumulates truth according to an ideal of lossless reproduction. It translates parts of profane discourse into impersonal and eternal symbols, equivalent to Pythagorean entities, immaterial and sacred. Demonstrated trough a speech act, these can be exchanged in the agora, as “purified” symbolic goods, between citizen “peers”. Truth possession turns publicly perceptible, “qualifying” layperson by his symbolic, spiritual, moral, cognitive, then social “deficit”. Still, logico-mathematical languages hide the linguistic markers (person, tense, modality) of the mortal actor who utters them. In the quantitative, historical and progressive perspective of Modernity, the expression of incommensurable experiences and truths becomes unified and predictable, universal replicas that can be incremented and capitalized as symbolic currencies. Once restricted to philosophers' voice reach, the ideal of reproduction is boosted by the mechanization of communication techniques. From printing to the signal of digital communication, truth is transmitted with decreasing physical loss, time and interval, to an always more numerous and distant public, while scientists socio-symbolic reproduction grows exponentially. Nevertheless, neither lossless communication nor naturally pre-segmented or a priori units of meaning have ever proven to exist in absolute, refuting any impassable linguistic differences between laypersons and scientists. Just as Hippasus of Metapontum in the Pythagorean legend indeed popularized the “imperfection” of irrational numbers, betraying the human origin of Science, today's hackers expose the flaws of the univocal computing language, which divides our “new” informational and technological order into the so-called immaterial and material societies.

Keywords: Popularization; Language Barrier;Scientific Language; Symbolic Capital; Univocal Meaning; Translation; Social reproduction.

RÉSUMÉ

La vulgarisation scientifique (VS) se justifie généralement par l'existence d'une barrière du langage, qu'elle dépasserait par une traduction où la pure vérité est perdue. Nous discutons ce présupposé par l'analyse des différences théoriques entre les langages dits scientifique et commun, ainsi que de leur construction socio-historique. La VS est conçue comme partie d'une Communication Scientifique étendue aux non pairs, dans la perspective de l'accumulation des connaissances, fondée principalement sur les notions de reproduction et de capital symbolique de Bourdieu. Bien que socialement distincts, le profane et le scientifique sont appréhendés comme des acteurs comparables, étant exclue leur séparation a priori, absolue, naturelle ou anhistorique. Bien que les débuts de la VS soient généralement datés des dialogues de Galilée et de Fontenelle, les modernes défendent tout d'abord le secret. Héritiers de l'antique Ménon de Platon, ils adhèrent à une philosophie pythagoricienne, aussi restreinte au pair que le latin « artificiel », bien qu'ils lui opposent un logos inné, vivant et dialectique, représenté par les romans. Contre le pouvoir central du pape et le monopole scolastique de l'université, la quantification moderne du monde légitime les souverains mercantilistes des nations européennes naissantes, pourvoyeurs des académies officielles de science. Le langage du Livre de la Nature galiléen est absolument divin : il affirme un univers unifié et univoque, au-dessus des disputes cléricales et des interprétations qualitatives de la bible. Mais en refusant toute validité à l'expression profane de la vérité, il condamne la VS. Sous cet aspect, la VS naît dans l'Athènes du Ve-VIe s. a. JC, lorsque la rhétorique fait entrer la dialectique privée dans l'arène publique, gouvernée par des choix humains. Aristote sécularise la vérité scientifico-philosophique, en l'imputant à un acte de parole humain, explicitement réglé par l'univocité systématique (un mot=un sens), laquelle distingue jusqu'à nos jours langage scientifique et commun. La définition du Terme impose à la détermination bivalente de la vérité, et à sa communication, que soit sélectionné un seul sens correct parmi ceux possibles, préfigurant une théorie de l'information sans les statistiques. Associée à l'écriture et au dialogue agonistique, l'univocité perpétue l'ordre social par le départage et le règlement symboliques. Opposée à la violence physique et à l'ambiguité oraculaires, elle transmet la vérité selon un idéal de reproduction sans perte. Elle traduit des parties du discours profane en symboles impersonnels éternels, équivalents aux entités pythagoriciennes, immatérielles et sacrées. Démontrées par l'acte de parole, celles-ci peuvent être échangées sur l'agora en tant que biens symboliques « purifiés », entre « pairs » citoyens. La possession de la vérité devient publiquement perceptible, qualifiant le profane par un déficit symbolique, spirituel, moral, cognitif et enfin social. Les langages philosophico-cientifiques néanmoins occultent les marques linguistiques (de personne, temps et modalité) du mortel acteur qui les profère. Dans la perspective quantitative, historique et progressive de la Modernité, l'expression d'expériences ou qualités auparavant incommensurables est désormais unifiée, prévisible, réplicable, incrémentale, universelle et capitalisable telle des devises symboliques. Avant porté par la seule voix du philosophe, l'idéal de reproduction est impulsé par la mécanisation des moyens de communication : depuis l'imprimerie jusqu'au signal de la communication numérique, la transmission de la vérité se fait avec une perte physique, temps et intervalle toujours réduits, à un public toujours plus nombreux et distant, tandis que la reproduction socio-symbolique des scientifiques croît exponentiellement. Mais ni la communication sans perte ni l'existence d'une unité de sens a priori ou naturellement pré-segmentée ne se sont vérifiées dans l'absolu, ce qui réfute une différence linguistique insurmontable entre scientifiques et profanes. Tout comme Hippase de Métaponte dans la légende pythagoricienne, proprement vulgarisateur de« l'imperfection » des nombres irrationnels et par là de l'origine humaine de la science, les hackers d'aujourd'hui exposent les failles du langage computationnel univoque, lequel, dans l'ordre techno-informationnel « nouveau », sépare la société dite matérielle de l'immatérielle.

Mots-clés : Vulgarisation scientifique ; Barrière du Langage; Langage Scientifique; Capital Symbolique; Univocité;Traduction; Reproduction Sociale.